Com o espetáculo 'Ciclos', Galpão Cine Horto inaugura sala dedicada a solos

Peça de Rita Maia traz reflexão sobre a escolha da maternidade, a autonomia da mulher e os empecilhos à legitimação de seus desejos e decisões

por Walter Felix 17/05/2018 08:30
Mirela Persichini/Divulgação
Atriz Rita Maria criou espetáculo baseado em sua decisão de ser mãe após os 40 anos. (foto: Mirela Persichini/Divulgação)

A atriz Rita Maia partiu de dilemas pessoais para criar o espetáculo Ciclos, que abre nesta quinta (17) o Teatro Insurgente – Mostra de Solos do Teatro Invertido. Em cena, personagem e intérprete se confundem quando são expostas as angústias de uma mulher decidida a engravidar após os 40 anos. Nascem dessa abordagem reflexões sobre o lugar social destinado à mulher e as limitações que lhes são frequentemente impostas.

“A grande pergunta que me fazem é por que esperei tanto tempo para tentar engravidar. Ser mãe é um desejo que tenho desde sempre, nunca tive dúvidas quanto a isso. Mas há o conflito entre querer ser mãe e também querer ser livre, independente. Quando você finalmente está preparada no sentido emocional e financeiro, a natureza lhe diz não”, diz Rita, aos 44 anos.

Em 2015, ela entendeu que a hora certa havia chegado. Desde então, passou a refletir sobre a gestação que muitos julgariam tardia. “Às vezes, a mulher não se dá conta de que não tem escolha. Digo que escolhi esperar o momento certo, mas talvez eu não tenha escolhido. Eu precisava dessa espera, ela foi necessária. Ter um filho é um movimento muito forte, uma transformação na vida de qualquer um. A maternidade é um eterno conflito entre liberdade e falta de escolha”, afirma.

Certa de sua decisão, Rita recebeu não só apoio das pessoas próximas. Houve quem a aconselhasse a desistir ou tentar ser mãe por outros meios, como a adoção. “As vozes sociais muitas vezes são internalizadas, falam dentro de nós. É muito louco: eu me sinto velha, mas sei que não sou velha. Os meus limites, até certo ponto, quem determina sou eu; as minhas decisões cabem somente a mim.”

CORPO Evocar a função social das artes cênicas é preocupação do grupo Teatro Invertido, do qual Rita Maia é integrante e fundadora. Ciclos extrapola a abordagem da maternidade e apresenta uma discussão política em torno do direito da mulher sobre o próprio corpo. Não era essa, entretanto, a pretensão da atriz. Ela afirma que seu foco sempre foi tratar da gravidez após os 40, assunto já suficientemente amplo, mas que permite uma série de questionamentos sobre a construção social do feminino.

“Há muitos assuntos que não são claramente tratados em cena, mas estão ali. Faço questão de explicitar que as decisões da mulher sobre si cabem exclusivamente a ela. O aborto não espontâneo, por exemplo, assim como engravidar, deve ser sempre uma decisão da mulher.”

Para a artista, mãe e mulher muitas vezes se fundem, mas não são dissociáveis – tampouco o anseio em gerar um filho é compartilhado por todas. “O ser mãe não anula o ser mulher, que continua tendo seus desejos, sua profissão... A maternidade é só uma parte da vida, não é tudo. Ainda perdura a ideia de que toda mulher é naturalmente mãe, mas não é”, opina.

Rita acredita que a abordagem, desenvolvida a partir de suas próprias experiências tem o potencial de dialogar com as vivências de grande parte das mulheres contemporâneas. “A cena trata da construção sobre que mulher é essa e qual lugar ela ocupa, questões que subvertem os meus dilemas pessoais. Muitas estão adiando a maternidade, esperando chegar aos 40, que é quando, geralmente, nós conquistamos uma estabilidade em nossas jornadas, mas também quando surgem as limitações físicas. Criamos uma ficção a partir do imaginário de um objeto, que no caso sou eu, mas o espetáculo tem a capacidade de transcender a minha pessoa e reverberar em outras mulheres.”

REGRAS Ciclos celebra a capacidade feminina de renovação, que ocorre de diversas formas. “Quando você fala em ciclo, é bem provável que as mulheres pensem no ciclo menstrual. Há esse sentido no título, é claro, mas pensamos também nos processos de movimento, de recomeço, de novas chances e oportunidades da vida”, diz a atriz.

Desde os 41 anos, quando decidiu engravidar, Rita sofreu três abortos espontâneos. As traumáticas experiências estão incorporadas ao espetáculo, mas ela não procura pela piedade do público. “Apesar dessas três perdas, não quis fazer da cena uma ode ao fracasso. Ao contrário, não estou chorando em cena, mas celebrando as possibilidades. Até certa idade, nós temos, todos os meses, novas chances de conceber uma criança. Não sou, hoje, a mesma mulher que começou a tentar engravidar, em 2015. É outra que está aqui, e agradeço sempre pelas possibilidades de recomeçar”, afirma.

A artista conta que investigou as possíveis razões para a perda dos filhos, mas as diversas possibilidades levantadas pelos médicos tornaram os episódios ainda mais angustiantes. Rita lembra, ainda, da recomendação de não contar a ninguém que estava grávida até o terceiro mês de gestação, levando em conta a possibilidade de abortar, o que lhe fez concluir que o aborto, mesmo espontâneo, se torna tabu.

“Várias mulheres abortam e não se fala a respeito. Quando aconteceu comigo, tive a sensação de que só eu tinha passado por aquilo, o que não é verdade. Morte, fracasso e perda fazem parte da vida. A cena também é uma forma de amparar quem esteve nessa situação”, diz Rita. “Os abortos estão em cena, mesmo que não sejam retratados como parte da história. As pessoas certamente conseguirão entender as reflexões sobre ciclos, possibilidades e perdas.”

SOLOS No solo de 50 minutos, Rita Maia trabalha o corpo de forma intensa, com dança, performance e improvisações, elementos que desenvolve desde o início da carreira. Foi a partir deles que criou uma dramaturgia não linear, concebida em parceria com a diretora Juliana Pautilla. “Quando formulamos a cena, eu estava totalmente imersa no assunto, porque era uma questão particular. Juliana trouxe um olhar externo, que me ajudou a criar algo que contemplasse tudo o que eu queria dizer”, conta a atriz.

O argumento nasceu em 2016, quando os integrantes do Teatro Invertido passaram a refletir sobre habilidades e intenções artísticas. “Nós elegemos coletivamente a crise como temática, motivados por aquele momento político, financeiro e social do Brasil. Os artistas foram trabalhar suas propostas individuais e, quando nos unimos, vimos que cada abordagem tinha a sua potência.”

A partir das crises individuais, correlacionados com problemáticas sociais, cada ator desenvolveu um solo. Ciclos, o primeiro deles, inaugura no Galpão Cine Horto uma sala dedicada a monólogos. “Passamos dois anos longe dos palcos, cada um trabalhando com seu próprio solo na tentativa de um fazer artístico diferente. Agora é o momento de mostrar tudo o que foi desenvolvido durante esse tempo”, diz Rita.

Em agosto, o ator convidado Francis Severino, sob direção de Dimitrius Possidônio, tratará de problemas referentes aos imigrantes, com Santiago. Às vésperas das eleições, em setembro, Robson Vieira apresenta Salvador, uma crítica aos “messias” que surgem na corrida presidencial, prometendo salvar o Brasil da pobreza e da corrupção. O universo feminino volta à cena em Carne, de Maria Rita Fonseca, que fecha a programação, em novembro, com uma discussão acerca dos direitos da mulher.

TEATRO INSURGENTE – MOSTRA DE SOLOS DO TEATRO INVERTIDO
Espetáculo Ciclos, de Rita Maia. Direção: Juliana Pautilla. De 17 de maio a 3 de junho: quinta a sábado, às 19h; domingo, às 18h. Não haverá sessão em 31 de maio. Sala Solo do Galpão Cine Horto (Rua Pitangui, 3.613, Horto. (31) 3481-5580). Ingressos: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia). Vendas pelo site www.sympla.com.br.

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