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MÚSICA

Séries mergulham no universo pop e fazem ode aos direitos civis

O rapper norte-americano T-Pain ao lado de sua esposa, Amber: das críticas iniciais à consagração pelo uso de efeitos sonoros tecnológicos - Foto: NETFLIX/DIVULGAÇÃO
Procurar uma definição única que explique o que é música pop é uma tarefa ingrata. O termo pop é uma abreviação de popular e surgiu por volta da década de 1950 em contraponto à música clássica.


Atualmente, ele dá nome ao gênero das músicas gravadas para fins comerciais usando inovações tecnológicas e com letras que abordam temas atuais.

Essa explicação não faz parte da série "This is pop", mas é importante tê-la em mente antes de assistir aos oito episódios disponíveis na Netflix. Isso porque a produção original da plataforma parte da premissa de que pop é uma síntese abrangente o bastante para que sejam abordados fenômenos específicos que, olhados de longe, poderiam parecer desconectados.



A série explica o surgimento e popularização do auto-tune, recurso que corrige imperfeições na voz; conta como a Suécia, um país pequeno, com pouca ou nenhuma pretensão imperialista, se tornou uma superpotência musical; e mostra o crescimento da popularidade de gêneros como o country e o rock, que passaram a ser tratados como pop.

O primeiro episódio joga luz sobre um assunto pouco falado: a história da boyband Boyz II Men. Formado em 1988 na Filadélfia, nos Estados Unidos, com forte influência da gravadora Motown – que lançou nomes importantes como Marvin Gaye, Diana Ross e Stevie Wonder –, o grupo conquistou grande sucesso ao longo da década 1990, mas começou a perder o brilho depois que surgiram bandas no mesmo formato formadas por homens brancos.

Os convidados de "This is pop" não chegam a afirmar que houve um certo apagamento da história do grupo, mas subentende-se que grupos como Backstreet Boys e 'Nsync, criados no início de 1990, é que ficaram reconhecidos como pioneiros.



O episódio dedicado ao auto-tune traz uma entrevista bastante reveladora com o rapper norte-americano T-Pain, pioneiro no uso do recurso sonoro que depois passou a ser adotado por seus contemporâneos, como Kanye West, Snoop Dogg e Lil' Wayne. No início da carreira, ele foi bastante criticado por recorrer ao artifício como inovação tecnológica e criativa.

AH, A SUÉCIA...

Ao abordar o lugar central ocupado pela Suécia na produção de músicas pop, a série foca no principal grupo do país: o ABBA. O quarteto formado em 1972 ganhou popularidade dois anos depois, ao vencer o Eurovision Song Contest de 1974. Responsável por músicas hoje consideradas clássicas como "Dancing queen" e "Mamma mia", o grupo tornou-se um dos mais influentes no panorama internacional.


Basta dizer que uma das músicas mais populares de Madonna – considerada a rainha do pop –, "Hung up" traz um sample de "Gimmie! Gimmie! Gimmie! (“A man after mignight)", do ABBA.

Mas "This is pop" vai além. A produção dá especial atenção à banda dance pop Ace of Base e ao produtor sueco Max Martin, que já produziu sucessos de Britney Spears ("...Baby one more time"), Katy Perry ("I kissed a girl") e Taylor Swift ("Blank space").

Série de animação ''Lições de cidadania'' dá ênfase aos direitos civis por meio de músicas originais - Foto: Netflix/Divulgação

Um recorte temporal sobre o estilo de vida

Dois dos pontos altos da série são os episódios dedicados a gêneros não associados à música pop, mas que conquistaram tamanha popularidade que são, sim, pop. É o caso do quinto, intitulado "Quando o country vira pop", que aborda a história bem-sucedida de músicos como Dolly Parton e Willie Nelson, mas também não deixa de fora as conquistas de Lil Nas X, que foi alçado ao estrelato com "Old town road", música que traz a mistura improvável de country com rap.



Já o quinto episódio, "Viva o pop britânico!", explica o surgimento do brit-pop, movimento que enfatizava a cultura britânica e alçou ao sucesso bandas de rock Oasis e Blur, na era pós-grunge. A produção explora ainda a rivalidade entre os dois grupos, gerando um ambiente que pode ser descrito como tóxico nos bastidores da música feita no Reino Unido.

A série traz também entrevistas com artistas como Shania Twain, Steven Van Zandt, Hozier e Brandi Carlile. Entre os outros temas abordados estão o sucesso dos festivais de música e o poder de transformação da música.



RESPOSTA

Em entrevista à “Pitchfork”, Amanda Burt, uma das produtoras do programa, contou que o ponto inicial foi a pergunta "O que é pop?". A partir daí, a equipe descobriu um universo bastante vasto. "É mais do que as paradas ou o que flutua nas rádios. É uma cápsula de tempo perfeita que retrata como as pessoas estavam vivendo, como elas dançavam, amavam e choravam", declarou ela.

De fato, cada episódio de "This is pop" transporta o espectador para uma época específica e faz uma viagem cheia de possibilidades, sem deixar de trazer um belo contexto histórico, sem ser anacrônica.


Uma segunda temporada ainda não foi anunciada, mas a primeira prova que a variedade de temas que ainda podem ser explorados é grande. (GA)

THIS IS POP
• Série documental em oito episódios. Disponível na Netflix



Canções que respondem o porquê

Ciente do poder didático que a música tem, a Netflix lançou a série de animação musical "Lições de cidadania", que explica o básico sobre direitos civis por meio de músicas originais. Criada pelo roteirista e produtor Chris Nee e com produção executiva do casal Barack e Michelle Obama, a série é composta por dez episódios que focam em questões como voto, imigração e direitos humanos.



Os episódios, que têm, em média, quatro minutos, são videoclipes de músicas que abordam os temas e, apesar de se concentrarem na realidade dos Estados Unidos, são bastante interessantes para fãs de animação e música em geral. A produção foi animada pelos estúdios Buck e Titmouse, e cada episódio é dirigido por um profissional diferente.

Entre os artistas que aceitaram o convite para o projeto está a cantora H.E.R., que em 2021 conquistou o Grammy de canção do ano por "I can't breath", escrita em homenagem a George Floyd, e o Oscar de melhor canção original por "Fight for you", do filme "Judas e o messias negro" (2021). Ela é a responsável pela música "Change", do primeiro episódio, que fala sobre cidadania ativa.

Já o cantor Adam Lambert canta "These are your rights", música do segundo episódio, que fala sobre a Declaração dos Direitos dos EUA.


O terceiro explica a importância dos impostos por meio da música "Taxes", do rapper Cordae.

Lin-Manuel Miranda, conhecido pelo musical "Hamilton", se une ao rapper Daveed Diggs e Brittanny Howard para cantar "Checks and balances", que explica os três poderes. Já a cantora country Brandi Carlile é a voz de "Speak your mind", que fala sobre a primeira emenda estadunidense, que garante o direito à liberdade de expressão.

No episódio seis, que examina a diferença entre o poder estadual e federal e a importância de unir os dois, o assunto sério fica divertido com a música "Link up", do rapper Kyle.



A cantora Bebe Rexha canta a música "American citizen", destrinchando a imigração, enquanto Andra Day, que interpretou Billie Holiday no filme "Estados Unidos vs. Billie Holiday" (2021), papel pelo qual venceu o Globo de Ouro, detalha o funcionamento dos tribunais por meio da canção "All rise".

No episódio nove, a música "Stronger", de Janelle Monáe, fala sobre resiliência. A canção é uma espécie de música-tema da série, já que no refrão a cantora canta justamente o título em inglês da produção, "We the people".



Já no episódio final, Amanda Gorman, a poeta de 23 anos que participou da posse de Joe Biden como presidente dos Estados Unidos, em janeiro de 2021, recita o poema original que celebra a união do povo.

Todas as músicas também estão disponíveis nas plataformas digitais. (GA)

LIÇÕES DE CIDADANIA
• Série animada em dez episódios. Disponível na Netflix