Pílula do amor

"A mãe transcende, aprende com o filho, vira do avesso, sopra o mofo do preconceito, alarga horizontes, aceita, refaz conceitos, porque só ela sabe o tormento de um filho que chegava em casa embriagado e quebrava tudo o que via pela frente"

por Déa Januzzi 28/05/2018 07:00

Ela surgiu do nada, em uma esquina qualquer. Se não fosse pela destreza do rapaz ao meu lado, ela teria se esborrachado no chão. Um tombo nos aproximou noite dessas. O rapaz então elogiou a beleza daquela mulher que acabara de cair em seus braços. Alta e magra como as modelos das passarelas, ela foi logo avisando: “Sou transexual”. O rapaz estranhou. Olhou para ela e para mim e disse naturalmente: você é um ser humano. Está precisando de ajuda? Ela disse não, se ajeitou, pôs tudo no lugar e seguiu caminho.

Um tombo foi o passaporte para saber mais sobre Luiza Valentim, de 28 anos, até então uma personagem anônima para mim. No primeiro bar do pedaço, ela parou e fiquei sabendo que acabara de fazer a cirurgia de mudança de sexo num hospital particular do Rio de Janeiro - e se exibia toda com o novo corpo de mulher, inclusive com gestos femininos de arrumar os cabelos, dobrar as pernas e ajeitar a saia.

Fiquei sabendo que Luiza agora é popular na Serra do Cipó, onde mora com os pais. Acabara de sair em rede nacional nas tevês abertas e fechadas. As câmaras acompanharam tudo, desde momentos antes da cirurgia até a recuperação de Luiza, e entraram no universo familiar dela para contar a história de alguém que nasceu em corpo errado e fez de tudo para mudar o destino. Soube também dos pais dela, o topógrafo João Mendes Valentim, de 57, e Aparecida Mendes Cristino, de 54, que tiveram inclusive de vender um terreno por preço menor do que o de mercado para realizar o sonho da filha, que vivia atormentada dentro de um corpo errado. A mãe se apressa em dizer que “não era sonho. Era uma correção na natureza de Luiza, um equívoco do DNA”. Na época, a cirurgia ficou em R$ 40 mil.

Para acabar com a agonia da filha, que desde os 16 anos se olhava no espelho e não se reconhecia, que sofria, se torturava com cortes de gilete nos braços, que se revoltava, que acordava e dormia angustiada, que brigava com Deus por tê-la feito assim, Aparecida resolveu falar com o marido da urgência da cirurgia que é realizada desde 2008 pelo SUS, mas cuja espera na fila é de seis anos, tempo longo demais para o sofrimento de todos em casa. Luiza era infeliz no corpo de um homem.

Era preciso conhecer essa mãe que a tevê mostrava e que contou ao marido algo que ele jamais pensara existir. Devota de Nossa Senhora Aparecida, a mãe rezava, mas não sabia como a filha ia acordar a cada dia que se distanciava da mudança de sexo. Todo amanhecer, a mesma fala. “Mãe, nasci num corpo de menino, mas sou menina.” E se revoltava dizendo que Deus não existia. Bebia sem parar para esquecer que era homem.

Até que, um dia, Luiza teve uma crise séria no trabalho como brigadista de incêndio. Foi parar no hospital e lá encontrou uma médica que não só apagou o incêndio no coração de Luiza como deu para ela uma lanterna para sair daquele lugar escuro, de autodestruição em que se achava. A médica de nome Luiza - não é por acaso que ela adotou o mesmo nome - abriu as portas de um novo mundo para aquele menino que queria ser menina.

Depois de pesquisar sobre o assunto, de assistir a filmes como A garota dinamarquesa, de Tom Hooper, que fala da primeira transexual da história, no começo dos anos 1920, Aparecida entendeu. Veio à sua mente as inúmeras vezes em que surpreendeu Luiza usando as suas roupas escondida no quarto. E a mãe começou a preparar o pai, que dizia sem compreender ainda: “Isso acontece de verdade? O que é isso gente?”. E tantas outras perguntas que ele não sabia a resposta.

Olha que na época eles moravam em São José do Almeida, distrito de Jaboticatubas, a 72 quilômetros de BH, às margens da Rodovia MG-10. Luiza nem se importava com o lugar, os olhares e comentários enviesados. Saía vestida de mulher e acabou por se tornar amiga de uma psicóloga do posto de saúde que a levou em direção ao seu sonho. Mas havia um porém na história: Luiza sabia que depois da cirurgia ficaria estéril. Nunca mais poderia ter filhos e acabou por conhecer Grazielle na noite de São José do Almeida. A proposta foi feita. Pediu Grazielle para gerar um filho. Tentaram e tiveram um menino, hoje com 3 anos, que fica a semana toda na casa dos avós e das duas outras mães nos fins de semana. Na hora certa, ele vai saber toda a história do pai que virou mãe.

Aparecida hoje está feliz. Os olhos dela brilham quando conta que Luiza arrumou um namorado e está de bem com a vida e com o corpo de mulher. Nem pensar mais no tempo em que bradava para a mãe que tinha um câncer entre as pernas, que era uma aberração da natureza. Nos dias em que para sair de casa colocava o membro masculino para trás das pernas e prendia com fita isolante. Aparecida vivia com medo de que, por conta própria, ela o cortasse de tanto desespero.

A mãe nunca teve vergonha da filha. Nunca pensou que ela era anormal. Nunca quis curá-la com padres, exorcismo ou psiquiatras. Nunca pensou em expulsá-la de casa nem de castigá-la. A mãe desfila com Luiza por todos os lugares. Tem o maior orgulho da filha. Tanto que só ela pode cuidar dos cabelos de Luiza. Ninguém mais põe as mãos. E João, o pai? Até hoje protege a filha. Se ela demora a chegar em casa, João vai buscá-la de madrugada, a hora que for. No lugar que estiver. João e Aparecida só conseguiram dar para Luiza doses certas de uma tal pílula do amor.

O único entrave hoje na vida de Luiza é que ainda conserva o nome masculino. Há um ano, Luiza espera o registro do nome social. Entrou com o processo para mudá-lo em Jaboticatubas, mas nada. Nem mesmo em ano de eleições, quando o próprio plenário do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) decidiu, por unanimidade, que os travestis, os transexuais e os transgêneros poderão solicitar à Justiça a emissão do título de eleitor com seu respectivo nome social em vez do civil.

A mãe faz um parenteses para dizer o quanto admira a filha e que está torcendo para que a mudança de nome seja rápida, pois nem emprego ela consegue com corpo de mulher e identidade de homem. Mas não se cansa de descrever as qualidades da filha, que tem carisma, inteligência, talento e hoje faz palestras em faculdades de todo o país. Vai até contar a sua história no Congresso, em Brasília, aplaude a mãe.

Encontrar Aparecida me fez lembrar de uma passagem do filme de Garth Davis, que esteve recentemente em cartaz nos cinemas, sobre o ícone Madalena. Maria, mãe de Jesus, pergunta para Madalena: “E um filho precisa pedir alguma coisa para a mãe?”. Não precisa, não é Aparecida? A mãe transcende, aprende com o filho, vira do avesso, sopra o mofo do preconceito, alarga horizontes, aceita, refaz conceitos, porque só ela sabe o tormento de um filho que chegava em casa embriagado e quebrava tudo o que via pela frente. Aparecida então começava a rezar e pedia que Luiza deitasse no seu colo, dizia que a amava muito e que a ajudaria no que fosse preciso. Hoje, Aparecida está feliz, porque a filha encontrou morada num corpo de mulher - e fez as pazes com Deus.

Megafone
Déa Januzzi
Colunista

Nos 90 anos do Estado de Minas, o jornal realiza o podcast O Megafone, com a história da imprensa mineira na versão de grandes jornalistas que trabalharam no jornal. O episódio desta semana traz entrevista com a colunista Déa Januzzi. https://www.em.com.br/o-megafone/