Jornalista relata seus percalços no comando do Fantástico, da Globo

Em 'Treze meses dentro da TV - Uma aventura corporativa exemplar', Adriano Silva fala da experiência de ser dispensado

por Ana Clara Brant 27/08/2017 12:00
Renato Parada/Divulgação
ADRIANO SILVA, autor de Treze meses dentro da TV (foto: Renato Parada/Divulgação)
Como um profissional que nunca havia sido demitido acabou sendo mandado embora, em tempo recorde, por uma empresa que quase nunca demitia? Foi isso que ocorreu com o jornalista e escritor Adriano Silva, atualmente publisher do Projeto Draft, portal dedicado ao tema do empreendedorismo. Durante pouco mais de um ano, ou mais precisamente, por 400 dias, ele foi chefe de redação de uma das principais atrações da TV Globo, a revista dominical Fantástico. Mas o sonho desse gaúcho de trabalhar na televisão, em uma grande rede e, ainda por cima, morando no Rio de Janeiro, transformou-se numa espécie de pesadelo.

É isso que ele conta em Treze meses dentro da TV – Uma aventura corporativa exemplar, recém-lançado pela Rocco. No livro, Adriano Silva faz um relato sincero e detalhado de seu período no comando do Fantástico. Sua trajetória anterior incluía uma bem-sucedida década de trabalho na Editora Abril. Mas o jornalista sempre ambicionou atuar na mídia eletrônica e entrou para a emissora carioca no final de 2006. No livro, ele relata desde os contatos iniciais com executivos da Globo, as conversas com subordinados, os percalços que enfrentou na rotina de trabalho até o dia em que simplesmente foi dispensado, no início de 2008. “A gente não esquece eventos traumáticos, talvez por isso eu consiga detalhar com precisão tanta coisa. Realmente abri minha caixa-preta e certamente foi o texto mais difícil e o mais longo que escrevi em toda a minha vida. Esperei 10 anos para escrevê-lo, justamente para ter esse tempo de refletir, entender o que tinha acontecido comigo e digerir”, afirma o autor, que está com 46 anos e nasceu em Porto Alegre, onde se formou em comunicação social.

Essa literatura de confissão praticada pelo jornalista teve início na trilogia O executivo sincero, lançada em 2014, valendo-se de uma narrativa sem rodeios a respeito do ambiente corporativo. Treze meses dentro da TV marca o começo de uma nova trilogia. Os próximos volumes serão Por conta própria e À sombra da arvorezinha em flor.

“O que fiz nesses livros foi tornar público algo bem particular, que nunca falei para ninguém. Além de ter esse aspecto terapêutico para mim, ofereço essa transparência ao leitor, porque é uma conversa baseada numa sinceridade radical. É olho no olho e não deixa de ser libertador também”, afirma.

DICAS Ao longo das 256 páginas, Adriano Silva narra sua experiência no cargo, sobretudo as dificuldades enfrentadas, como quando riam de suas sugestões de pauta ou o fato de nunca ser convidado para almoçar com os colegas. Mas ele também dá dicas de como sobreviver no mundo corporativo. Entre elas estão: “É um equívoco não se posicionar para não correr o risco de desagradar o interlocutor. Ao se deixar guiar unicamente por aquilo que você supõe ser a expectativa do outro, você não mostra a si mesmo. E com medo de decepcionar, você acaba escondendo o que tem de melhor” e também “Uma das regras mais caras para sobreviver na vida corporativa é conhecer o seu lugar e se ater a ele. Outra é construir alianças que lhe amparem. Duas regras que eu ignorei”.

Ele afirma, contudo, que esse “não é um livro de autoajuda”. “Não tenho essa pretensão de dizer o que fazer e o que não se deve fazer. Se eu soubesse, talvez nem teria sido demitido. Mas quis oferecer as minhas reflexões e conclusões”, diz. Um dos objetivos do livro é apresentar o funcionamento do mercado de televisão no Brasil e, claro, oferecer informações sobre os bastidores do jornalismo da TV Globo. “Há pouca literatura sobre o telejornalismo, como ele funciona, ainda mais sobre a Globo, que é uma emissora com uma presença grande na vida da maioria das pessoas. Todo mudo tem curiosidade de saber sobre a cultura do jornalismo e da própria emissora”, avalia. O autor diz ter evitado publicar impressões ou deduções. “Só citei fatos que consigo provar. Não tem nada interpretado à luz do meu olhar, mas sim coisas que realmente aconteceram.”

ROCCO/REPRODUÇÃO
(foto: ROCCO/REPRODUÇÃO)
Alguns nomes de colegas, subordinados e superiores são citados, mas é curioso que, no decorrer do livro, Adriano Silva muda o tratamento com relação a Eugenia Moreyra e Luiz Nascimento. “Fui ser o chefe da mulher (Eugenia) do meu chefe Luizinho (Luiz Nascimento)”, comenta. Num determinado ponto, o autor para de citar nominalmente os colegas e passa a se referir a eles somente como “a mulher do meu chefe” e “meu chefe”. “O objetivo do livro não é apontar o dedo para ninguém, atacar ou tirar algo a limpo. Como é uma memória que envolve outros personagens, eu quis expor o mínimo possível. Só expus quando não tinha jeito. O foco da investigação sou eu. É uma tentativa de entender o que aconteceu dentro de mim e ao meu redor”, salienta.

Adriano diz que tem recebido mensagens positivas em reação ao livro, inclusive de profissionais da TV Globo e que isso já demonstra que o projeto valeu a pena. Mais do que expor um episódio marcante de sua carreira, o jornalista quis provar que há mais de um jeito de uma história “terminar bem”. E que o final pode ser feliz mesmo quando não ocorre do jeito imaginado. “Quando somos demitidos vem uma série de sensações como o choque, a raiva, a negação, mas nem sempre uma demissão é uma derrota. Às vezes, é até melhor sair. E se eu considerar tudo o que aconteceu depois dali, talvez eu tenha até um sentimento de gratidão. Depois de tudo isso, eu acabei me transformando em um empresário, em um empreendedor. Claro que foi algo que me chateou, mas é um aprendizado e não guardo o menor rancor ou ressentimento pelo que houve.”

Treze meses dentro da TV – Uma aventura corporativa exemplar

• Adriano Silva
• Editora Rocco
• Páginas: 256
• Preço: R$ 34,90

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