Prática de esportes conjunta entre pais e filhos vai muito além da saúde

Esse momento ajuda a fortalecer laços afetivos

por José Alberto Rodrigues 29/05/2018 12:00

Tulio Santos/EM/D.A Press
"É um momento único de compartilhamento de experiências, expertises, dores, angústias, sofrimento, alegrias e, acima de tudo, de engrandecimento como pessoa" - Marcos Mattioli, medalhista olímpico em natação, com o filho Raphael Mattioli (foto: Tulio Santos/EM/D.A Press)

Mais do que características genéticas, os pais passam para os filhos comportamentos, valores e, principalmente, atitudes em relação à saúde e bem-estar. Para a saúde de toda a família, é fundamental que todos estejam envolvidos, partindo dos pais o exemplo de uma vida saudável. Manter o corpo em movimento é fundamental para viver melhor e por mais tempo. Seus benefícios são, em qualquer idade, bem maiores do que qualquer problema que possa ocorrer.

Pensando nessa introdução ao esporte e na prática de atividades físicas para a família, o medalhista olímpico em natação e empreendedor Marcos Mattioli sempre educou seu filho sobre os benefícios do esporte e da atividade física para uma vida longe do sedentarismo, de disciplina e, principalmente, de engrandecimento como pessoa. “É um momento único de compartilhamento de experiências, expertises, dores, angústias, sofrimento, alegrias e, acima de tudo, de engrandecimento como pessoa. O esporte molda o caráter e a alma de quem o pratica, o esporte é vida, é celebração de vida”, ressalta o medalhista.

Segundo Marconi Gomes, cardiologista e médico do esporte, o sedentarismo está presente em mais de 30% da população mundial, atingindo valores superiores a 50% em determinados países. A inatividade física aumenta com a idade e é mais frequente em mulheres do que nos homens. Dados do Ministério da Saúde mostram que 64% da população brasileira apresenta comportamento sedentário. Desse percentual, cerca de 15% é totalmente inativa e 49% é insuficientemente ativa.

ESTILO DE VIDA

A própria Organização Mundial da Saúde (OMS) sugere que 300 minutos de exercícios físicos em intensidade moderada ou 150 minutos em intensidade vigorosa devem ser a “quantidade” a ser perseguida semanalmente. Mas é importante ressaltar que tão importante ou até mais importante quanto ser fisicamente ativo nas doses recomendadas é estabelecer mudanças favoráveis no estilo de vida, como uma alimentação saudável, cessação do tabagismo e controle de peso.

Atualmente, o papel do exercício físico tanto na prevenção de doenças quanto no tratamento tem sido amplamente demonstrado por meio de estudos nessa área. “Nos últimos anos, vem sendo publicado de forma contínua estudos que demonstram que o comportamento sedentário é um importante preditor de doenças cardiovasculares, diabetes do tipo 2, obesidade, alguns tipos de câncer (câncer de intestino e de mama), fraqueza músculo-esquelética, depressão, menor qualidade de vida e maior mortalidade por causas cardiovasculares e outras”, explica o médico Marconi Gomes, que é diretor do Comitê de Cardiologia do Esporte da Sociedade Mineira de Cardiologia.

Devagar, sem parar
A prática de exercícios físicos deve ser estimulada desde cedo, mas especialista alerta que a modalidade tem que respeitar a faixa etária, os limites do corpo, as condições clínicas individuais e também a aptidão

Jair Amaral/EM/D.A Press
O cardiologista Marconi Gomes afirma que é importante determinar algum tipo de limitação de ordem médica, principalmente de origem cardiovascular e ortopédica (foto: Jair Amaral/EM/D.A Press )
Exercícios físicos devem ser incentivados desde a infância, sempre respeitando os limites de cada faixa etária. “Não se deve estimular uma especialização precoce em determinada modalidade esportiva antes que se atinja uma maturidade no desenvolvimento motor, na coordenação, no equilíbrio e na força muscular”, comenta o cardiologista Marconi Gomes, que também é médico do esporte. Sendo assim, crianças bem jovens devem ser estimuladas a se exercitar de maneira menos competitiva e mais lúdica, com atividades em grupo e brincadeiras.

Só mais tarde, exercícios físicos dentro de uma modalidade esportiva específica devem ofertados. Atividades quando bem orientadas podem ser praticadas durante toda a vida, independentemente da idade, sempre respeitando os limites do corpo, as condições clínicas individuais e a aptidão física.

O medalhista olímpico Marcos Mattioli conta que enxergou no filho, Raphael Mattioli, a oportunidade de voltar para as piscinas e a pensar melhor sobre sua saúde corporal. “Em 2006, voltei a nadar depois de quase 20 anos parado. Na verdade, voltei a nadar justamente por causa do Raphael, pois ficava muito nervoso toda vez que ele competia, fazia quase 20 anos que não praticava nenhuma atividade física e por isso estava 35 quilos acima do meu peso, e com isso comecei a temer ter um ‘treco’ toda vez que ele competia. Tentei correr, mas não deu e aí o jeito foi voltar a nadar”, comenta.

Essa prática de atividades físicas em conjunto permitiu maior contato e um envolvimento maior nessa relação pai e filho. “Com certeza, qualquer oportunidade que você tiver de passar horas lado a lado do seu filho vai promover esse amadurecimento. Ainda mais se você passa horas dividindo comprometimento, dedicação, dor e conquistas, pois é isso que o esporte proporciona: conquistas diárias à custa de muito empenho, de muita superação, um verdadeiro curso completo de autoconhecimento e superação. É muito acolhedor e bom ter alguém tão íntimo para ajudá-lo a levantar nos tropeços e momentos de dor e motivá-lo a seguir em frente.”

DE OLHO NAS LIMITAÇÕES

Praticar atividades físicas em família é muito saudável tanto do ponto de vista físico quanto emocional e mental. Mas é importante observar os exercícios indicados por faixa etária, principalmente quando se fala de crianças pequenas ou adolescentes que estão com o corpo em formação e querem praticar esportes com os pais em modalidades que possam comprometer o desenvolvimento deles.

Segundo o cardiologista Marconi Gomes, é importante também determinar algum tipo de limitação de ordem médica, principalmente de origem cardiovascular e ortopédica, que possam colocar em risco a pessoa que decide se exercitar de forma regular. Sendo assim, uma avaliação que chamamos de pré-participação, deve ser realizada visando identificar problemas muitas vezes ocultos, como a hipertensão arterial (pressão alta), arritmias cardíacas, obstrução ao fluxo nas artérias coronárias (risco de infarto), diabetes, assim como problemas ortopédicos que possam comprometer a progressão do treinamento, tais como forma de pisada que necessitem de correção e erros na execução do gesto esportivo.

Relação de cumplicidade
Além dos benefícios para a saúde, o momento em família compartilhado em academias ou mesmo ao ar livre ajuda no desenvolvimento de valores, nas lições de bem-estar e a evitar o sedentarismo

O momento familiar na hora de praticar atividades físicas ajuda também na melhora da sintonia entre familiares. A analista de suporte a sistemas Ana Cristina Teixeira, de 24 anos, viu na mãe, Nilsa Teixeira, de 51, a companhia e a motivação ideal para começar a praticar atividades físicas na busca de uma vida mais saudável. “Minha mãe sempre me incentivou a fazer algum tipo de atividade física, então meio que desde sempre faço alguma atividade com ela, como caminhada e hidroginástica ou natação”, afirma.

Ramon Lisboa/EM/D.A Press
Ana Cristina aproveita para curtir a companhia da mãe, Nilsa Teixeira, durante atividade física na academia (foto: Ramon Lisboa/EM/D.A Press)

Ana Cristina conta que começou a treinar com a mãe em 2016, quando retornou de um intercâmbio com sobrepeso. “Tomei essa decisão primeiro por saúde, eu precisava perder peso. E segundo por ser com ela, o que me motiva. Treinar com a minha mãe é sempre engraçado e motivador. Ela está sempre animada, mesmo depois de um dia tenso ou cansativo.”

Além dos benefícios para a saúde, Nilsa Teixeira nota que essa cumplicidade na hora do treino agrega, também, na relação de mãe e filha. “Nossa amizade e companheirismo são sempre trabalhados e com isso o amadurecimento da nossa relação.” Nilsa e Ana Cristina revelam que, com o treino juntas, aprenderam a conviver e aceitar suas diversidades e a estreitar os laços familiares. A diferença de idade entre as duas é sentida pela mãe, que vê uma “diferença na aparência física e no desenvolvimento das atividades”. Mas Ana Cristina pondera: “Minha mãe é muito esforçada, então não vejo muita diferença. Eu faço o que ela faz, mudam o nosso ritmo e cargas das atividades”. Há uma rotina de exercícios adequada para cada biotipo e idade. Identificá-la faz toda a diferença nos resultados desejados.

PROCESSO

Para Rodrigo Moura, fisioterapeuta e sócio especialista da Sociedade Nacional de Fisioterapia Esportiva (Sonafe), a atmosfera física e emocional que os pais criam na família ajudam no desenvolvimento dos valores e nas lições de bem-estar dos filhos. “É importante destacar que os hábitos da prática da atividade física, incorporados na infância e na adolescência, são transferidos para fase adulta. Crianças e adolescentes menos ativos apresentam maior predisposição a se tornarem adultos sedentários. Essa cultura familiar estimula o processo educacional na busca de uma vida saudável”, incentiva.

Ramon Lisboa/EM/D.A Press
"Do ponto de vista do desenvolvimento corporal, a prática da atividade física desde muito cedo proporciona o desenvolvimento amplo de diversas áreas do cérebro e do corpo. Claro que quando isso é acompanhado e incentivado pelos pais ou praticado junto, esses ganhos se multiplicam" - Rodrigo Moura, fisioterapeuta (foto: Ramon Lisboa/EM/D.A Press)
Os benefícios dessa prática em conjunto são muitos. O mais importante é ter esses momentos de cumplicidade e ensinamentos com a família. Além disso, é importante incentivar desde cedo a prática de atividades físicas, que tem como característica o conhecimento e desenvolvimento do corpo. “Do ponto de vista do desenvolvimento corporal, a prática da atividade física desde muito cedo proporciona o desenvolvimento amplo de diversas áreas do cérebro e do corpo. Claro que quando isso é acompanhado e incentivado pelos pais ou praticado junto, esses ganhos se multiplicam.”

O fisioterapeuta destaca que as atividades físicas não devem ser impostas como obrigação, para que não se tornem algo ruim para os filhos e assim acabem sendo abandonadas precocemente. “Antes de qualquer coisa, é importante saber o perfil da pessoa e respeitar a adesão e o gosto do filho. Do contrário, pode virar uma obrigação e gerar um desafeto pela atividade desenvolvida. Não há esportes ou atividades mais ou menos indicados. Há esportes que cabem melhor no contexto e na vontade da criança e do adolescente”, aconselha.

Pessoas que estão muito inativas, sedentárias, devem iniciar os treinamentos após avaliação médica de um profissional com experiência. Hoje, sabemos que o exercício físico mal orientado pode comprometer a sua saúde, levando a lesões osteomusculares precoces e a um maior risco de eventos cardiovasculares. Sendo assim, todo recomeço, após um longo período de inatividade, deve ser feito de maneira gradativa, sempre respeitando os limites do corpo.

“A atividade física é usada tanto para a manutenção, prevenção quanto para a promoção. Quando se resolve deixar a vida sedentária, é importante passar por uma avaliação médica e adotar uma metodologia de exposição gradual. Dentro do nível recomendado para a adaptação do corpo nessa nova fase. Uma dica é mesclar atividades aeróbicas, como corrida, a caminhada com atividades anaeróbicas, como a musculação”, destaca Rodrigo Moura.

 

* Estagiário sob a supervisão da editora Teresa Caram