Grupo Amok Teatro estreia espetáculo Os cadernos de Kindzu

Inspirada no livro de Mia Couto, fala de um refugiado de guerra que vagueia pela África, peça chega amanhã ao CCBB

Daniel Barboza/divulgação
Com atores negros e trilha sonora original, Os cadernos de Kindzu investiga narrativas de matriz africana e culturas tradicionais (foto: Daniel Barboza/divulgação)
Nos quase 20 anos de carreira do Amok Teatro são muito poucos os registros das apresentações do grupo em Belo Horizonte. Sobre isso, a diretora Ana Teixeira, que divide a função com Stéphane Brodt, tem uma certeza: já se apesentaram mais na China do que por aqui. A raridade de aparições em território mineiro é motivo a mais para se comemorar a temporada de um mês que o grupo radicado no Rio de Janeiro realiza no Centro Cultural Banco do Brasil a partir de amanhã.

Os cadernos de Kindzu é o nono espetáculo da companhia. Assim como os outros, superindicado aos principais prêmios da temporada carioca. O Amok é um grupo que trabalha em continuidade, ou seja, como a África foi o campo temático da montagem anterior, Salinas (2015), a pesquisa continua e se desdobra. Primeiro, abordaram a ancestralidade africana e, desta vez, interessa a África pós-colonial inspirada na literatura do moçambicano Mia Couto.

“As palavras são dele, mas a gente faz uma releitura. Pegamos as tramas do livro e oferecemos a elas uma realidade teatral”, explica Ana Teixeira sobre a adaptação de Terra sonâmbula (1992). O palco dos espetáculos da Amok são ocupados pelos atores e alguns elementos de cena. Não tem cenário. A música e a iluminação também são importantes para a construção da narrativa.

Os cadernos de Kindzu conta a trajetória de um jovem que abandona a cidade natal para fugir da guerra e inicia um caminho de encontros com outros refugiados e personagens que o farão experimentar a cultura tradicional do continente. Apesar de o Amok ser conhecido como grupo que dá muito peso à narrativa em suas peças, Os cadernos não conta uma história linear.

“A questão é como trabalhar narrativas, a maneira de usar o tempo, o pulo entre o presente e o passado. Vamos brincar bastante com todas essas possibilidades”, conta Teixeira. A trama se passa nos anos 1970, mas encontra ecos na atualidade do mundo inteiro. “Fala de imigrantes, de fugitivos da guerra, questões que estamos vivenciando no presente.”

A música é texto para o teatro do Amok. Isso vem dos fortes intercâmbios que a companhia de Ana Teixeira e Stéphane Brodt mantém com a tradição oriental. Todos os anos, as montagens criadas no Brasil fazem temporadas na China. A trilha sonora original de Os cadernos de Kindzu traz diferentes ritmos e idiomas. Tem fado, canções na língua de Moçambique e no português brasileiro. “Porque tem essa fonte comum que é a África”, lembra a diretora.

O espetáculo tem mais de duas horas de duração e sete atores em cena. Raridade no cenário nacional, quando os monólogos ganham força não apenas pelo formato, mas também pela facilidade de produção.

Todo o elenco é negro, o que é muito importante para a história, mas também para o grupo. Como Ana Teixeira ressalta, em geral os negros ainda aparecem majoritariamente em papéis que afirmam invisibilidade social. O quadro precisa mudar.

“Quando fizemos o Salinas (2015), o público via atores negros em papeis de reis, protagonistas de sua história. Então, há um deslocamento do olhar importante para o signo negro”, completa. O ator Thiago Catarino, que faz o protagonista Kindzu, é o mais jovem do grupo, o que demonstra também uma alternância geracional. Não é porque é veterano no grupo que terá o papel de maior destaque.

O espaço vazio e a investigação sobre a África são temas que conectam o teatro do Amok aos interesses do diretor britânico Peter Brook. Em 2004, ele esteve em Belo Horizonte com a montagem Tierno Bokar, na programação do Festival Internacional de Teatro (FIT-BH). As fotos dessa montagem, inclusive, se parecem com as de Os cadernos de Kindzu. Teixeira reconhece que, não apenas neste espetáculo, mas o teatro de Brook é uma inspiração para a companhia.

O trabalho do Amok Teatro é frequentemente reconhecido nas principais premiações de artes cênicas. A peça que chega a Belo Horionte, por exemplo, foi indicada a três categorias do prêmio Shell (direção, ator para Thiago e música), além do Prêmio Cesgranrio de melhor direção e espetáculo.

Montagens

Os cadernos de Kindzu (2016)
Salinas (2015)
Histórias de família (2012)
Kabul (2009)
O dragão (2008)
Savina (2006)
Macbeth (2004)
O carrasco (2001)
Cartas de Rodez (1998)

OS CADERNOS DE KINDZU

Com Amok Teatro. No Centro Cultural Banco do Brasil (Praça da Liberdade, 450, Funcionários, BH, (31) 3431-9400). De amanhã a 8 de maio, sessões de quarta a segunda-feira, às 19h. Ingressos: R$ 20 (inteira) R$ 10 (meia).

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