Musical sobre a Jovem Guarda chega a BH no fim de semana, estrelando a cantora Wanderléa

Em entrevista exclusiva ao EM, ela fala sobre feminismo e a relação da Jovem Guarda com a ditadura militar

por Pedro Galvão 31/05/2018 08:00



Caio Gallucci/Divulgação
(foto: Caio Gallucci/Divulgação)
Na Jovem guarda, ela foi protagonista, ao lado de Roberto e Erasmo Carlos, tornando-se um ícone para as mulheres de época. No documentário musical 60! Década de arromba, Wanderléa poderia ser interpretada por uma atriz mais jovem, que representasse a adolescente que lançou quatro discos antes de completar 20 anos. No entanto, é a própria Ternurinha quem está no palco, ao lado de numeroso elenco, contando a história da trilha sonora que até hoje empolga várias gerações. O musical tem apresentações de sexta-feira (1º) a domingo (3) em BH.

Lançado em 2016, fruto de uma pesquisa do roteirista Marcos Nauer e do diretor Frederico Reder, o espetáculo de quase três horas de duração contextualiza a ascensão de artistas que marcaram os anos 1960 com um novo padrão musical e comportamental no Brasil, sob influência do pop rock internacional. Inspirado por projetos biográficos anteriores, como os musicais biográficos de Tim Maia e Luiz Gonzaga, Reder, que é proprietário de teatros no Rio e em São Paulo, convidou Nauer para criar uma proposta um pouco diferente, “mais autoral”, segundo o roteirista. Assim nasceu a ideia de documentar a Jovem guarda.

“Havia uma vontade muito grande minha de trabalhar com a Wanderléa, aí fui estudar bastante e construí uma cronologia da década de 1960. Vi que ali já dava conta de uma história. Então usamos ferramentas de documentário para montar uma narrativa. Temos muitas coisas em cena – áudios, vídeos e fotos originais dos anos 1960. Além disso, as músicas cantadas estão em ordem cronológica de lançamento. Isso é um diferencial, porque elas dizem muito mais sobre o público do que sobre os artistas”, diz o mineiro Marcos Nauer, autor da peça e nascido em Governador Valadares, assim como a estrela principal. Ele exemplifica: “O começo dos anos 1960 tem a primeira imagem do lado escuro da Lua, por isso tantas canções sobre a Lua. Ou seja, há uma relação muito próxima das pessoas com as músicas, elas se lembram de histórias pessoais, é muito emocionante”.

Em cena, são 24 artistas interpretando grandes sucessos da Jovem guarda. Há 20 cenários, telões e um vasto figurino, que precisou de três caminhões para ser transportado a BH. Em razão da greve dos caminhoneiros, a temporada agendada em Vitória no fim de semana passado teve de ser cancelada, já que os caminhões ficaram parados na estrada. O repertório contempla hits que atravessaram gerações, como Banho de lua, Biquíni de bolinha amarelinha, Pra não dizer que não falei das flores, Era um garoto que como eu amava os Beatles e os Rollings Stones, Prova de fogo e Calhambeque. São canções que também dão testemunho de uma época em que artistas lutavam pela garantia de direitos enfrentando o aparato repressivo do regime militar.

POLÊMICAS No contexto de tensões políticas da época, a Jovem guarda foi alvo de polêmicas, tendo sido acusada, por exemplo, de  “importar a música norte-americana”. Hoje, Wanderléa minimiza a importância desses aspectos da história e aproveita o momento atual no palco para celebrar sua carreira. Com sucessos como Ternura e Pare o casamento, ela volta no tempo, à época em que se consolidou como uma das vozes femininas mais populares do país e também como símbolo de liberdade para muitas mulheres. Uma das pioneiras do país na difusão da minissaia – seu figurino no musical, complementado ainda pelas botas de cano alto –, ela se orgulha da trajetória construída.

“Fizemos um trabalho bonito de abrir uma cultura jovem para o Brasil. Trouxemos um estímulo para a música brasileira com nossas guitarras elétricas, toda uma frente de possibilidades novas. Trouxemos um modelo comportamental novo para a juventude, e isso fez surgir um movimento que o Brasil abraçou. Nunca imaginei que, depois de tantos anos, ainda marcasse tão forte a alma do povo”, diz Wanderléa.

Aos 71 anos, a mineira nascida em Santo Antônio do Pontal, distrito de Governador Valadares, que viveu sua infância em Lavras, inicialmente hesitou em aceitar o convite para atuar no musical. Mas hoje considera um sucesso o resultado da proposta à qual se rendeu. “Demorei muito para topar, nunca havia feito um musical e não sabia como isso seria. Mas, depois de algumas conversas com o produtor e diretor, chegamos a uma conclusão de que seria divertido. Entendi que interpretar eu mesma seria viável e embarquei no projeto. Mas imaginei que seriam apenas alguns meses no Rio e em São Paulo somente. Não imaginei que faria um sucesso tão grande, quase dois anos de projeto. Tem sido muito interessante”, afirma a cantora.

Três perguntas para...


Wanderléa
cantora

A Jovem guarda explode no Brasil numa época turbulenta, que coincidiu com o golpe militar, que instaurou a censura. Como você vê nossa situação hoje? Tem medo de que um cenário desses se repita?
A ditadura que questionamos é a que existia na nossa casa. Nossa relação com nossos familiares, a maneira que éramos criados. Éramos muito jovens, nem tínhamos entrado ainda em uma faculdade, onde a cabeça dos jovens se abre. Hoje tem a internet, que traz uma informação mais intensa, mas, naquela época, era mais difícil de acompanhar. Somos anteriores à Tropicália, Mutantes, ao Dzi Croquettes, à MPB. Quando éramos jovens e começando nossa carreira, eles estavam em casa, assistindo e podendo recriar o que achavam errado e o que achavam certo. Naquele momento, nossa alegria era fazer aquilo e fazer uma juventude acompanhar a gente. O país estava numa situação terrível, sabíamos disso de uma maneira superficial. O jovem naquela época não sabia tanto como hoje, mas a política continua difícil, estamos passando por uma fase terrível que, se o jovem não estiver acompanhando, poucas coisas vão interessar. Éramos jovens como os jovens de hoje, mas sem internet.

Como você tem acompanhado os acontecimentos das duas últimas semanas, marcadas pela greve dos caminhoneiros? Nesse contexto, há quem defenda intervenção militar. O que acha disso?

Seria um retrocesso. Tanto tempo buscando uma liberdade maior, e isso tudo que está acontecendo... Estou torcendo para a abertura da nossa consciência, para percebermos que deveríamos ter uma atitude melhor, com mais retidão. Temos que tentar uma vida mais consciente, inteligente, uma sabedoria maior para conduzir a vida do país, então estamos esperando as eleições. Esperando os resultados dos nossos candidatos e está muito difícil o momento para o povo, mas a nossa terra é tão grande, tão bonita, que vamos sair dessa situação, rezo muito para que seja em breve.

Você foi um símbolo muito importante para uma geração que a via como vanguarda da liberdade feminina. Hoje, a igualdade de gênero é uma bandeira urgente na sociedade. Como enxerga a situação atual das mulheres no Brasil? Acha que colaborou historicamente na luta pelos direitos das mulheres?

Fico muito feliz por ter sido uma referência de uma abertura maior. Muita coisa ainda deve ser feita, mas estamos conquistando. A mulher, pela situação histórica, sempre ficou atrás, sempre da porta para fora, fora da condução dos atos importantes do país. Temos que nos atentar, porque somos nós que geramos nossos filhos. Quando eu era jovem, lá em casa os homens podiam tudo e nós, nada. Tínhamos que ficar em casa fazendo bolo, preparando para ser uma dona de casa. Hoje, tudo mudou. Demos grandes passos, temos mulheres atuando em várias áreas. A mulher brasileira é muito forte, muito atuante, a maioria delas segurando duas jornadas, trabalhando. O homem é que tem que correr um pouco atrás. Estão muito assustados com essa percepção das mulheres de novos valores, mas o importante não é uma atuação machista da mulher. É importante trazer uma relação homem e mulher independente de gêneros, mais harmoniosa, de compartilhar mais, dividir melhor, aceitar melhor, discriminar menos. É um crescimento não só da mulher, mas do ser humano.

 

SERVIÇO - 60! Década de Arromba – Doc. Musical

Nesta sexta-feira, 1º de junho, e sábado, 2 de junho, às 20h30; domingo, 3 de junho, às 18h30, no Sesc Palladium (Rua Rio de Janeiro, 1046, Centro). 

Ingressos: Plateia I - R$ 140 (inteira) , R$ 70 (meia-entrada); Plateia II - R$ 100 (inteira) , R$ 50 (meia-entrada) ; Plateia III - R$ 50 (inteira) , R$ 25 (meia-entrada) Ingressos à venda nas bilheterias do teatro ou pelo site https://www.ingressorapido.com.br/event/6765/d/28477

Classificação: 12 anos 

Duração: 2h45 minutos 

Informações: (31) 3270-8100 e www.sescmg.com.br/sescpalladium/

 

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