Maternidade e androginia são temas de espetáculos que chegam a BH

Experiência da maternidade é abordada em Ondas de onde parto, espetáculo com Mariana Rabelo. Ludmilla Ramalho discute a androginia a partir de Orlando - Um prólogo, de Virginia Woolf

por Márcia Maria Cruz 08/04/2018 09:27
Marco Aurélio Prates/Divulgação
A atriz Mariana Rabelo mistura circo, teatro e pole dance para traduzir no palco o sentimento de ser mãe (foto: Marco Aurélio Prates/Divulgação)

A maternidade e a androginia são temas abordados nos respectivos solos das artistas Mariana Rabelo e Ludmilla Ramalho. Mariana segue em temporada até 22 de abril no Teatro Assembleia com Ondas de onde parto, em que aborda o momento do parto em performance no pole dance. Já Ludmilla apresenta Orlando – Um prólogo, resgate a obra homônima de Virginia Woolf (1882-1941), publicada em 1928.

O desejo de produzir Ondas de onde parto surgiu logo depois que Mariana se tornou mãe da pequena Celeste, de 3 anos. Com formação em teatro e circo, Mariana queria explorar diversas linguagens e viu que poderia tratar da temática a partir do diálogo entre teatro, música e pole dance. A atriz começou a trabalhar com Fernando Barcelos, que dirige o solo, quando prepararam cena curta para ser apresentada no La Movida Microteatro Bar. “Estava treinando pole dance e, na época, disse ao Fernando que queria fazer algo nesse equipamento”, relembra.

A sugestão do diretor a Mariana foi para que ela contasse a história do próprio parto, que ela já havia confidenciado a ele algumas vezes. Desafio aceito, ela convidou Letícia Andrade, que também é mãe, para desenvolver a dramaturgia. “Queria uma mulher que fosse mãe para dialogar comigo. Colocamos no solo os temas relacionados à maternidade, como gravidez, o parto, amamentação, primeira infância, a relação com o pai. O pole foi a ferramenta que escolhemos para contar essa história.” As coreografias executadas por Mariana foram pensadas para serem realizadas no mastro, mas a barra também tem outras funções em cena. “É o varal para pendurar as roupas do neném”, exemplifica. Ela faz os movimentos enquanto conta história e canta em cena.

A gestação foi período delicado para a atriz, que teve uma gravidez de risco e precisou ficar em repouso por três meses. O hospital que escolheu não tinha vaga na sala de parto normal. As equipes que a atenderam queriam prepará-la para fazer uma cesariana. “Minha filha nasceu muito rápido. No entanto, demorou a chorar: 30 segundos pareciam uma eternidade. Foi muito emocionante. O parto nos coloca em contato com o que é a maternidade”, diz. A relação com a palhaçaria fez com que pudesse lidar com as fortes emoções do parto de maneira mais leve. “A palhaçaria nos ensina a rir de nós mesmos, fazendo com o público se torne cúmplice e ria junto.” Ela brinca com as situações: “De tanto trabalho, a mãe, que amamenta, esquece para fora o peito e vai para pracinha. A criança fica pendurada na mãe 24 horas como um piercing de mamilo.” Uma das forças do espetáculo é a cumplicidade que cria com as mães.

Mariana fará sessão especial para mães em 21 de abril. Aberta ao público em geral, a apresentação será feita à meia luz para que a mãe possa circular com o bebê, embalá-lo se ele chorar e amamentar seguindo a livre demanda dele. “É para aquela mãe que não consegue sair de casa, porque ainda está num momento simbiótico com a criança. Na seção, a criança pode engatinhar e chorar. Digo à mãe que coloque o filho no carrinho e vá”, completa Mariana.

INVERNO

Ludmilla Ramalho lembra o quanto o livro Orlando, de Virginia Woolf, escrito no início do século passado, permanece atual. “Virginia aborda o gênero de forma tão diferente. Sem falar isso ou aquilo. Traz questionamento às caixinhas, essa coisa binária da nossa cultura que separa homem e mulher”, afirma. A artista destaca a maneira amorosa como a androginia é abordada. “É uma carta de amor para Vita, grande paixão da vida dela. É uma autora apaixonante. Identifiquei-me com a forma como ela trata a questão”, afirma. Virginia se relacionou afetivamente com Vita Sackville-West (1892-1962), poeta, romancista e paisagista inglesa.

Luiza Palhares/Divulgação
Concebida durante o inverno europeu, a peça de Ludmilla Ramalho usa texto da escritora inglesa e escritos pessoais (foto: Luiza Palhares/Divulgação)

No campo das artes, Ludmilla se dedica à performance. “O solo está atravessado pela linguagem performática. Coloco minha biografia também”, adianta A opção foi abordar o prólogo do livro. “Aparece lista de agradecimentos que é bem irônica. Agradece algumas pessoas e às que não a ajudaram. Ao contrário, só atrapalharam e não apoiaram.” A dramaturgia é de Diego Bagagal que trabalha com o texto de Virginia e escritos de Ludmilla.

O livro promove um deslocamento de olhar, trazendo dubiedade. Para ressaltar esse aspecto, Ludmilla convidou a artista Sônia Pinto para fazer o figurino. “É uma artista que há 40 anos dialoga com androginia na roupa produzida por ela. As peças criadas por ela podem ser vestidas por homens ou mulheres.” Em cena, a atriz permanece sentada em uma cadeira com um livro e fumando cigarro e charuto. “Virginia fumava muito. O tempo todo”, diz.

Ludmilla conta que tinha “urgência enquanto artista para montar esse projeto”. “Discuto a questão na minha vida. Nasci como mulher e fui criada para casar e ter filho. Tive que me transformar um pouco”, revela. Para ela, as mulheres vivem constantemente a dubiedade da androginia. “O que a gente veste interfere em como o outro se relaciona conosco,” diz a atriz, que opta por vestuário andrógino. “Uso roupas que provocam dubiedade e sinto no olhar das pessoas. Isso está nas minhas relações afetivas e amorosas, com pais, irmãos e pares”, completa.

O solo foi criado quando ela estava em Portugal e na Inglaterra a trabalho. “A obra foi criada no inverno, o que fez diferença para a linguagem e na essência do espetáculo. Virginia Woolf é uma obra de inverno e de uma introspecção absurda”, conclui.

ONDAS DE ONDE PARTO
Solo de Mariana Rabelo (Coletivo Sala Vazia). Até 22 de abril, sextas e sábados às 20h e domingo às 19h. Dia 21 de abril (sábado), às 16h, sessão extra especial voltada a mães com bebês, com entrada a R$ 10. Teatro da Assembleia (Rua Rodrigues Caldas, 30, Santo Agostinho, (31) 2108-7827). Ingressos: R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia).

ORLANDO, UM PRÓLOGO
Solo de Ludmilla Ramalho, com direção de Diego Bagagal. De 13 a 22 de abril, sexta e sábado às 20h e domingo, às 19h. Teatro de Bolso do Sesc Palladium (Av. Augusto de Lima, 420, Centro, (31) 3270-8100). Ingressos: R$ 15 (inteira) e R$ 7,50 (meia), na bilheteria ou pelo site www.ingressorapido.com.br

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