Saúde Plena

Chip da beleza: o perigo da onda de ''uso cosmético'' de hormônios sexuais

Os tratamentos que prometem resultados ''milagrosos'' e ''sem riscos'' e, principalmente, sem documentação científica devem sempre ser vistos com muitas ressalvas e com olhar crítico.


Existem vários desses tratamentos sendo oferecidos em várias áreas diferentes da saúde. Atualmente têm sido divulgados e disseminados na internet e redes sociais tratamentos de todo tipo que prometem soluções fáceis e “sem riscos”, que atraem cada vez mais um grande número de desavisados.

Mesmo sem aprovação das sociedades médicas, vem ganhando popularidade entre os leigos, por exemplo, a ideia de reposição com hormônios bioidênticos. São substâncias hormonais que possuiriam exatamente a mesma estrutura química e molecular encontrada nos hormônios produzidos no corpo humano. A nomenclatura, no entanto, está sendo utilizada indevidamente, apenas para hormônios manipulados, como se fossem novas opções de tratamento quando, na verdade, há muito tempo hormônios bioidênticos são produzidos pelas indústrias farmacêuticas e estão disponíveis nas farmácias.

Na endocrinologia, estamos o tempo todo lidando com doenças que levam à falência de várias glândulas do corpo e que tratamos há décadas com o uso da reposição de hormônios sintéticos idênticos ou quase aos hormônios naturais.


Entre várias dessas doenças diferentes, por exemplo, temos o hipotireoidismo, uma condição frequente e que repomos usando tireoxina sintética idêntica ao hormônio natural produzido pela tireóide.

Mas atualmente, em muitas situações, o termo ''bioidêntico'' vem sendo feito com objetivos comerciais e como uma forma de marketing e atrelado predominantemente com os hormônios sexuais masculino e feminino. Com o envelhecimento da população quem é que não gostaria de poder contar e usar algumas substâncias que fossem capazes de dar beleza, vigor, disposição e se enquadrassem em um idealizado ''elixir da juventude''?

No imaginário popular, os hormônios sexuais ocupam esse ideal e se ele for chamado de bioidêntico então é quase um aval para dizer que seria ''sem riscos'', o que não é verdade.

Em 2002 foi divulgado o resultado de um grande estudo randomizado, duplo cego, chamado Women's Health Initiative (WHI), sobre reposição de hormônios femininos aprovados pelo FDA em milhares de mulheres. O WHI foi interrompido por ter mostrado aumento de risco nas usuárias em comparação ao uso de placebo quanto ao acometimento de câncer de mama, doença cardiovascular e trombose venosa.


Desde então, os endocrinologistas e ginecologistas passaram a ser mais criteriosos e o entusiasmo no uso indiscriminado dessa terapia de reposição hormonal na menopausa diminuiu bastante. Apesar de não ter sido condenada, a sua utilização ainda pode ser feita em casos selecionados. A despeito do rigor maior na indicação de reposição hormonal, tem se popularizado entre as celebridades uma hipotética ''modulação hormonal''. Para redução de TPM, cólicas ou para aumentar massa muscular ou aumentar a libido, o uso de uma combinação de diversos “hormônios bioidênticos” customizados (principalmente estrogênios e testosterona) e que recentemente tem sido oferecido também em mulheres na menopausa.

Erroneamente e como marketing, esse dito “tratamento” foi batizado sugestivamente de chip da beleza. Esses hormônios são disponibilizados por um sistema de pellets, inseridos sob a pele, liberando as substâncias gradativamente por vários meses. Mas dados de segurança desse tratamento ainda estão faltando.

Em estudo de Jiang e colaboradores, apresentado em setembro 2019 no encontro anual da Sociedade Norte Americana de Menopausa, o autor principal mencionou em entrevista: ''Enquanto as taxas de prescrição de 'hormonios bioidênticos personalizados' agora se aproximam das prescrições hormonais aprovadas pelo FDA, a maioria das mulheres está mal informada ou não sabe que não há evidências para apoiar a segurança e as sequelas clínicas de longo prazo dos níveis anormalmente altos de estradiol e testosterona total com essa terapia.''

Nesse estudo de Jiang, que é professor de obstetrícia e ginecologia na Faculdade de Medicina Sidney Kimmel, da Universidade Thomas Jefferson, foram revisados os níveis sanguíneos de estradiol e testosterona em mulheres na pós-menopausa que usaram o pellet, comparado com mulheres que usaram o esquema aprovado pelo FDA. Os níveis séricos médios de estradiol e testosterona total para mulheres que usaram pellets foram 237,7 pg/mL e 192,84 pg/mL, respectivamente, em comparação com 93,45 pg/mL e 15,59 pg/mL para mulheres que usaram o esquema aprovado pela FDA.


De acordo ainda com Jiang, também houve uma ''incidência significativamente maior de efeitos colaterais'' com os pellets. Isso levanta uma bandeira vermelha para médicos que prescrevem esses pellets, já que as usuárias precisam ser cuidadosamente monitoradas quanto aos níveis séricos de estradiol e de testosterona antes que seja emitida uma diretriz clínica baseada em evidências.

A Sociedade Brasileira de Urologia (SBU) se juntou à Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), apoiando um alerta emitido em 4 de janeiro de 2019 sobre a não existência de especialista em ''modulação hormonal''. Essa publicação reforça o conceito de que o Conselho Federal de Medicina (CFM) não reconhece a especialidade intitulada ''Modulação Hormonal'' e destaca que o posicionamento vem ao encontro da Resolução do CFM nº 1999/2012, segundo a qual a reposição de deficiências de hormônios e de outros elementos essenciais se fará somente em caso de deficiência específica comprovada e que tenha benefícios cientificamente comprovados.

 

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