Peça dirigida por Cibele Forjaz mescla crise brasileira e Dostoiévski

Em cartaz em BH, espetáculo reúne alucinações provocadas pela literatura e o intrigante universo da alma humana retratado pelo autor de O idiota

por Márcia Maria Cruz 08/06/2018 08:00
Cacá Bernardes/divulgação
Cacá Bernardes/divulgação (foto: Cacá Bernardes/divulgação)
Alucinógenos levam a estados alterados de consciência. As imagens aparecem desconexas, combinadas de maneira não linear, enquanto passado, presente e futuro se misturam. As alucinações inspiraram o novo espetáculo da Cia. Livre e da Mundana Companhia, que chega ao Centro Cultural Banco do Brasil, em Belo Horizonte, no fim de semana. Dostoiévski-trip se baseia na obra homônima de Vladímir Sorókin. Pela segunda vez, os grupos paulistas mergulham na obra do gênio russo, depois de encenar O idiota, uma novela teatral, que estreou em 2010.

A temporada no CCBB começa sábado (9) e segue até 9 de julho. Proibidos, alucinógenos são substâncias naturais ou químicas. No entanto, o que está em questão – a literatura – não é vedado por lei. Dirigida por Cibele Forjaz, a peça põe em diálogo o universo de Fiódor Dostoiévski (1821-1881) com o Brasil. Não é preciso overdose para perceber que nossa realidade brutalizada pode ser muito menos crível do que a ficção.

Nesta primeira montagem brasileira do texto de Vladímir Sorókin, o elenco conta com Aury Porto, Edgar Castro, Guilherme Calzavara, Luah Guimarãez, Lúcia Romano, Marcos Damigo, Sergio Siviero e Vanderlei Bernardino. A narrativa se desenrola a partir da oferta de um traficante de drogas, que propõe uma “viagem” especial. Enquanto aguarda o alucinógeno chegar, o grupo conversa sobre Kafka, James Joyce e Simone de Beauvoir. Entre aquelas pessoas não há nada em comum, a não ser a dependência de substânciass que provocam novas sensações.

“Os sete personagens querem droga. São viciados em literatura e, naquele dia, resolveram tomar algo coletivo. Chega o dealer e diz que a única droga para sete pessoas é Dostoiévski”, adianta o ator Luah Guimarãez. A cena logo se desdobra no momento antológico do romance O idiota, quando a personagem Nastácia Felipo é leiloada por seu tutor.

“Os pais faleceram e Nastácia foi deflorada pelo tutor, que pretende passá-la para a frente por 75 rublos. Outro pretendente chega com uma oferta maior, de 100 rublos”, adianta Luah. A droga altera o quadro de consciência e os personagens experimentam uma espécie de pulsão. “Eles dão uma enlouquecida. Passam por good e bad trips”, afirma.

“Todas as histórias têm forte relação de trauma. Os espectadores as recebem assustados, porque poderiam ser nossas. Há violência e opressão, como o caso da neta que deveria cuidar do avô que sofreu derrame, mas o tortura. Ou do garoto que sofre bullying por ter um problema na perna. Outra cena é sobre o circo de Leningrado. E ainda outra sobre um garoto que tem a experiência de gozo na estação de metrô lotada. São histórias muito fortes”, diz o ator

Como ocorre durante as alucinações, a peça apresenta diferentes camadas imagéticas. “Brinco que ela começa realista. De repente, vira drama com O idiota, passa pela exaustão da droga, pela fisicalidade e a performatividade na infância. É teatro em desestruturação”, comenta Luah.

Escrito há 20 anos, trata-se de um texto pós-dramático, permitindo a inserção de cenas que remetem à realidade brasileira. “A Cibele tinha passado por um projeto do Brecht tanto com a Mundana quanto com a Cia. Livre. Ela está carregada com esse envolvimento com questões sociais”, diz Luah, observando que, nos últimos dois anos, o Brasil passou rapidamente por transformações profundas.

A diretora traz para o palco a experiência de pessoas pobres que vivem em ocupações urbanas, por exemplo. Inclusive, usou vídeos que registraram desocupações em São Paulo. “Uma delas ficava de frente para o Teatro Oficina. O prefeito João Dória entrou com a polícia metropolitana para desocupar a favela. A realidade de fora entra na realidade ficcional”, adianta o ator.

MARIELLE A opção por cenas da realidade brasileira se intensificou quando o espetáculo chegou a Brasília. O início da temporada por lá coincidiu com o assassinato da vereadora Marielle Franco, no Rio de Janeiro. A tragédia abalou o elenco, que entendeu ser importante levar para o palco a crítica social sobre o Brasil.

A metáfora da ocupação das ruas pelas pessoas é apresentada cenicamente. “De 2015 a 2018, em São Paulo, as pessoas em situação de rua aumentaram de 15 mil para 25 mil”, lembra o ator. No início, o cenário é composto por caixas de papelão. À medida que o enredo evolui, vídeos abrem fendas naquela realidade ficcional para mostrar a realidade brasileira.

DOSTOIÉVSKI-TRIP
Texto de Vladímir Sorókin. Tradução de Arlete Cavaliere. Com Cia. Livre e Mundana Companhia. Direção: Cibele Forjaz. Estreia sábado (9), às 20h. Até 9 de julho. De sexta a segunda-feira, às 20h. Sessões extras nos dias 10/6, 16/6, 24/6, 1º/7 e 8/7, às 17h. Teatro 1 do CCBB-BH. Praça da Liberdade, 450, Funcionários. Ingressos: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia-entrada). À venda na bilheteria e no site www.eventim.com.br. Informações: (31) 3431-9400 e 3431-9503

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