Grupo Descoletivo apresenta espetáculo 'Litoral' até sexta-feira (23)

Peça de Wadji Mouawad, que será encenada no Teatro João Ceschiatti, fala sobre a barbárie contemporânea

por Cecília Emiliana 21/06/2017 08:43

Paulo Lacerda/divulgação
(foto: Paulo Lacerda/divulgação)
No meio do caminho, tinha uma peça. Dentro da peça, um novo caminho. A jornada, no caso, é a dos alunos do curso de teatro do Centro de Formação Artística da Fundação Clóvis Salgado (Cefart). Como espetáculo de formatura, os jovens atores decidiram montar Litoral, texto do franco-libanês Wadji Mouawad, com direção da trupe mineira Quatroloscinco. O processo de criação, contudo, extrapolou os limites do trabalho de conclusão de curso. Transformou o elenco num grupo de teatro – o Descoletivo –, que hoje estreia no Teatro João Ceschiatti.

Escrito em 1999, o enredo se desenvolve em torno do encontro de Wilfrid, rapaz que volta à terra natal para a enterrar o pai, que ele não conheceu. Encontra um país também desconhecido, devastado por conflitos, cheio de jovens marcados pela guerra, que, como ele, buscam reconstruir a própria história. Passado, presente e futuro se embaraçam, servindo de centelha para múltiplas reflexões.

TETRALOGIA Trata-se da primeira encenação de Litoral no Brasil. O texto integra a tetralogia O sangue das promessas, formada ainda por Incêndios, Bosques e Céus. A tradução do francês é de Assis Benevenuto, membro do Descoletivo. “Sempre tivemos um perfil mais de corpo, performance, imersão na rua. Sentíamos falta de um trabalho que valorizasse mais o texto. Daí o Assis estava trabalhando na tradução de Litoral e nos apresentou. A gente se identificou muito com a peça”, conta a atriz Erika Rohlfs.

Embora distantes das guerras no Oriente – contexto em que se insere o autor, que se mudou aos 10 anos para o Canadá, no fim da década de 1970 –, os atores se sentiram muito próximos de Mouawad e do protagonista Wilfrid.

“Wilfrid vive conflitos tanto internos, característicos da juventude, quanto externos, ligados à origem libanesa dele e às guerras que o obrigaram a se refugiar no continente americano. Nós vivemos uma coisa parecida. Também somos jovens marcados por nossas questões individuais, passamos por um momento político maluco e enfrentamos situações complexas dentro do próprio Cefart, a nossa escola, que atualmente experimenta uma crise institucional”, compara Erika.

A poesia, bem como a construção linguística minuciosa do roteiro, chamou a atenção do grupo, cujo processo de criação incluiu o que eles chamam de jogo da palavra. “Conversamos com uma doutoranda que pesquisa o trabalho de Wadji Mouawad e ela nos disse que todas as palavras são muito pensadas no texto, nenhuma é avulsa. Então, fizemos um estudo aprofundado do roteiro a fim de entender o que cada uma significa, sua força, o que querem dizer – tudo isso sob distintas perspectivas. Primeiro, desvinculadas do contexto em que o texto foi escrito. Depois, situando-as no cenário da vida do Wadji, que inspirou a peça. Em seguida, relacionamos tudo isso com a nossa própria realidade”, descreve Erika Rohlfs.

A montagem se dá sem a representação de personagens. O elenco optou por se apropriar do enredo de maneira que cada ator faça o papel de si mesmo. “O que mais ficou de todo esse processo foi que ele nos despertou para a nossa relação com a memória. Uma pessoa sem memória não tem como seguir em frente, ou mesmo lutar por algo. Como lutar por algo que desconhecemos sem saber o que já tivemos antes?”, conclui a atriz.

 

LITORAL

De hoje (21) a sexta (23), às 20h, no Teatro João Ceschiatti – Palácio das Artes, Avenida Afonso Pena, 1.537, Centro, (31) 3236-7400. Entrada franca. 

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