Fundação Clóvis Salgado estreia versão da ópera 'Porgy and Bess'

Espetáculo estreia neste sábado, 21, e traz artistas negros em todos os papéis, além de adaptar a história para uma comunidade pobre brasileira atual

por Ana Clara Brant 20/10/2017 08:18

Marcos Vieira/EM/D.A.PRESS
O baixo Luiz-Ottavio Faria, radicado em Nova York, assumiu o papel de Porgy. Marly Montoni interpreta sua amada Bess. (foto: Marcos Vieira/EM/D.A.PRESS)

A ópera Porgy and Bess, do compositor George Gershwin (1898-1937), é considerada uma obra-prima da cultura norte-americana. Algumas das canções da produção acabaram se tornando clássicos da música mundial,  como Summertime, a mais conhecida, interpretada por Janis Joplin, Billie Holiday e Ella Fitzgerald, além de It ain’t necessarily so, que ganhou versão de Louis Armstrong; I loves you Porgy, gravada por Nina Simone, e I got plenty o’ Nuttin, imortalizada por Frank Sinatra.

“Apesar de ser uma ópera, com tradição erudita, a trilha caiu no cancioneiro popular. Na verdade, digo que ela é mais um musical do que uma ópera tradicional. O Gershwin faz uso da folk music, do jazz na orquestração”, comenta Silvio Viegas, regente da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais e responsável pela direção musical da produção, que estreia neste sánado, 21, no Grande Teatro do Palácio das Artes, e terá seis récitas até 31 de outubro.

Viegas ressalta que à formação tradicional da orquestra serão incorporados instrumentos pouco comuns em óperas, como metais, banjo, piano e bateria. “É como se houvesse uma big band à parte. Porgy and Bess tem uma cara de musical disfarçado, com aquele suingue que não é típico das apresentações operísticas”, diz.

O maestro destaca que, pela primeira vez, o elenco é formado totalmente por artistas nacionais, sendo que todos os solistas são negros e brasileiros. “Isso é muito interessante, porque, no passado, havia uma grande dificuldade em encontrar cantores líricos negros. Hoje, com a popularização da música clássica, temos tido uma procura cada vez maior das classes menos abastadas. Quem mantém a música clássica hoje no Brasil são essas pessoas, e boa parte delas é negra. O timbre, a potência e a capacidade vocal são diferentes e únicos”, afirma.

IMPORTAÇÃO DE SOLISTAS Esse aspecto também é enfatizado por Fernando Bicudo, que concebeu e é o diretor cênico da versão de Porgy and Bess que será encenada em Belo Horizonte. Em 1986, quando era o diretor do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, Bicudo teve grandes dificuldades em montar o elenco de Porgy and Bess. “Na época, não tínhamos cantores líricos no Brasil, e essa é uma condição que o próprio George Gershwin impôs para sua montagem. Tive que importar solistas negros de Nova York. A única do elenco brasileiro era a Eliseth Gomes, que também está nesta montagem da Fundação Clóvis Salgado (FCS), interpretando a Serena”, comenta.

Os protagonistas são Luiz-Ottavio Faria, no papel de Porgy, e Marly Montoni, interpretando Bess. Completam o elenco os solistas Michel de Souza (Crown), Nabila Dandara (Clara), Juliana Taino (Maria), Cristiano Rocha (Jake), Geilson Santos (Spoting Life), Lucas Damasceno (Mingo), Carlos Átilia (Robbins/Nelson/Crab man), Lucas Viana (Peter), Indaiara Patrocínio (Annie/Strawberry woman/Lilly), Antônio Marcos Batista (Jim/Undertaker), Emerson Oliveira (Jasbo Brown), Luciano Luppi (Police/Coronel) e Henrique Luppi (Detetive).

Porgy and Bess foi poucas vezes montada no Brasil e essa é a primeira encenação mineira. Quinta parceria de Fernando Bicudo com a FCS (O escravo, Turandot, Fedra e Hipólito, Um baile de máscaras foram as anteriores), a montagem tem libreto de DuBose Heyward e letras de Heyward e Ira Gershwin. A história, que se passa nos anos 1930, logo depois da Grande Depressão, traz um mendigo que é deficiente físico e sua tentativa de resgatar a amada Bess dos braços de Crown, um homem violento e possessivo, e do traficante Sporting Life. A produção mineira foi adaptada para uma ambientação numa comunidade pobre brasileira.

“Essa é a grande novidade. O que a comunidade de Charleston, na Carolina do Sul, da história original, passa não é muito diferente da realidade das comunidades pobres do Brasil, seja no Rio, em BH ou Salvador. A gente encontra a mesma luta pela sobrevivência, as dificuldades de relacionamento com traficantes, o mundo das drogas”, analisa Fernando Bicudo. Até o cenário de Desirée Bastos e os figurinos de Sayonara Lopes têm traços mais modernos. “Tem o grafite, as latas de cerveja, os tênis, as meias arrastão, tem o suingue brasileiro. Essa ópera é um retrato do Brasil de hoje e mesmo quem não gosta desse estilo musical vai se surpreender”, afirma.

 

DO ESTRANHAMENTO À PAIXÃO A primeira vez que Luiz-Ottavio Faria assistiu a uma ópera foi no Rio de Janeiro, onde nasceu, e ele tinha apenas 12 anos. Na época, não gostou muito do que viu. “Achei estranho, porque não entendi. Esse contato inicial não foi dos melhores (risos). Mas depois fui conhecendo, me aprofundando e hoje a história é outra”, diz.


O estranhamento se tornou paixão e ofício e Luiz-Ottavio é considerado um dos mais importantes baixos da atualidade. “Ele é o Pavarotti dos baixos”, atesta Fernando Bicudo, com quem o solista trabalhou bem no começo de sua carreira. “Bicudo foi o responsável por eu ter ido morar fora do Brasil. Ele foi fundamental na minha carreira. Estou em Nova York há 29 anos”, conta.

E foi direto da Big Apple que Luiz-Ottavio Faria veio para interpretar o protagonista Porgy na montagem da Fundação Clóvis Salgado. “Já perdi a conta de quantas vezes participei dessa ópera e em vários papéis. Acho que umas 120 (risos). Mas todas fora do Brasil. Acredito que vai ser diferente, ainda mais em Belo Horizonte, cidade pela qual nutro  grande carinho e onde tenho familiares que irão me assistir”, diz o artista, que é filho de mineiros – sua mãe é de Teófilo Otoni e o pai, de Betim.

Apesar de a história se passar nos dias de hoje e com uma realidade brasileira, Luiz-Ottavio Faria, que se formou na prestigiada The Juilliard School of Music, em Nova York, acredita que a essência da produção não muda. “A música é a mesma, a história é praticamente a mesma. Os problemas que os negros de Charleston (EUA) enfrentavam naquele tempo se repetem agora. A segregação, o racismo e a pobreza servem como pano de fundo para essa história de amor à la Romeu e Julieta. Mas, para mim, o mais bacana é ver que o elenco, os solistas e toda a produção do Palácio das Artes não ficam devendo a nenhum grande teatro do mundo. Estou muito impressionado com a qualidade e o nível que estou vendo aqui.” 


PORGY AND BESS
Ópera de George Gershwin. Direção musical e regência: Silvio Viegas. Direção cênica: Fernando Bicudo. Com Luiz-Ottavio Faria, Marly Montoni e solistas. Récitas: sábado (21), 23, 25, 27 e 31 de outubro, às 20h; 29 de outubro (domingo), às 19h, no Grande Teatro do Palácio das Artes (Av. Afonso Pena, 1.537, Centro. (31) 3236-7400. Ingressos: R$ 60 (inteira) e R$ 30 (meia).

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