Atores mineiros falam sobre experiência de encenar um monólogo

Profissionais com peças em cartaz na 44ª Campanha de Popularização do Teatro e da Dança refletem sobre a responsabilidade de subir sozinhos ao palco

por Walter Felix 26/02/2018 09:10
44ª Campanha/Divulgação
'Sozinho, eu me sinto muito confortável, porque domino esse tempo', diz Renato Millani. (foto: 44ª Campanha/Divulgação)

Manter sozinho a atenção do espectador e a qualidade em cena é um desafio para todo ator. Seja para dar maior profundidade ao drama do personagem ou a fim de desenvolver melhor a veia cômica do humorista, a árdua tarefa de protagonizar um monólogo teve sua recompensa ao longo da 44ª Campanha de Popularização Teatro e Dança, que se encerra no próximo fim de semana.

 

Mesmo quem tem experiência nas artes cênicas confessa o receio de ser o foco único da atenção da plateia. “A sensação é como estar à beira do precipício: você tem que se segurar, não pode cair jamais. Há uma responsabilidade muito grande, pois todo o espetáculo fica nas minhas mãos, não tenho outro ator para recorrer se algo acontecer”, afirma a atriz Iolene de Stéfano, protagonista de Essa mulher, que inicia curta temporada na Funarte na quinta-feira (1/3).


Concebida pelo Leela Grupo Teatral, a montagem reflete sobre o papel do feminino na sociedade e as diversas formas de preconceito que a mulher sofre ao longo da vida. No palco, Iolene dá vida a muitas mulheres, não a uma em especial. “Como um espetáculo contemporâneo, a personagem não tem características de persona, mas trata todo o universo da mulher de uma forma muito ampla”, diz a atriz.


Essa mulher estreou em junho de 2017. “Mesmo não tendo um público enorme, a gente percebe um envolvimento de quem vem nos assistir. Um amigo, após assistir ao espetáculo, disse que começou a repensar a educação da filha. É isso que a gente espera: levar uma mensagem para as pessoas, criar um espetáculo que faça a diferença.”


Não é a primeira vez que Iolene encara um monólogo. “É sempre difícil. Em cena, não há nenhum momento de descanso ou de troca. Os ensaios também são intensos, pois trabalho muito o movimento corporal e preciso estar naquele universo por inteiro. Se eu vacilar, o público vai olhar para quem? O foco é totalmente em mim, não há outro elemento em cena. Mas o palco é sempre uma responsabilidade, mesmo quando se está lá com outros atores. É importante ter essa consciência”, conclui Iolene.

 

Embora não tenha companheiros em cena, a atriz não se sente necessariamente desacompanhada.  “Estou sozinha no palco, mas não estou sozinha no espetáculo. Tenho todo um suporte de direção, amigos que me acompanham na trilha sonora, fora a relação com o público, que é essencial.”

HUMOR Fazer rir é mais difícil que fazer chorar? Para o ator Renato Millani, isso depende da experiência e do talento – que ele prefere chamar de “facilidade natural” – de cada ator. Há nove anos em cartaz com A Vovó em: vamos falar de sexo!, ele encara sozinho plateias lotadas com a missão de diverti-las ao longo de 60 minutos.


Segundo Millani, fazer comédia requer habilidades naturais que são desenvolvidas ao longo da carreira. Dessa forma, é possível dominar a plateia logo ao entrar no palco, ao passo que um texto dramático necessita de um longo trabalho para comover a audiência. “A construção do drama é mais demorada, envolve uma maior elaboração das emoções. O ator trabalha a história até que o público compre aquela ideia, crie empatia e se emocione, o que demanda tempo. A comédia, ao contrário, é imediata. Dificilmente você consegue emocionar o público imediatamente, mas é possível fazer rir em poucos segundos”, diz o comediante.


Para ele, estar acompanhado em cena nem sempre é garantia de segurança para o ator – tampouco será mais fácil, desta forma, fazer a audiência rir. “Quando se trabalha com mais atores, há facilidades e dificuldades. Um parceiro em cena pode servir de ‘escada’, algo que ajuda o humor acontecer. Mas é preciso que todos tenham o time (tempo de humor) em sintonia. Para fazer comédia, o ator precisa ter um ritmo muito bom de execução da piada que está inserida no texto. Sozinho, eu me sinto muito confortável, porque domino esse tempo. E o monólogo acaba sendo mais fácil, porque não dependo da habilidade de um outro ator.”


Dirigido por Amauri Reis, o espetáculo tem roteiro do próprio Millani. Mas há momentos de improviso, nos quais a Vovó abandona o texto previamente escrito e responde às perguntas da plateia. “O improviso faz com que o espetáculo nunca seja a mesma coisa. Muitas pessoas vão assistir para resolver problemas entre elas, como no dia em que apareceram duas primas envolvidas com o mesmo homem”, diz.


No momento de interação com a plateia, o espetáculo depende unicamente da sagacidade do humorista, que deve estar preparado para fazer graça em tempo real. “Quando vejo que já amaciei o público com o texto fixo, entro na parte do improviso. Aí podem perguntar o que quiser para a Vovó. O espetáculo cresce muito nessa hora”, comenta.

AUTORAL No último fim de semana, Ana Régis concluiu na Funarte as apresentações do espetáculo Peixes, montagem em que desempenhou as funções de atriz, roteirista, diretora, produtora e todas as demais incumbências para levar sua peça aos palcos.


No espetáculo, a atriz encarna Cláudia, mulher de 47 anos que relata casos de violência doméstica e assédio moral que sofreu ao longo da vida. O texto é inspirado em depoimentos reais. “Peguei todas as histórias que consegui e juntei em uma personagem só. As únicas partes ficcionais são os recursos que usei para conseguir unir todos os casos em uma só pessoa”, conta Ana.

 

Mesmo estando envolvida em todas as etapas do espetáculo, ela diz que não esteve sozinha no processo de concepção. “Chamei amigos e artistas com afinidades em comuns, além de feministas e psiquiatras para darem pitacos e observações. Eles me deram várias ideias, porque há coisas que, por estarem dentro da cena, eu não conseguia ver”, afirma.


Ana entende que o monólogo é a melhor linguagem para o tratamento dos temas propostos. “Eu queria que fosse uma mulher contanto a própria história, não outras pessoas dando seus pontos de vista. É importante ouvir da Cláudia as coisas que ela escutava do marido, da avó e da mãe, por exemplo”, defende a atriz.


Ainda assim, ela revela ter se sentido sobrecarregada. Por não precisar prestar conta de horários e atender a ensaios programados, Ana acabou submetida às suas próprias cobranças, que lhe pareceram mais rigorosas que as de qualquer diretor. “Estou no teatro desde 1988 e é a primeira vez que faço monólogo. O que percebo é que essa experiência chegou em minha vida no momento em que estou preparada como mulher e como artista. O monólogo me deu confiança de que sou capaz; de que posso realizar as coisas, independentemente das outras pessoas.” Ela considera, entretanto, que o ator aprende tanto ao se apresentar sozinho quanto ao compor um elenco. “Quando estamos sós, temos um controle maior da dinâmica da cena. Às vezes mudo o texto, faço experimentações que não seriam possíveis em um trabalho conjunto. Por outro lado, não tenho o jogo de cena com um colega, não há a contracena, que é sempre algo muito rico e prazeroso”, opina.


“Mas o pior de tudo é ficar sozinha no camarim”, brinca a veterana. “O camarim sempre é uma festa, desde antes do espetáculo, nos momentos de concentração, até depois, quando tiramos a maquiagem e comentamos a apresentação.”

 

É comum que atores optem por monólogos por razões além das criativas. “No início, não era a intenção fazer o espetáculo totalmente sozinha, até porque eu achava que aquele texto não era para mim. A opção não foi motivada por planejamento, mas por contingências: principalmente por conta da falta de patrocínio e da dificuldade de horários para ensaiar”, relata Ana Régis.


Iolene de Stéfano observa que a dificuldade de patrocínio também motiva os atores a subirem sozinhos ao palco. Mesmo para as companhias teatrais, a opção sai mais barata. "Essa mulher é feita “na tora”, com colaboradores e apoiadores", afirma a atriz.

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