Peça com Malvino Salvador cruza Nelson Rodrigues e a cultura das fake news

Montagem do clássico Boca de Ouro, em cartaz em BH, faz referência também elementos tipicamente cariocas, sob direção de Gabriel Vilela

por Cecília Emiliana 17/03/2018 07:00
Fotos: João Caldas/ Divulgação
(foto: Fotos: João Caldas/ Divulgação)
Mitológico personagem de Nelson Rodrigues (1912-1980), Boca de Ouro é inspirado na riquíssima fauna de tipos cariocas. O biógrafo Ruy Castro, no livro O anjo pornográfico, conta que o dramaturgo só teve o trabalho de combinar dois deles: um motorista da linha de ônibus que o levava para almoçar na casa da mãe, orgulhoso de ter todos os dentes em ouro maciço, e o lendário bicheiro Arlindo Pimenta.

Atento a esse universo carioca, o diretor Gabriel Villela montou a sua versão do clássico do teatro brasileiro, que estreou em 1959. Neste fim de semana, a peça fica em cartaz em Belo Horizonte. Protagonizado por Malvino Salvador, o espetáculo reconstitui a morte do temido malandro Boca de Ouro, conhecido não só por exibir a valiosa arcada dentária, como por matar os inimigos com  uma mordida na jugular.

A história é contada por Guigui (Lavínia Pannunzio), ex-amante do contraventor, que narra três versões distintas do assassinato investigado pelo repórter Caveirinha (Chico Carvalho). As principais suspeitas recaem sobre o casal Celeste (Mel Lisboa) e Leleco (Cláudio Fontana).


Villela transformou o palco em um salão de gafieira – inicialmente, em meio a trevas. No primeiro momento, os figurinos, confeccionados em camadas, também são sombrios. No desenrolar da trama, a atmosfera típica do carnaval dos anos 1950 vai tomando conta do ambiente. O cenário, então, explode em confetes, serpentinas e brocal. O mesmo ocorre com as roupas dos personagens, que passam a ostentar várias cores. Tudo ao som de marchinhas carnavalescas na voz de Dalva de Oliveira e outras divas da Era do Rádio.

IANSÃ Outra referência estética de Boca de Ouro vem das religiões de matriz africana. Ao fim de cada um dos três atos, Iansã surge no palco como uma entidade de transição. “Todo carioca que se preze frequenta um terreiro de umbanda, candomblé ou os dois. Busquei um toque dessa cultura. A Iansã faz a passagem de um ato para outro dançando e lidando com seus objetos sagrados, como o vento que sopra uma versão da morte do Boca de Ouro para que outra possa ser contada”, explica o diretor Gabriel Villela.

A indumentária do protagonista traz ainda pinceladas da cultura asteca. O próprio Boca de Ouro remete a uma espécie de entidade, “governador” da civilização peculiar chamada morro.

Para tratar das diversas versões de Guigui para o assassinato do bicheiro, Gabriel Villela fez conexões com um fenômeno contemporâneo: a pós-verdade. “Estamos vivendo um momento muito particular, em que cada um cria a verdade de acordo com seu próprio interesse, publica nas redes sociais e aquilo viraliza. Isso tem tudo a ver com a maneira como a Guigui fala do homem que foi amante dela: ora com raiva, ora com ternura, ora com receio de magoar o marido apaixonado (Agenor, papel de Leonardo Ventura). Claro que, em 1959, quando Nelson escreveu a peça, não havia computador nem internet. Mas ele já sabia que quem conta um conto não só aumenta um ponto, como o adapta à sua conveniência. É muito louco como a tecnologia atualiza isso nos dias de hoje”, diz o diretor mineiro.

“Para compor o espetáculo, a gente se debruçou ainda sobre outras obras, como o filme Rashomon, de Akira Kurosawa, e as peças de Pirandello, que falam sobre esse complexo tema da verdade”, afirma Malvino Salvador.

O papel, que o ator define como o mais importante de sua carreira, já estava há algum tempo no “radar” dele. Há cerca de uma década, Malvino leu quase toda a obra de Nelson. Porém, não se achava pronto para interpretar um personagem rodriguiano.

“O convite do Gabriel despertou em mim essa coragem. Foi muito desafiador mergulhar no universo desse diretor tão consagrado, que imprime estilo não realista a suas montagens. E foi exatamente isso que ele fez em Boca de Ouro. Esse trabalho me exigiu muito, mas estou feliz com o resultado”, comemora Malvino.

O ator aponta a megalomania como o traço mais marcante do “Drácula de Madureira”. Depois de mergulhar no mundo onde o bicheiro se criou, ele diz compreender a origem desse comportamento. “O Boca nasceu na gafieira, cresceu em meio à marginalidade e se tornou o maior malandro de Madureira. Veio do nada e, de repente, tornou-se o cara mais respeitado da comunidade. Com isso, acabou se sentindo um verdadeiro deus e busca materializar isso. Criou para si mesmo uma trajetória mítica. Daí os dentes de ouro e o caixão que manda fazer, do mesmo material, para poder ser enterrado como alguém muito importante”, conclui.

BOCA DE OURO
De Nelson Rodrigues. Direção: Gabriel Villela.
Com Malvino Salvador, Mel Lisboa, Chico Carvalho e Leonardo Ventura. Sábado (17), às 21h, e domingo (18), às 19h. Grande Teatro do Palácio das Artes. Avenida Afonso Pena, 1.537, Centro, (31) 3236-7400. Plateias 1 e 2: R$ 60 (inteira) e R$ 30 (meia-entrada). Plateia superior: R$ 50 (inteira) e R$ 25 (meia-entrada). Vendas on-line: www.ingressorapido.com.br

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