Saúde Plena

ONCOLOGIA

Sociedade Americana de Câncer atualiza diretrizes para prevenção do câncer

Quem acompanha minha coluna aqui no Saúde Plena, ou já assistiu a uma de minhas palestras, deve saber que sou enfático sobre a importância da prevenção do câncer por meio do controle dos fatores de risco, sejam eles hereditários – testes genéticos detectam as Síndromes de Predisposição Hereditária permitindo uma prevenção personalizada –, sejam relacionados à adoção de hábitos de vida saudáveis. Além de minha experiência clínica demonstrar que a prevenção é sempre o melhor caminho, as pesquisas comprovam que praticamente metade dos casos de câncer são evitáveis. 



Evidenciando a relevância da prevenção, a Sociedade Americana de Câncer (American Cancer Society) atualizou suas diretrizes sobre dieta e atividade física para prevenção do câncer, com base nas evidências mais recentes publicadas desde a última atualização em 2012.  O documento foi publicado por Rock et al em CA: A Cancer Journal for Clinicians. 

Os pesquisadores enfatizaram que manter um peso saudável, permanecer ativo durante toda a vida, seguir um padrão de alimentação saudável e evitar ou limitar o álcool podem reduzir bastante o risco de uma pessoa desenvolver ou morrer de câncer.

Pelo menos 18% de todos os casos de câncer nos Estados Unidos estão relacionados a uma combinação desses fatores. Conforme as novas orientações, esses hábitos de vida são os comportamentos mais importantes, além de abster-se de fumar, algo que as pessoas podem controlar e mudar para ajudar a diminuir o risco de câncer.



Manter a prática de atividade física, comer menos ou abster-se totalmente da ingestão de carne processada e vermelha, assim como evitar ou pelo menos reduzir o consumo de álcool também estão entre as recomendações.
 
Confira as principais instruções:

·         Manter um peso corporal saudável ao longo da vida.

·         Os adultos devem ter 150 a 300 minutos de atividade física de intensidade moderada por semana, 75 a 150 minutos de atividade física de intensidade vigorosa ou uma combinação.  Conseguir 300 minutos - ou até mais - por semana conferirá mais benefícios à saúde.

·         Crianças e adolescentes devem ter pelo menos 1 hora de atividade de intensidade moderada ou vigorosa por dia;

·         Gastar menos tempo sentado ou deitado;

·         Comer uma variedade colorida de legumes e frutas, e muitos grãos integrais e arroz integral;

·         Evitar ou limitar a ingestão de carnes vermelhas, como carne, porco e cordeiro, e carnes processadas, como bacon, salsicha, carnes deliciosas e cachorros-quentes;

·         Evitar ou limitar bebidas açucaradas, alimentos altamente processados %u200B%u200Be produtos refinados de grãos;

·         É melhor não beber álcool; se o álcool é consumido, as mulheres não devem tomar mais de uma bebida por dia e os homens devem ter mais de duas (uma bebida é definida como 12 onças de cerveja comum, 5 onças de vinho ou 1,5 onças de destilados à prova de 80).



As recomendações baseiam-se na ciência atual que mostra que a forma geral como você come - em vez de alimentos ou nutrientes específicos - é importante para reduzir o risco de câncer e melhorar a saúde geral. 

Muitas pessoas me perguntam se existe um determinado alimento que evite definitivamente  o câncer. No entanto, a ciência vem mostrando que não há um alimento ou grupo alimentar específico para alcançar uma redução significativa no risco de câncer.
 
A nova diretriz indica que as pessoas devem comer alimentos integrais, e não nutrientes individuais, porque as evidências continuam sugerindo que padrões alimentares saudáveis %u200B%u200Bestão associados ao menor risco de câncer - especialmente câncer colorretal e de mama. 



Ou seja, de nada adianta comer brócolis todo dia, se, em geral, a alimentação é rica em gorduras saturadas, carnes vermelhas e processadas, não há prática de atividade física etc.

O documento também inclui respostas a perguntas comuns colocadas pelo público em geral, incluindo informações sobre culturas geneticamente modificadas, dietas sem glúten, sucos para limpezas (os chamados detox) e muito mais, sendo estas algumas delas:
 
·         Atualmente, não há evidências de que os alimentos feitos com culturas geneticamente modificadas sejam prejudiciais à saúde ou que afetem o risco de câncer;

·         Pessoas com doença celíaca não devem comer glúten. Para pessoas sem doença celíaca, não há evidências ligando uma dieta sem glúten a um menor risco de câncer.  Existem muitos estudos que vinculam grãos integrais, incluindo aqueles com glúten, com menor risco de câncer de cólon;

·         Não há evidências científicas para apoiar alegações de que beber apenas suco por 1 ou mais dias (uma “limpeza de suco”, “suco detox”) reduz o risco de câncer ou fornece outros benefícios à saúde. Uma dieta limitada ao suco pode não ter alguns nutrientes importantes e, em alguns casos, pode até levar a problemas de saúde.

Como podem perceber, a ciência segue avançando de forma inimaginável nos primórdios da oncologia, a exemplo dos testes de sangue e de swab bucal que podem identificar mutações genéticas causadoras do desenvolvimento do câncer. Contudo, a principal ferramenta individual contra a doença ainda é a prevenção por meio do conjunto de hábitos de vida que incluem alimentação, comportamentos e qualidade de vida.  Fiquemos atentos!

*André Murad é oncologista, pós-doutor em genética, professor da UFMG e pesquisador. É diretor-executivo na clínica integrada Personal Oncologia de Precisão e Personalizada. Exerce a especialidade há 30 anos, e é um estudioso do câncer, de suas causas (carcinogênese), dos fatores genéticos ligados à sua incidência e das medidas para preveni-lo e diagnosticá-lo precocemente.

Quer falar com o colunista? Envie um e-mail para andremurad@personaloncologia.com.br