Maitê Proença faz o papel de uma viúva libertária em peça que estreia em BH

A mulher de Bath, dirigida por Amir Haddad, se inspira em conto escrito no século 14 por Geoffrey Chaucer

por Márcia Maria Cruz 28/10/2017 09:30
Daniel Chiacos/divulgação
Maitê Proença diz que texto escrito em 1386 vai surpreender as plateias do século 21 (foto: Daniel Chiacos/divulgação)

Casada cinco vezes, Alice se junta aos homens numa peregrinação religiosa e, ao longo do percurso, revela seus desejos e anseios. A descrição poderia se encaixar perfeitamente a uma mulher do século 21, que assume tal postura devido à emancipação feminina. Nada disso. Trata-se de uma personagem do século 14 apresentada no conto A mulher de Bath, escrito em 1386 por Geoffrey Chaucer no livro Contos da Cantuária.

Neste sábado (28), BH assiste à estreia nacional da peça inspirada no texto de Chaucer, dirigida por Amir Haddad e protagonizada por Maitê Proença e Alessandro Persan. Em junho, o mineiro Amir trouxe à capital o espetáculo Antígona, protagonizado por Andrea Beltrão. “A primeira palavra é do ator, que diz o texto que pretende interpretar. A minha função é ajudá-lo”, afirma o diretor.

A escolha de Belo Horizonte para a estreia se deve ao fato de o público mineiro servir como uma espécie de “termômetro”. “Queríamos estrear fora do Rio de Janeiro. BH é uma cidade que nos dá noção da qualidade do trabalho”, pontua o diretor.

O texto foi escolha da própria Maitê Proença. “Essa mulher do século 14 traz um discurso que parece escrito nos tempos atuais. Um discurso que afronta o pensamento machista que está se instalando no Brasil, o sexismo que se manifesta de forma tão violenta”, afirma Amir Haddad. O conto surgiu no final da Idade Média e início do Renascimento – portanto, antes da constituição do teatro moderno. “Shakespeare bebeu muito na fonte de Chaucer. Podemos identificar muitos elementos de Chaucer na obra dele”, explica Haddad.

Ao se referir ao novo espetáculo, o diretor prefere empregar o termo desmontagem em vez de montagem: “Abrimos o texto até chegar à essência. O propósito é quebrar a rigidez para ver o recheio que o autor colocou.” De acordo com Haddad, neste momento que o Brasil enfrenta, com tentativas de censurar a arte, é um desafio encontrar formatos contestadores. “Faço o teatro que discute a ética da burguesia e a estética que vem daí”, reforça.

Amir propõe um jogo cênico horizontal, em que ator e plateia possam estabelecer um diálogo franco. A ideia é que o palco seja o espaço onde o ator possa se colocar de forma mais inteira, quebrando “a quarta parede” que o separa do público. Para isso, Amir buscou texto não teatral, embora tenha teatralidade. “É um texto anterior ao teatro como o conhecemos”, explica. Trata-se do pós-teatro. “Eliminamos os resquícios de ilusão e imitação”, diz o diretor.

Alice, papel de Maitê Proença, é católica e sai em busca da liberdade. “Rica, ela herdou dinheiro dos ex-maridos. Também é muito livre”, diz Amir Haddad. A personagem manifesta o desejo de se relacionar com diversos homens. Religiosa, pede a Deus que leve os maridos. “O espetáculo gira muito em torno do que a mulher deseja, da busca dela”, conclui.

A MULHER DE BATH
Direção: Amir Haddad. Com Maitê Proença e Alessandro Persan. Sábado (28), às 20h; domingo (29), às 19h. Cine Theatro Brasil Vallourec. Praça Sete, Centro. R$ 80 (inteira) e R$ 40 (meia). Informações: (31) 3201-5211 ou (31) 3243-1964.


Entrevista

Maitê Proença

atriz

‘‘Estou livre da TV’’

Contos da Cantuária é obra fundadora da literatura inglesa. Quais os desafios de encenar esse texto precursor de Shakespeare?

Não haveria a língua inglesa, como é falada e escrita hoje, se não fosse por Chaucer. Antes dele havia dialetos. Chaucer deu à literatura inglesa a sua língua. E a tradução do José Francisco Botelho é uma joia toda rimada, inspirada nas trovas do Sul e nos cordéis do Nordeste.

O conto A mulher de Bath data do século 14. Já naquele momento podemos falar de emancipação e protagonismo femininos?

Chaucer teve a audácia e a graça de colocar essa história, que nós transformamos em teatro, na boca de uma mulher. Uma mulher que ama a vida, a alegria, o riso, o sexo, os homens, a diversão. Ela é bem falante, tem ideias arrojadas e desejos à flor da pele, e a tudo descreve sem pudor ou mentira. A mulher de Bath é profundamente religiosa, tudo o que faz justifica pela Bíblia. Isso resulta bastante divertido e cômico.

Neste momento de sua carreira, que peso você dá ao teatro e à TV?


Estou livre da TV. Fui dispensada (da Globo) depois de 37 anos de serviços prestados com grandes prazeres. Mas nem tudo foram flores. Gosto muito de fazer TV, mas ali os personagens nos são impostos, e, via de regra, os tipos seguem estereótipos. Agora, sem qualquer tutela, farei apenas o que considero de real valor. O Brasil precisa de qualidade e eu também. Escolhi o texto de maior valor que me passou pelas mãos nos últimos tempos, e o fiz com a certeza de que ele tem imenso apelo popular. Não quero falar para três pessoas. O que vamos apresentar é coisa sublime e divertida! Serão 50 minutos de puro prazer.

Em que medida a peça dialoga com a cultura brasileira?

É um texto de interesse universal. Aquela mulher falando de seus cinco casamentos, dos jogos e artimanhas do amor, das guerras infernais no casamento, do sexo e suas armadilhas, das diferenças entre homens e mulheres, da necessidade da soberania feminina, de seu pleito por liberdade. Ele foi surpreendente em sua época e vai surpreender agora.

Como foi a preparação para viver Alice?

O processo com Amir é denso, de escavação. Fizemos muita pesquisa, de toda ordem, mas sobretudo pra dentro do texto para que fosse dito com simplicidade, sem qualquer pompa. Com profundo entendimento, a fim de incluir o espectador a todo segundo, não perdê-lo nunca. O resultado é de imenso respeito com o público, para que em nenhum momento ele se sinta desconfortável por ouvir um clássico. Ele nem vai se dar conta (disso). Apenas vez ou outra, pela beleza da rima ou por ter sido transportado a estradas e castelos medievais. Quero dizer também que não estou só no palco. Tenho um parceiro que dialoga comigo, dança, coloca músicas, troca o cenário, tudo à vista do público.

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