Com curadoria selecionada por concurso, FIT-BH terá a representatividade como tema

Vencedoras do edital que selecionou a proposta de curadoria para o festival contam que o conceito de 'corpos-dialetos' será o eixo de seu trabalho

por Walter Felix 03/05/2018 08:35

Juarez Rodrigues/EM/D.A.Press
A atriz, diretora e dramaturga Grace Passô e a atriz e pesquisadora teatral Soraya Martins assumiram a curadoria do FIT-BH 2018. (foto: Juarez Rodrigues/EM/D.A.Press)

Pela primeira vez em sua história, o Festival Internacional de Teatro Palco & Rua de Belo Horizonte (FIT-BH), criado em 1994, terá uma curadoria selecionada por concurso. A edição prevista para ocorrer entre 13 e 23 de setembro e que é a 14ª do festival, terá sua programação de atividades e espetáculos definida pela jornalista e crítica teatral Luciana Eastwood Romagnolli, a atriz e pesquisadora Soraya Martins e a atriz, diretora e dramaturga Grace Passô. Foi delas a proposta vencedora do edital de Seleção de Proposta de Curadoria realizado pela Secretaria de Cultura.

A proposta vencedora traz o conceito de “corpos-dialetos”, que diz respeito a grupos e indivíduos inscritos em perspectivas não convencionais. Os espetáculos selecionados deverão contemplar a diversidade, em diálogo com questões políticas e sociais latentes. Cabe notar que as curadoras terão o desafio de fazê-lo em muito pouco tempo, já que a seleção de espetáculos para um grande festival de teatro é tarefa que costuma exigir ao menos um ano de antecedência.

“A temática foi definida pensando em demandas locais e internacionais. A cena teatral, em BH e em todo o mundo, discute com muita força a questão da representatividade. Entendemos que era necessária uma programação que se abrisse para produções que não ocupam os lugares estabelecidos, que estão nas bordas”, afirma Luciana Romagnolli. “O dialeto é uma variante linguística que não é a oficial do país. Não tem a mesma legitimidade, mas tem riqueza cultural imensa e capacidade única de comunicação”, avalia.

NOVOS OLHARES Luciana conta que o conceito não diz respeito apenas à temática dos espetáculos que serão selecionados, mas também à estética, aos artistas e ao modo de produção. “A legitimação da arte obedece às referências eurocêntricas e norte-americanas. Como conhecer, então, o teatro africano ou um pouco mais da produção latino-americana? São esses movimentos que vamos buscar trazer: abrir espaço para esses outros corpos que também são maioria, que fazem com que a arte exista, mas que nem sempre são contemplados nos grandes festivais”, aponta a curadora.

Um olhar especial será destinado, então, aos espetáculos que promovam a arte negra, as discussões sobre gênero e a igualdade para mulheres, entre outros grupos sociais que lutam por espaço. “Isso não quer dizer que vamos trabalhar só com esse critério absoluto. Nossa intenção é voltar um olhar para a cidade, não só na seleção dos espetáculos, mas também das atividades formativas”, acrescenta.

A diversidade já se reflete no próprio trio de curadoras. Soraya Martins é pesquisadora e crítica de teatro afro-brasileiro. Reconhecida nacionalmente como um dos destaques de sua geração, a atriz e dramaturga Grace Passô tem peças de sua autoria já adaptadas para seis idiomas. Soma-se a isso o fato de serem três mulheres à frente da seleção. “Não há tantas curadoras em festivais como esse. Cada uma de nós temum olhar e um lugar social diferente, o que enriquece e potencializa o nosso trabalho”, diz Luciana.

Elas terão a colaboração de três assistentes: o performer e dramaturgo Anderson Feliciano, a pesquisadora e crítica teatral Daniele Avila Small e a artista de dança, antropóloga e mobilizadora cultural Luciane Ramos.

Annelize Tozzetto/Festival de Curitiba
Luciana Romagnolli integra o trio de curadoras (foto: Annelize Tozzetto/Festival de Curitiba)
URGÊNCIA As conexões das três profissionais no meio teatral poderão ser um trunfo na montagem da programação do 14º FIT-BH. Elas terão, afinal, menos de cinco meses para desenvolver esse trabalho. Enquanto curadores de grandes festivais trabalham por cerca de um ano, pesquisando e acertando as participações de artistas e companhias com agendas lotadas, o trio responsável pela mostra belo-horizontina precisará contar com brechas entre os compromissos dos futuros convidados.

Luciana conta que importantes grupos teatrais europeus exigem que os convites sejam feitos com pelo menos dois anos de antecedência. “Nosso modo de produção será complexo, o que nos impõe alguns limites. Mas também nos interessa olhar para trabalhos que não estão em grande circulação, mas em circuitos alternativos”, pondera.

“A curadoria é coletiva, há maior abrangência por estarmos pensando em conjunto. Não vamos poder viajar tanto para conhecer as produções pelo Brasil e pelo exterior, mas já vamos bastante ao teatro, assistimos a espetáculos de outros lugares. Vamos trabalhar a partir do nosso repertório de circulação pelo país e pelo exterior. Pretendemos, ainda, conversar com projetos da cidade a fim de pensar um intercâmbio com eles”, afirma Luciana.

A princípio, ela, Soraya e Grace deverão definir oito trabalhos nacionais e 10 internacionais. Ações e espetáculos locais serão definidos através de um novo edital, que será divulgado em breve.

 

CONTROVÉRSIAS Selecionadas na semana passada, Grace, Luciana e Soraya ainda acertam com a Secretaria Municipal de Cultura questões burocráticas, como prazos e orçamentos. Não está definida, por exemplo, a proporção de espetáculos de palco e de rua que esta edição terá. As decisões deverão ser tomadas após reuniões das curadoras com a Secretaria Municipal de Cultura (SMC) e a Fundação Municipal de Cultura (FMC).

“Demos sorte de trabalhar com uma equipe muito interessante, preocupada em entender as demandas da cidade, propondo, inclusive, esse formato completamente novo de edital de curadoria. É uma iniciativa interessante, pela ousadia e pela aposta na cidade”, opina Luciana. Ela entende que a falta de referência de qualquer outro evento que tenha adotado esse formato de curadoria deixa as profissionais “no escuro”. Mas elogia a proposta, sem precedentes até mesmo no próprio festival. “O FIT sai de certos núcleos, de uma zona desconhecida de pessoas que já desempenhavam a curadoria, e passa a ouvir o que a cidade tem a propor, abrindo espaço para ideias que nunca haviam se manifestado”, afirma.

A história do FIT registra uma série de conflitos envolvendo atraso em pagamento a grupos e até uma disputa entre a direção do festival e a equipe curatorial, que levou à renúncia desta última. “A autonomia já nos foi dada no momento em que participamos de um edital. Estamos em outra situação. Não fomos convidadas, fomos selecionadas pelo nosso projeto, é um contexto diferente. Ainda estamos descobrindo as condições de produção, mas sabemos que nosso principal desafio será trabalhar o melhor possível com pouco tempo”, diz Luciana.

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