Inutilezas, peça baseada na obra do poeta Manoel de Barros, se apresenta em BH

Os atores Bianca Ramoneda e Gabriel Braga Nunes não têm personagens fixos e exploram diversas camadas de sentido

por Márcia Maria Cruz 11/03/2017 08:04
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(foto: Divulgação)

Quem sobe ao palco para atuar assume o risco da palavra. Fazendo com que ela deixe de ser letra para se transformar em movimento, fala, gesto e até silêncio. Para muitos, a palavra, fundamental no teatro, não é adjetivo ou substantivo, mas verbo, ação. Até poderia ser o verbo. Mas não quando a palavra é proposta por Manoel de Barros (1916-2014). Com ele, tudo se subverte: passarinho, por exemplo, pode não ser substantivo. E é da subversão da palavra que os atores Bianca Ramoneda e Gabriel Braga Nunes partiram para criar Inutilezas, espetáculo com roteiro de Bianca, direção de Moacir Chaves e direção musical de Pedro Luís.

As apresentações da peça em BH estão marcadas para 11 e 12 de março.
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A dupla adentrou o universo de um dos maiores poetas brasileiros para levar ao palco as palavras que Manoel de Barros passava noites em claro a buscar. A primeira montagem de Inutilezas foi apresentada em 2002. O poeta assistiu ao espetáculo e se divertiu muito.

Elaborado por Bianca, o roteiro foi exibido a Gabriel e Moacir. Quinze anos depois da estreia, longa temporada e breve parada, eles retomam a montagem – mais experientes e, por causa disso, compreendendo melhor Manoel de Barros. “Não tem alteração de palavras. É o recorte fiel, mas é um recorte. Poderia ser o lado mais obscuro, mas sigo pelo lado de humor dele”, diz Bianca.

Depois de conhecer o poeta, já autor consagrado, na festa de um prêmio literário, a estreante Bianca mergulhou na obra do escritor de Campo Grande. De tão afetada pela leitura, quis compartilhar a experiência com mais pessoas. Como não poderia deixar de ser, a leitura de Manoel convoca à subversão. Então, Bianca não quis apenas recitar poemas, mas levá-los para o teatro. Gabriel e Moacir, de pronto, atenderam à convocação.

“Quem me apresentou a obra de Manoel foi a Bianca, em 2001. Ela veio com a ideia bastante exótica de fazer o espetáculo a partir dos poemas”, conta Gabriel Braga Nunes. A proposta de não ter personagens definidos trouxe liberdade à peça. Na primeira montagem, o ator tinha 30 anos e Bianca, 29. Depois de cerca de cinco anos sem a peça ser encenada, ele retoma o projeto, aos 45, e ela aos 44.

“Inutilezas é exatamente a mesma, não teve uma vírgula a mais nem a menos”, conta Gabriel. É a mesma peça, mas é outra. Esse aparente paradoxo – ser e não ser – tem tudo a ver com a obra de Manoel de Barros, que traz camadas distintas de sentidos e significações. “Quando falamos em poemas, não podemos preencher todos os espaços da imaginação”, diz o ator.

Para dar força à palavra, a estratégia foi tratar de forma transparente a poesia de Manoel de Barros. “As ideias dele poderiam ser minhas de tanto que me identifico com elas”, diz Gabriel.

O cenário de Fernando Mello da Costa é formado por duas poltronas e alguns objetos espalhados pelo palco, constituindo a memorabilia dos personagens. Gabriel destaca que essa opção cenográfica permite a interação do espetáculo com o local onde é montado, além de permitir que ele circule por diferentes cidades do país, mesmo quando os atores estão envolvidos com outros projetos – sobretudo novelas, no caso dele.

Ele revela ter carinho especial por apresentar Inutilezas em Belo Horizonte, onde vivem primos e familiares da mulher. “Me deixa feliz saber que terei tantos conhecidos na plateia.”


Três perguntas para...
Bianca Ramoneda
Atriz, jornalista e roteirista


Como você se aproximou de Manoel de Barros?
Meu contato com ele começou em 1998, no Prêmio Nestlé de Literatura para autores iniciantes e consagrados. Concorria entre os estreantes e ele como consagrado. Tinha 20 e poucos anos, não considerava que meu livro era literatura. Eram textos do teatro alternativo que editei. Não tinha fôlego de romance. Graças a Deus, fui parar lá. Quis conhecer os autores ao meu lado, gente muito ilustre. Enlouqueci, pirei, com Livro sobre nada. Aquele livro do Manoel existia há tanto tempo e eu não o conhecia. Tive uma vergonha na alma. Fiquei louca, comecei a ler tudo dele. Não venci (na categoria iniciante), mas fui à festa de premiação para conhecê-lo. Era a chance de ver aquele homem. Ele estava lá, na cadeirinha. Aproximei-me para conversar levando o Livro sobre nada – lido e relido, todo amassado. E entreguei o meu, Só, na época era produção independente, agora é editado pela Rocco. Ele pediu para colocar meu endereço. Depois de 15 dias, chegou a carta dele com observações. Tive um troço.

Como surgiu a ideia de levar os poemas dele para o teatro?
De tanto ler, vi que os livros conversavam entre eles. Parecia que tinha um intervalo de tempo. Mas que, se suprimido, havia conversas. Ao ler, marcava: “isso conversa com aquilo lá”. Falei com ele: “Manoel, veja o que está acontecendo. Gostaria de saber se você me deixa fazer essa aproximação. Existe diálogo entre os livros”. Porém, numa conversa, ele me disse que tinha noites de insônia, ficava procurando por uma palavra. Não seria eu, durante o dia, que tiraria essa palavra do lugar onde ele botou. Ao poeta não serve qualquer palavra, serve aquela palavra. Não proporia o diálogo entre os livros sem que houvesse critérios. Optei por editar por aproximação, sem tirar uma palavra do lugar. Manoel gosta de contar histórias. Então, era possível tirar trechos sem mexer no sentido. Sem contar que ele é um excelente frasista. Perguntei a ele se gostaria de participar do processo. Ele tinha mais de 80 anos e eu, 20 e poucos. E ele me disse: “Bianca, entendo o seu sonho. Fica tranquila, vai na sua viagem”.

O que lhe encanta em Manoel de Barros?
As pessoas acham que Manoel fala de natureza e planta. Quando se refere ao sapo, ele usa a imagem para dizer outras coisas. Manoel é revolucionário, anárquico, subversivo. Faz subversão de valores e da linguagem. Troca o substantivo por verbo. Muda o verbo por adjetivo. “O passarinho me árvore.” Você pode ficar na minhoca, nos pássaros, mas pode ir além e perceber que ele está usando isso para falar de valores. Quando diz “para encontrar o azul eu uso pássaros”, ele não está falando dos pássaros. É algo lindo mesmo. Mas a força está no que ele traz de contraponto. O espetáculo nunca foi tão pertinente para o momento que vivemos. É absolutamente político. Manoel traz uma memória arcaica: fala da infância mitológica. Mesmo para quem não teve um avô, no sentido mítico, a imagem está na imaginação.

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