Coleção com 29 peças de Plínio Marcos revela um autor que domina a arte da dramaturgia

Organizada por Alcir Pécora, 10 textos vêm a público pela primeira vez

08/10/2017 10:30
Arquivo EM/D.A Press
Plínio Marcos desafiou a censura e a ditadura militar com suas peças inspiradas no mundo dos excluídos (foto: Arquivo EM/D.A Press )
No final da vida, o dramaturgo Plínio Marcos (1935-1999) vendia exemplares com suas peças mais famosas em filas de cinema e de teatro. Eram versões apressadas e baratas de uma obra que esperava pelo merecido reconhecimento. Apesar da montagem das emblemáticas Barrela e Dois perdidos numa noite suja nos últimos anos, a sua devida posição de autor clássico chega agora graças à publicação, pela Funarte, de Plínio Marcos – Obras teatrais, seis volumes que reúnem 29 peças. Um trabalho notável sobre um artista não menos importante.

Curiosamente, Plínio brincava ao desdenhar da importância de sua escrita. Acreditava que não era a força de suas peças que faria dele um clássico, mas o fato de o Brasil não evoluir. “Mas tal força está no domínio extraordinário que ele tem do seu ofício”, comenta o crítico e professor de literatura Alcir Pécora, responsável pela organização dos volumes. Pécora instituiu classificação tão eficiente para o legado de Plínio quanto a criada por Sábato Magaldi para a obra de Nelson Rodrigues. “É isso que o torna capaz de representar questões e contradições agudas do Brasil, nas quais, como na piada que você menciona, ele via um caráter crônico, que as tornava mais ou menos as mesmas desde o início da sua produção, no final dos anos 1950. Entretanto, de lá pra cá, as contradições de que Plínio falava se tornaram muito mais visíveis à maioria, como a presença do lumpesinato (catadores de papel, drogados, chapas, desempregados crônicos, etc.) no cotidiano das grandes cidades. O que parecia visão de gueto ou nicho agora se revela como estrutural na sociedade brasileira”, diz Pécora.

VIRULÊNCIA

De fato, Plínio criou um universo dramático sem concessões fáceis ao bom sentimento. Dois perdidos, por exemplo, montada pela primeira vez em 1966, revelou-se uma obra de virulência até então desconhecida. “Impressionou o teatro brasileiro por fora, por dentro, para trás e para a frente”, observa Pécora. “Por fora, porque a violência, o palavrão, a gíria eram algo inédito até então em palcos brasileiros, e mesmo em termos mundiais. Por dentro, porque essa contundência exterior se articulava a uma profundidade psicológica igualmente incomum no Brasil. Para trás, porque ajudou o teatro militante de esquerda a encarar o seu idealismo esquemático e condescendente no tratamento da gente do povo e do proletariado. Para a frente, enfim, porque abriu passagem para toda uma geração, aquela da chamada Nova Dramaturgia, de extração classe média e universitária, que tratou de pensar a política também em sua dimensão pessoal, psicológica, comportamental”, afirma o professor.

Pécora selecionou 29 peças concluídas por Plínio (10 são publicadas pela primeira vez) a partir da última revisão feita pelo autor. Procurou ainda não unir clássicos em volumes separados, mas espalhados pela coleção e unidos com textos com uma linha temática principal.

Muitas peças, como Navalha na carne e Dois perdidos, foram censuradas pelo regime militar. Como curiosidade, o sexto volume reúne o teatro musical (como O Poeta da Vila e seus amores, de 1977) e também as peças infantis de Plínio.

Fotos, cartazes, imagens de textos escritos a mão pelo dramaturgo e outras curiosidades, como ingressos de espetáculos, ilustram a obra, cuja iconografia é assinada por Ricardo Barros, filho de Plínio. A atriz Walderez de Barros, ex-mulher do dramaturgo e mãe de seus três filhos, estabeleceu a versão final das peças.

CADEIA


Plínio era um artista de mente livre, despojada, mas profundamente atento ao que o cercava. Sua primeira peça, Barrela, de 1958, sobre a tensa relação entre homens na cadeia, foi inspirada em uma notícia de jornal sobre a curra ocorrida em um presídio masculino. No texto, aliás, o que provoca a explosão na relação dos encarcerados é um cigarro, o que comprova a coerência técnica de Plínio em relação à importância que os objetos assumem para detonar a situação-limite.

Enquanto um par de sapatos é motivo de uma briga mortal em Dois perdidos numa noite suja, a luminária quebra a tênue convivência de O abajur lilás. “Esse ponto é extraordinário”, comenta Pécora. “Bastava essa observação para lançar por terra a ideia de um teatro pliniano apenas violento ou associado a temas malditos. Seu domínio dos meios do ofício se evidencia aqui: muitas vezes, no teatro do Plínio, todo o núcleo dramático da ação se faz a partir desses objetos, dos quais passa a depender todo o desenrolar da cena. Várias outras peças apresentam essa mesma presença marcante do objeto na cena: as garrafas vazias em Oração para um pé de chinelo; os chapéus, em Jornada de um imbecil até o entendimento. Eles servem para detonar a situação-limite como reiteração da exasperação que preside as relações interpessoais, mas também como definição ostensiva de um delírio, pois os objetos estão sempre muito distantes da significação que lhes é atribuída. Há um abismo entre a posse dos sapatos, por exemplo, e a garantia de um emprego e de uma vida organizada do trabalho, que não depende obviamente de um objeto isolado, por mais significativo que seja, mas de uma organização social estruturada em bases inteiramente outras”, conclui Alcir Pécora. (Ubiratan Brasil/Agência Estado)

Arquivo EM/D.A Press
Em 1968, Nelson Xavier e Tônia Carrero contracenam em Navalha na carne (foto: Arquivo EM/D.A Press )


O afilhado de Pagu

Peças de Plínio Marcos, com diálogos marcantes, palavrões e gírias criadas nas periferias e favelas, foram censuradas pelo governo militar. Ao retratar a gente do povo, o dramaturgo sabia do que falava – foi camelô, vendedor de álbuns de figurinhas, funileiro, palhaço de circo e quis ser jogador de futebol.

Influenciado pela escritora e ativista Pagu, musa do Modernismo, Plínio se envolveu muito jovem com o teatro amador em Santos, sua terra natal. Em 1967, na capital paulista, estreou o clássico Navalha na carne, depois da pressão de artistas para que o texto fosse liberado. Foi, mas para maiores de 21 anos.

Uma ano depois, a montagem carioca, dirigida por Fauzi Arap, deu novo impulso à carreira de Tônia Carrero, a prostituta Neusa Suely, que contracenou com Nelson Xavier, o gigolô Vado, e Emiliano Queiroz, o gay Veludo. Em 1975, a montagem de Abajur lilás, assinada por Antônio Abujamra, foi proibida ainda durante o ensaio geral. Porém, Plínio nunca fez concessões. Apesar da censura, prosseguiu escrevendo peças. Trabalhou em jornais, foi ator de telenovela, fazia palestras e se dedicou ao tarô.

Entre filmes inspirados em suas peças estão A Rainha Diaba (1974), dirigido por Antônio Carlos da Fontoura; Barrela (1990), de Marco Antonio Cury; Navalha na carne (1997), de Neville de Almeida; Dois perdidos numa noite suja (2002), de José Joffily; e Querô (2007), de Carlos Cortez. Aos 64 anos, o dramaturgo morreu de infecção pulmonar, depois de sofrer dois derrames cerebrais.

TV Cultura/Divulgação
'Plínio impressionou o teatro brasileiro por fora, por dentro, para trás e para a frente', diz Alcir Pécora, professor de literatura (foto: TV Cultura/Divulgação )


PLÍNIO MARCOS – OBRAS TEATRAIS
. Organização: Alcir Pécora
. Editora Funarte
. Seis volumes
. R$ 35 (cada livro)

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