Universo de Guimarães Rosa está no espetáculo 'O crivo'

Com entrada franca, montagem do bailarino e coreógrafo João Paulo Gross será apresenta nesta sexta (10) e sábado (11) no Galpão Cine Horto

por Márcia Maria Cruz 10/03/2017 10:30
Layza Vasconcelos/Divulgação
(foto: Layza Vasconcelos/Divulgação)
Os contos A terceira margem do rio, O espelho e Nada e a nossa condição, de João Guimarães Rosa, inspiraram o bailarino e coreógrafo João Paulo Gross, mineiro radicado em Goiás, a criar O crivo, em cartaz no Galpão Cine Horto. “A literatura vem como inspiração. Não quero colocar a palavra no lugar do gesto. O espetáculo não conta a história dos contos”, diz ele.

Em cena estão Gross e Daniel Calvet. O coreógrafo escolheu as imagens que lhe pareceram mais fortes em cada conto: o rio, o espelho e o entre – espaço do nada e da condição humana. Não há alusão direta ao sentido das palavras. O rio é posto como metáfora da vida, “nasce, desenvolve ao longo do leito e desemboca no oceano. É um pouco do que acontece com a gente”. O espelho fala da interação com o outro, do reflexo de cada um a partir do interlocutor. “Conheço-me pelo olhar do outro”, diz Gross.

No conto Nada e a nossa condição, o entre é representado pelo “e” que faz a ligação na frase – metáfora para o que está no intervalo das relações. A opção pelo duo – e não por um solo ou um grupo de bailarinos – permite trabalhar questões filosóficas que o texto de Guimarães Rosa suscita. Com Gross e Calvet em cena, é possível tanto trabalhar a ideia de “ser-tão” quanto a relação que se estabelece entre os dois lugares dessa geografia íntima.

“Trabalho com a ideia, que não é minha, mas de muitos pesquisadores, de ‘ser-tão’ como o lugar de cada um, o ‘ser-tão’ que é seu. Cada um entende a dor e a alegria de viver naquele lugar”, diz Gross. A dramaturgia foi construída a partir da relação entre dois “ser-tões”. “A relação que tenho com o outro não é minha, nem do outro. É nossa. É o espaço onde se unifica o encontro daquela relação”, explica.

PARTIDA
Ao construir a dramaturgia, João Paulo não procurou transpor a literatura de Rosa para a dança. Fez da obra do mineiro o lugar de partida. “Poderia ser, mas não foi esse o nosso caminho. Fizemos a opção pelas imagens que os contos suscitam”, reforça. Nesse processo, surgiram questões referentes à dança, com variáveis que não podem escapar ao bailarino: tempo, fluxo, respiração e peso. “As maneiras como o corpo se move dão textura”, diz.

O espetáculo não se fecha na linguagem da dança, flertando também com o teatro. “Usamos a gestualidade. É tão dança e também tão teatro”, diz.

O título vem das múltiplas possibilidades de sentidos da palavra crivo. “O nome vem unificar essas imagens. Crivo é a parte do regador que espalha a água. Em muitos lugares no Brasil, denomina a peneira. Também pode ser expressão de afirmação. As pessoas dizem: ‘Será que passei pelo crivo de tal pessoa?’. Além disso, um tipo de bordado brasileiro se chama ponto crivo. O bordado, aliás, evidencia o entre: só é possível ver o bordado por causa do espaço entre um ponto e outro”, conclui.

LIVROS João Paulo Gross informa que a temporada de O crivo, com entrada franca, tem o apoio do Fundo de Arte e Cultura do Estado de Goiás e do Prêmio Funarte de Dança Klauss Vianna 2015. Ele pede aos espectadores a doação de livros, que serão encaminhados a bibliotecas públicas. “Não é um condicionante. Como dialogamos com o universo da literatura, achamos interessante se fizéssemos, no lugar da doação de alimentos, a doação de informação”, afirma.

O CRIVO
Sexta (10) e sábado (11), às 20h. Galpão Cine Horto, Rua Pitangui, 3.613, Horto. Entrada franca. Pede-se a doação de um livro. Ingressos podem ser retirados no site sympla.

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