Michel Melamed mostra em BH o espetáculo Monólogo público

Peça discute a dimensão social e privada a partir de suas próprias vivências para questionar o Brasil contemporâneo

por Mariana Peixoto 21/10/2017 16:00

Júlia Rodrigues/Divulgação
Júlia Rodrigues/Divulgação (foto: Júlia Rodrigues/Divulgação)
Qual a diferença entre dizer um texto em público e em um ambiente privado? É esse o jogo que Michel Melamed propõe com Monólogo público, espetáculo que apresenta hoje e amanhã, no Teatro Sesiminas. O ponto de partida da montagem – criada 10 anos após a chamada Trilogia brasileira, principal cartão de apresentações do ator, dramaturgo, diretor e poeta – foi a forma.

A peça foi concebida – ele é autor do texto, além de atuar e dirigir – a partir da seguinte ideia: um palco sobre um palco. Uma estrutura de 450 quilos sobre o palco do teatro marca a diferença entre os domínios público e privado. Quando está na estrutura, ele está no modo público; fora dela, no privado. “Quando você sobe no palco, há o olhar do outro em relação a você. Além disso, há também os recursos cênicos, corpo e voz do ator, figurino... E o que se estabelece na relação daquele palco com aquela plateia que está ali somente naquela noite”, comenta ele.

Assim como os monólogos anteriores – Regurgitofagia (2004), Dinheiro grátis (2006) e Homemúsica (2007) – o novo espetáculo é transdisciplinar. Mistura diferentes linguagens para tratar do Brasil contemporâneo. Em cena, Melamed recria sua própria vida até o momento presente, no caso, o próprio espetáculo.

“O que há de comum (entre os quatro monólogos) é o desejo de apresentar, sem concessões, a minha visão de mundo. É um depoimento pessoal que busca ser singular. Tem poesia, humor e até mesmo um tour de force físico. Minha proposta é tentar desestabilizar o espectador, fazendo com que ele crie alguma coisa ali, e ainda que se surpreenda.”

Monólogo público estreou em março, em São Paulo, onde cumpriu temporada de dois meses. Logo depois foi apresentado no Rio. Após um hiato de quatro meses – quando ficou envolvido com a finalização da terceira temporada da série Bipolar show –, Melamed volta agora aos palcos com o espetáculo.

O país, de acordo com ele, não é somente seu grande tema, mas uma obsessão. “Tenho essa ambição de, em todos os trabalhos, pensar racionalmente o Brasil. Historicamente, este é o país do patrimonialismo, do bem surrupiado desde o pau-brasil. Chegamos ao ponto da situação chocante de hoje. Então, o que nos resta é o desejo inquebrantável, uma coragem quixotesca. Como é que podemos acreditar, namorar, tomar cachaça e ter um bom dia com esta encruzilhada em que os três poderes do país se encontram? Não sou detentor da verdade, mas quero insuflar os olhares, tentar mudar alguma coisa”, continua.

Aos 41 anos, Melamed despontou para o público há pouco mais de uma década com trabalhos em diferentes mídias, sempre com viés bastante crítico. Seja em espetáculos teatrais, programas de TV, filmes ou livros, ele foge de qualquer lugar confortável.

“O que é impossível é o que me interessa. Quero fazer o que ainda não fiz. No teatro, por exemplo, não tenho um processo definido. Se tivesse, seria fácil, mas toda vez me desespero.” Para Monólogo público, ele partiu da ideia do palco sobre o palco para só depois chegar ao texto. “Mapeei a peça inteira, todas as cenas e, quando já tinha tudo, fiz o texto. Pela primeira vez escrevi um texto linearmente.”
O improviso é sempre bem-vindo, mas no novo espetáculo ele se faz menos presente em comparação com os anteriores. “Uma das características do teatro é ser uma arte ao vivo. Então, quem vai a um espetáculo mais de uma vez pode ter uma experiência oposta à outra”, acrescenta.

BIPOLAR SHOW O jogo que Melamed propõe no palco também é levado à TV. No ar às terças-feiras, às 21h30, no Canal Brasil, o programa Bipolar show já exibiu cinco dos 26 episódios da terceira temporada. O convidado da próxima semana é o ator Júlio Andrade. Até agora, já passaram pelo programa os atores Wagner Moura, Débora Falabella, Luis Miranda, Caco Ciocler e Mariana Lima.
“O critério que uso para convidar são pessoas que eu ame. E este amar tem um amplo escopo. Pode ser tanto gente do ponto de vista do afeto, ou gente que eu admire. O objetivo é sempre ter um bom encontro, falar o que quiser. Não tem pegadinha, saia justa. É uma relação de afeto e confiança”, diz Melamed.

Os novos episódios de Bipolar show têm dois cenários: o antigo Cassino da Urca, mais tarde Teatro Tupi, palco da primeira emissora de TV brasileira, que é hoje um espaço enorme abandonado; e uma área no câmpus da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde há alguma interação com o público que circula pelo local.

“Esta temporada está mais crua, essencial. Tanto que o cenário perdeu tudo e ficou apenas com as linhas do mobiliário. Quis fazer diferente porque a temporada anterior, num galpão, tinha público (uma arquibancada para até 100 pessoas), muitos quadros, performances. Foi uma temporada muito para fora. Quis então fazer esta para dentro”, diz.

Ainda que tenha um programa, Melamed não é um apresentador de TV convencional. Tampouco Bipolar show é um talk show tradicional. O programa é sempre muito editado, e os convidados pulam de um assunto sério a uma brincadeira muito rapidamente. Diante disto, tudo é possível na atração.

Na estreia, com Wagner Moura, um rato passeia pela locação. Já na UFRJ, os atores são assistidos por alunos que passeavam pelo local na hora da gravação. Alguns são chamados, de bate-pronto, para falar com eles. Tudo regado a muitas baforadas de cigarro, algo que a TV de hoje tenta esconder. “Seria um sonho se em todos os programas e espetáculos as pessoas quisessem se expor”, comenta Melamed. Pelo menos com ele não há meias palavras.

 

Monólogo público

Sábado (21) e domingo(22), às 19h, no Teatro Sesiminas (Rua Padre Marinho, 60, Santa Efigênia) 

Ingressos: R$50 (inteira) e R$25 (meia) 

(31)3241-7181 

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