Artistas mineiros contam como dividem carreira no teatro com outras profissões

Veterinária, dentista e médico falam das vantagens e dos desafios de atuar em áreas distintas

por Pedro Galvão 12/07/2017 08:00
Beto Novaes / EM
Rosana Meneghini cuida de animais domésticos em uma pet shop (foto: Beto Novaes / EM)
Assumir outros papéis é o que eles fazem há um bom tempo, nos palcos ou diante das câmeras. No entanto, fora dos roteiros que ensaiam com dedicação, alguns artistas de Minas Gerais conciliam o teatro ou o cinema com outros ofícios, demonstrando a mesma paixão e compartilhando as habilidades específicas de cada profissão.

Acostumada a interpretar mulheres de vários tipos desde que se iniciou no teatro, aos 18 anos, Rosana Meneghini também atua junto aos bichos. Veterinária formada, ela concilia os dois trabalhos atualmente, realizando dois sonhos de infância simultaneamente. “Eu me divido entre atuar, produzir e fazer cirurgias”, afirma Rosana.

Ter outro trabalho pode ser uma necessidade incômoda para alguns viabilizarem a própria carreira artística, mas, no caso de Rosana, a vida dupla é prazerosa. “Só satisfação e alegria. Saio de uma coisa, vou para outra. Mexo com bicho, com arte e isso vai me distraindo, deixando a vida mais leve. Nunca faço só a mesma coisa. Monotonia me deixa meio nervosa”, diz a atriz.

Se hoje é fácil conciliar, houve momentos em que foi preciso abrir mão de uma das paixões. Depois de cursar artes cênicas na Oficina de Teatro de Pedro Paulo Cava, alguns anos depois ela passou no vestibular para veterinária e teve que se dedicar mais aos estudos na área. Por causa da nova carreira, foram 12 anos longe dos palcos, até retornar, em 2005, com a peça Camas redondas, casais quadrados.

Recentemente, Rosana esteve no elenco de Confissões das mulheres de 40, que ficou em cartaz por quase cinco anos, até 2016. Atualmente, ela trabalha na produção de Certos rapazes – O nosso amor a gente inventa, que estreou em maio no Teatro de Bolso do Sesiminas e deve retornar ao cartaz em setembro, no Teatro da Biblioteca Pública de Minas Gerais. “É uma peça sobre a relação afetiva mostrada pelo foco do amor, sem estereótipos”, comenta Rosana.

Quando não está lidando com textos, elenco e outros detalhes cenográficos, ela atende animais em um pet shop no Bairro Dom Bosco, Região Noroeste da capital. A atriz/veterinária também participa de um programa público de castração de animais em Caeté, na Região Metropolitana. “Sou muito filantrópica”, comenta, citando que já desenvolveu outras ações na área da saúde pública em Itabirito, na Região Central de Minas, inclusive valendo-se também do ofício de atriz.

“O veterinário tem um olhar de interação entre meio ambiente e os animais e seus impactos no ser humano, algo que pesquisamos na saúde pública. Como sou veterinária e atriz, fizemos um teatro educativo na UBS de Itabirito, com peças sobre o uso adequado dos medicamentos para a saúde dos pacientes. Elaborávamos o texto juntos e o apresentávamos para a comunidade.”

Na atuação pública na cidade, distante 60 quilômetros de BH, a atriz estava em cena com um companheiro dos palcos. Wolney de Oliveira, atual vice-prefeito e secretário de Saúde do município, é outro que compartilha a carreira artística com outros ofícios. Formado em odontologia, ele revela que a gestão pública acabou afastando-o do teatro momentaneamente.

DEDICAÇÃO “Hoje não consigo (conciliar as duas carreiras). O teatro exige uma dedicação muito grande, e a secretaria me exige uma dedicação total”, diz Wolney, que atuou até 2015, quando estava em cartaz com a peça Por pouco, mesmo tendo assumido o cargo em 2013. Segundo ele, como a peça já estava pronta, foi mais fácil seguir adiante, mas agora está complicado se envolver num projeto novo.

“Sempre mantive tudo próximo – a carreira odontológica paralela à artística. Está na alma da gente. Para quem tem esse prazer, a dedicação é a mesma. Elegi as duas como prioridades. Mas, no município, a demanda é muito grande. Cuidar de uma cidade não é fácil”, diz o vice-prefeito, filiado ao Democratas. Ele pretende retornar aos palcos quando não estiver mais envolvido com a administração da cidade.

Com atuações também no ramo da publicidade e da produção de peças audiovisuais, Wolney garante que a vida artística o ajudou muito na atual carreira pública. “O teatro me humanizou mais. O universo exigido pelos personagens cutuca a gente, nos coloca em outro lugar. Você empresta coisas suas ao personagem, e ele empresta características dele a você. Isso facilitou no trato com as pessoas. Melhorou minha percepção e a forma de olhar o ser humano”, conta.

Outro que alterna entre dois papéis na vida real é Gustavo Werneck. Ator desde os tempos de colégio, com passagem pelo Cefart do Palácio das Artes, ele se formou em medicina em 1982, ainda que as representações fossem a grande paixão. “Custei a me acertar e achar meu lugar, nunca gostei de hospital, mas achei meu lugar na saúde pública, fiquei muito dividido se ia seguir minha vida como médico sanitarista ou como ator”, diz Werneck.

“É comum entrar em outra profissão e largar a arte. Tenho vários amigos que foram engolidos pelo que seria o ganha-pão. Mas, felizmente, o que houve foi que constituí um grupo de pessoas no teatro que nunca me deixavam parar”, afirma.

Apesar de não precisar abrir mão de nenhuma das duas profissões, o ator e médico lembra que a divisão só é possível “com bastante sacrifício”. “Eu poderia ter me dedicado mais à minha formação como ator, feito outras coisas do ponto de vista da preparação. Então sinto que isso acabou prejudicando um pouco. Mas eu consegui fazer da melhor maneira possível, com pelo menos um projeto novo a cada dois ou três anos”, pondera Werneck, que recentemente fez seu primeiro papel de protagonista num longa, o inédito Foro íntimo, de Ricardo Mehedff.

Por outro lado, a estabilidade financeira proporcionada pela carreira médica, exercida por ele hoje como professor da Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais, garantiu maior liberdade na escolha dos projetos teatrais e cinematográficos. “Só faço aquilo que me atrai, que tem a ver comigo, que vou ter prazer de fazer. Não faço nada que não seja do meu total interesse. E, de tudo que fiz, não me arrependo de nada”, garante Werneck, que se se apresenta hoje e amanhã no Teatro Oi Futuro do Rio de Janeiro com a montagem Interlúdio - A morte e a donzela, com direção de Wilson de Oliveira.

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