Relações olho no olho renovam valores fundamentais ao bem-estar do ser humano

Iniciativas que reúnem pessoas no mundo real trazem benefícios para a qualidade de vida

por Laura Valente 10/07/2018 13:30
Marcos Vieira/EM/D.A Press
"Valorizamos a alimentação saudável, na contramão do fast food e da comida industrializada, num processo de resgate do comer de verdade" - Mara Rolim com o marido, Thomas Ferreira, e os filhos Davi e Maria (foto: Marcos Vieira/EM/D.A Press)

Resgatar hábitos de convívio com o outro tem sido experiência cada vez mais interessante na era da revolução digital, das relações intermediadas pela tela dos gadgets. Palavra de quem decide desligar o wi-fi e abrir espaço na agenda corrida do cotidiano hi-tech para vivenciar o contato off-line, olho no olho, à moda antiga. O retorno, dizem, não é medido em velocidade de terabytes, mas carregado de conexões recheadas de sensações que só existem no ambiente real, como a possibilidade de compartilhar o calor de um abraço ou descobrir o sabor, o cheiro e o tato de uma nova experiência.

Em BH, muita gente já se movimenta no sentido de incentivar a aproximação e a convivência, como a academia de ginástica que promove atividades diversificadas e outdoor entre os alunos; mães que fizeram um fundo para financiar passeios e atividades lúdicas de suas crianças, como piqueniques ao ar livre; projeto que reúne produtores e consumidores de alimentos agroecológicos para um café da manhã regado a troca de experiências e bate-papo.

RESGATE

Os maduros, na faixa etária da aposentadoria, também têm vez por meio de iniciativa itinerante que procura renovar a percepção do envelhecimento e despertar o potencial criativo para novas possibilidades. E, mesmo no competitivo mercado de trabalho, há grupos interessados em entender a aprendizagem como jornada por meio da proposição de rodas presenciais em que cada participante ganha lugar de escuta, numa troca para desenvolver capacidades qualitativas no lugar das quantitativas. O Estado de Minas traz histórias inspiradoras de quem aposta no resgate da convivência como terreno fértil para desfrutar sensações que aumentam a qualidade de vida, ressignificam o estar no mundo, alimentam a alma.

Mais prazer no cotidiano
Atividades de entretenimento, como levar as crianças ao cinema no fim de semana ou comprar alimentos juntos, ganham novo significado quando envolvem a convivência

Mãe do modelo infantil Rafael Almeida, de 7 anos, Gilvane Margarete de Almeida, de 40, corretora de imóveis, decidiu mudar o desfecho de uma história que se repetia a cada novo teste de casting para propagandas e desfiles. “Enquanto esperavam, as crianças iniciavam uma amizade, mas depois jamais se encontravam de novo”, lembra. O script só mudou depois da ideia de estreitar aquele contato. “Nós, mães, criamos um grupo e um fundo em dinheiro para que pudéssemos levar nossos filhos a conviver em outros espaços e situações e não apenas durante os testes”, lembra.

Geraldo Félix/Divulgação
Grupo de 15 mães e 20 crianças se reúne para atividades fora da rotina, como concurso de bolhas de sabão e outras brincadeiras (foto: Geraldo Félix/Divulgação)

A experiência deu certo, conta com 15 mães e 20 crianças entre 5 e 12 anos, já rendeu a produção de piquenique em um parque da cidade, com direito a concurso de bolhas de sabão e outras brincadeiras repletas de trocas e sorrisos. A turminha também já se encontrou no cinema e, para as férias de julho, programa passeio a um haras. “A ideia é promover a socialização, a amizade, o compartilhar. Permitir que as crianças cresçam juntas, independentemente da distância em que moram e de não estarem no mesmo bairro ou colégio. Isso aumenta o ciclo, né? Traz experiências novas, que saem da rotina e geram aprendizados em torno da diversidade e da tolerância, por envolver grupos heterogêneos e não os amiguinhos de sempre”, avalia ela.

Gilvane também reafirma o sentido de resgate perseguido pelo grupo. “Com a correria do cotidiano, internet e redes sociais, estamos deixando de conviver cara a cara, restringindo nosso contato ao mundo virtual, aos programas corriqueiros. Somos mães e pais interessados em mostrar para as crianças mais possibilidades, como as brincadeiras ao ar livre: bolha de sabão, futebol misto, esconde-esconde. Nesse sentido, ocupar espaços públicos e oferecer lanches feitos por nós mesmas reforça a ideia de que não é necessário gastar muito para tirar a criança de casa. É incrível como elas se divertem e ficam na expectativa de um próximo encontro. Penso que as escolas, as empresas, a comunidade, os cinemas e quem mais puder deveriam pensar em promover mais encontros como esses”.

COLHEITA

O ato de compartilhar a mesa faz parte do sábado de quem é associado ou cliente da Cooperativa de Alimentos Saudáveis (Copas), projeto sediado na casa do poeta, historiador e jornalista Sérgio Mitre. “A partir da reunião de amigos que integram a Comunidade que Sustenta a Agricultura (CSA), ofereci minha casa para que os cooperados viessem buscar a colheita da semana e pudessem estar em contato direto com produtores agroecológicos e artesanais. Desde então, há degustação e muita troca de ideias entre pessoas interessadas em conhecer a origem do alimento que consomem.”

Marcos Vieira/EM/D.A Press
Sérgio Mitre (E) recebe cooperados em sua casa, que vão buscar a colheita da semana e trocar experiências (foto: Marcos Vieira/EM/D.A Press)

Mitre critica a distância das relações numa compra de supermercado comum, em grande escala, impessoal. E explica a diferença da proposta da Copas, cooperativa de consumo: “Aqui, existe uma troca importante demais para quem produz e quem consome. Além disso, é uma forma de parar, de experienciar a cultura orgânica que não abrange só o alimento, mas um estilo de vida compartilhado pelo público interessado em novas formas de consumir. Aqui, há pessoas que já se conheciam e se reencontraram, pessoas que nunca se viram e fizeram amizade. Hoje, somos 33 colaboradores e reunimos de 18 a 20 famílias, que buscam a colheita aos sábados, quando trazem as crianças, param para conversar, para conhecer quem planta o tomate, quem produz o pão”.

Mara Viana Rolim, nutricionista, e o marido, Thomás Ferreira, engenheiro florestal, integram a CSA, são cooperados e cofundadores da Copas. Para o programa de sábado, fazem questão de levar os filhos pequenos, Maria e Davi. “Valorizamos a alimentação saudável - na contramão do fast food e da comida industrializada, num processo de resgate do comer de verdade. Além disso, é um espaço de convivência, socialização, troca de receitas, de experiências. Saímos da rotina, renovamos votos de sustentabilidade e apoio ao pequeno produtor e desfrutamos da possibilidade de uma vida diferente do que a indústria vem nos impondo. Experimentamos momentos não apenas restritos às compras: conhecemos gente nova, ingredientes novos, como as plantas alimentícias não convencionais (Pancs), novos sabores e nutrientes, já que toda a colheita é baseada na sazonalidade, nos produtos da estação, num resgate ao cultivo que conecta o homem ao meio ambiente, que quebra o estresse cotidiano.”

Fique por dentro

Contra a depressão

Segundo a Organização Mundial da Saúde OMS), a depressão afeta 322 milhões de pessoas, e mais de 90% da população sofre de ansiedade. Frente aos dados, a busca por mais qualidade de vida é fundamental. Nesse sentido, especialistas indicam cuidar melhor da saúde, ter mais tempo para a família e investir em lazer qualificado como alternativas para manter o bem-estar físico, mental e psicológico.

Cuidado!

Especialistas têm alertado também para o excesso de contato virtual, o que eleva a sensação de ansiedade e solidão. Nesse cenário, atividades que estimulam o convívio no mundo real viraram fator fundamental para combater esses males e promovem contribuição significativa para a qualidade de vida das pessoas.

Fonte: Rede Comunicação

Relações mais próximas
Atividades lúdicas out academia, desenvolvimento qualitativo na carreira e dupla que desperta comunidade de aposentados para novos projetos mostram como a convivência é estimulante

Não importa se você é jovem, está no auge da carreira ou prestes a se aposentar: em todas as fases da vida, conviver traz benefícios para o ser humano. “Neste século 21, há muitas coisas para serem feitas e pouco tempo para curtir a si mesmo, para ouvir o outro. Na contramão dessa urgência, o que percebo é a busca por um convívio maior por meio de movimentos, como o carnaval de rua, os espaços de coworking e outros, num resgate mesmo da origem do que é ser humano, cuja essência é social, e não apenas de responder a demandas. O que é gostoso a gente fazer juntos? Opa, a vida vai além de trabalhar, ganhar dinheiro, cumprir papéis”, destaca Felipe Frinelli Lima Brito, psicólogo clínico, social e facilitador.

Cia. Athletica/Divulgação
Alunos da Cia Athletica são convidados a realizar eventos outdoor, em programas que estimulam a convivência (foto: Cia. Athletica/Divulgação)

Um dos idealizadores do Roda, programa de desenvolvimento de habilidades qualitativas de profissionais de áreas diversas que atuam no campo social, ele explica que a proposta, amparada no convívio e na troca, é um exemplo desse movimento. “Estamos muito acostumados ao acúmulo de conhecimento. Mas há uma outra linha, que entende o processo de aprendizagem como jornada, em que trabalhamos experiências e conteúdos individuais e coletivos, aprendemos a partir de nossas perguntas, nossas questões, nossa bagagem de experiências de vida e não apenas acadêmica, formal.”

No grupo, conta, a presença física dos participantes é fundamental. E justifica: “É à medida que nos vinculamos que nos conhecemos. Convidamos o participante a olhar para si mesmo, para o outro e para o mundo. Acreditamos que, com a conexão, o encontro, o estar junto, trocamos energia, sensações. E isso reflete no desenvolvimento da autoestima, da empatia, na capacidade de se sentir parte, num exercício de troca que vai além daquele comum entre família, núcleo de amigos, parceiros de trabalho”.

Beto Novaes/EM/D.A Press
"O que percebo é a busca por um convívio maior por meio de movimentos, como o carnaval de rua, os espaços de coworking e outros, num resgate mesmo da origem do que é ser humano, cuja essência é social, e não apenas de responder a demandas" - Felipe Brito, psicólogo clínico, social e facilitador (foto: Beto Novaes/EM/D.A Press)
Ainda segundo o psicólogo, o resgate da convivência desperta valores que têm ficado em segundo plano na sociedade industrializada, mecanizada, virtual, em que nos desvinculamos, nos distanciamos das relações. “A própria greve de caminhoneiros evidenciou isso, com todo mundo correndo para salvar a si mesmo. Quando estamos juntos, a troca gera empatia, identificação, espelhamento. Traz um entendimento de que me responsabilizo pela vida do outro também. Agrega o respeito ao próximo, o entendimento das necessidades do outro, promove a compreensão acerca dos desafios do outro. Muita coisa é particular, mas o convívio nos ajuda a desenvolver uma sensação de comunidade mais cuidadosa e respeitosa.”

FAZER AMIGOS

Incentivar os alunos a fazer amigos e estreitar relações faz parte da missão da Companhia Athletica, cita Diogo Fiorini, gerente do programa de resultados da academia. “A partir de demanda livre, muitas vezes vinda dos alunos, criamos alternativas para que as pessoas convivam fora do ambiente da academia. Nosso objetivo é fortalecer a aderência à atividade física – pois o sujeito só fica em um ambiente que lhe é favorável, que o faz se sentir bem. Mas, para além disso, nossa intenção é estimular a troca, aliviar o estresse, promover bem-estar e ampliar o ciclo social. O indivíduo muda o foco, deixa de pensar só na obrigação e nos papéis que assume no cotidiano para descobrir novos horizontes”, descreve. Glenderson Barbosa, administrador de empresas e veterano na academia que frequenta há 14 anos, diz que “já participei de atividades como alpinismo, arvorismo, maratona e do Cia. Ride – passeio de moto em cidades históricas e turísticas para alunos e familiares. Além de extravasar, quebrar a rotina, não ficar na mesmice, vivemos momentos de curtição, conhecemos melhor os colegas, descobrimos lugares novos. É muito bom tirar um tempo pra gente nessa vida tão corrida. Conversamos, brincamos e nos divertimos”.

DEPOIS DOS 50

Quem também amplia horizontes é a turma que se reúne no projeto Cinco Zero Sete Zero: 5070 - Vamos voar juntos?, iniciativa empreendida pela dupla José Roberto Marinho Bueno, arquiteto, e Mauro Sato, publicitário. “Amigos há mais de 35 anos, chegamos na faixa dos 60 em pleno potencial criativo e resolvemos olhar para nossos pares com o objetivo de transformar a cultura do amadurecimento, a ideia de que depois dos 50, quando se aproxima da aposentadoria, a pessoa não tem mais lugar de trabalho, de empreendimento, de criatividade.”

Desde 2016, a dupla viaja o país promovendo as Rodas 5070, espaço de troca e convivência aberto em que o participante é convidado a falar sobre anseios, dramas, desejos e, a partir daí, ser despertado para inúmeras possibilidades. “A temática envelhecimento vem mudando radicalmente nos últimos 20 anos, nos levando a repensar sobre o que fazer depois dos 50, idade em que estamos em pleno potencial empreendedor e criativo. Começamos a nos reunir para ouvir esse público e percebemos desejo de novas conexões, ideias, oportunidades. A dinâmica envolve uma roda, que abre conversação para explorar quatro perguntas: quem é essa pessoa, como ela está, o que importa e o que quer. E temos percebido que é possível, sim, encontrar novos sentidos de viver, de se reinventar, de fazer novos amigos, conexões e parcerias. Retomar o sabor pela vida dos primeiros 50 anos”, afirma Bueno.

Arquivo Pessoal/Divulgação
Roda Cinco Zero Sete Zero visa despertar o sentimento de leveza no processo de envelhecimento e ampliar a convivência off-line (foto: Arquivo Pessoal/Divulgação)

Em Belo Horizonte, o grupo se reúne no Amadoria, espaço que deve sediar nova roda em breve. “Percorremos todo o país, com mais de 20 edições realizadas em várias cidades e estados, em que despertamos o sentimento de leveza no processo de envelhecimento, que pode ser simples, repleto de qualidade de vida e de sentido. Por meio das conexões em grupos, nosso objetivo é que o indivíduo se veja capaz de recuperar o lúdico, o prazer de se divertir, de buscar realizações. Deslocamos as pessoas da experiência congelada do ‘já fiz, já conheço’ para um lugar mais disponível, aberto, curioso. Para sair do ‘clube de sempre’ e conhecer gente nova, estranha e interessante. Com isso, percebemos que a temática do amadurecimento não é solitária, mas de um coletivo, de uma cultura pronta para valorizar o envelhecimento como algo precioso, carregado de sentido e de possibilidades.”

Saiba mais:

Sobre o Roda: http://programaroda.com
Sobre o CincoZeroSeteZero: http://cincozero setezero.com.br


SOBRE OS BENEFÍCIOS DE DESACELERAR

O jornalista Leo Babauta é autor do blog Zen Habits e de diversos livros sobre como encontrar simplicidade e atenção no caos diário de nossas vidas, e conta com mais de 1 Milhão de seguidores nas redes sociais. “Falo sobre limpar a desordem para que possamos nos concentrar no que é importante, criar algo incrível, encontrar a felicidade”. Veja trechos do que ele diz em The power of less (O poder do simples, ainda sem versão no Brasil):

- Faça menos coisas. Foque-se no que é realmente importante, no que realmente precisa ser feito, e largue o resto. Deixe espaço entre tarefas e compromissos, de maneira que possa viver num ritmo mais prazeroso. Leia mais.

- Esteja presente de verdade. Fique atento ao que faz em cada momento, seja em ações, no ambiente, nos outros à sua volta.

- Desconecte-se. Não fique o tempo todo “on-line”. É difícil desacelerar quando se está Sempre verificando novas mensagens!

- Concentre-se nas pessoas. Vivencie apenas o momento e esteja presente para as pessoas ao redor. É preciso se conectar com elas, em vez de apenas as encontrar.

- Aprecie a natureza. Preze um tempo ao ar livre. Inspire profundamente o ar puro, aprecie a serenidade da água e do verde.

- Coma mais devagar. Aprecie os sabores e as texturas. Outra boa pedida é aprender a Consumir “comida de verdade”, com pimentas incríveis para dar sabor, em vez de sal, gordura e frituras.

- Encontre prazer em atividades corriqueiras. Mesmo lavando louça, aprecie as sensações da água, da espuma e da própria louça. A vida será muito mais agradável se você dominar este hábito simples.

- Faça uma coisa de cada vez. Não se orgulhe de ser “multitarefa”. Quando sentir a necessidade de alternar para outras tarefas, pare, respire e contenha-se.