Sentimento inerente ao homem, a inveja é malvista, mas pode ser entendida por uma ótica positiva

Além dos aspectos ruins, a dor de cotovelo também serve como espelho do desejo e um estímulo para transformações e desenvolvimento interno

por Joana Gontijo 09/04/2018 14:00

Ilustração/EM/Lelis
(foto: Ilustração/EM/Lelis)

Você já ouviu falar na síndrome do caranguejo? Pode soar estranho, mas é fato que o comportamento desse crustáceo funciona como uma metáfora sobre um sentimento inerente ao ser humano. Um cesto repleto com o animal nunca precisa ser fechado. Se houver apenas um caranguejo no recipiente, ele logo tentará uma escalada para fugir dali. Em um movimento de erros e acertos, é comum que alcance novamente a liberdade. Entretanto, se o cesto estiver cheio, nenhum conseguirá escapar. Ocorre que, no momento em que um caranguejo começa a ensaiar sua saída do cativeiro, sempre aparecerão outros que o puxarão para baixo. E aí, acabarão morrendo juntos.

Não está claro o porquê dessa característica, mas ela se traduz no pensamento "se eu não consigo, você também não vai conseguir", que a maioria das pessoas conhece bem. Seja na hora de abrir um negócio, voltar a estudar, apostar em um novo relacionamento, iniciar um emprego, fazer uma dieta ou começar a se exercitar, por exemplo, muitos são desestimulados por alguém dizendo que não vale o esforço e é perda de tempo. O olhar malicioso dos outros sobre a felicidade alheia é o primeiro sinal de um estado de espírito incômodo e tão malvisto: a inveja.

Marcante em várias esferas da vida e analisada por diferentes vertentes do conhecimento, a popular dor de cotovelo invariavelmente é tida como algo ruim. Porém, veja só, por outro lado é entendida por uma ótica positiva, considerada como estímulo, uma vez espelho do desejo, e agente de transformação e desenvolvimento interno. Afinal, voltando à analogia com o mundo animal, não se trata de ficar embaixo ou rebaixado no fundo do balaio, observando os demais saírem - o caso é agir por conta própria em um esforço para se livrar, sem necessidade de derrubar ou arrastar ninguém para trás.

Neste ponto, a ideia não é se acomodar e ficar conformado com a percepção do fracasso. Ao contrário, mirar no modelo de sucesso, sadiamente, muda a forma de enxergar a realidade, de buscar conquistas e se abrir para boas possibilidades. No fim, se os caranguejos enfrentarem unidos a prisão, será fácil vencê-la e soltar todos.

Reprodução/Internet/Cléofas
(foto: Reprodução/Internet/Cléofas)

Para os supersticiosos, alguns objetos servem como talismã ou amuleto para afastar a cobiça, como o olho grego, o pé de coelho, a ferradura e a figa. A confiança é de que eles podem trazer sorte e servir como proteção contra qualquer energia negativa comandada pelo mau olhado. Em um panorama prático, a simplicidade, o silêncio e a humildade são posturas que preservam o indivíduo. Muita gente atrai a inveja quase por esporte, exibindo sua riqueza e conquistas sempre que tem a oportunidade, como pelas redes sociais, e muitas vezes sem consciência sobre o que isso causa. É certo que não dá para prever o comportamento dos demais. Então, agir com modéstia, cuidando para não inflamar nas pessoas ao redor o ciúme e o olho grande, ajuda a afastar complicações.

Quem convive ou é impactado pelo sentimento de uma maneira negativa, na maioria das vezes encara o fato a partir de uma percepção de causa e efeito. A inveja é julgada como motor que provoca acontecimentos ruins, que têm conexão direta com a questão de ser invejado, mesmo que isso não encontre uma comprovação cientificamente correlata.

REAÇÃO NEGATIVA

Cynthia Rabelo, de 43 anos, administradora por formação e há três anos coordenadora de um centro cultural conjunto a um espaço colaborativo de artesanato em Belo Horizonte, conta que nunca se importou com a inveja, para ela, até então, uma bobagem. Mas, no momento em que começou a idealizar o projeto que agora toma à frente, a montar a loja e realizar eventos na área, pôde perceber a reação negativa de algumas pessoas.

Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press
Cynthia Rabelo diz que nunca se preocupou com a inveja, até ser atingida pelo mau-olhado (foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press )

"Já entrou gente aqui, que eu primeiro achei que era cliente, falando: 'queria ter um negócio assim, essa loja devia ser minha'. Foram vários episódios do tipo. Recebi mensagens de pessoas me criticando, dizendo que eu não tinha capacidade para cuidar da loja, para administrar um projeto como esse, que sou muito nova. Ao mesmo tempo em que se declaravam com experiência de trabalhar há muitos anos no setor", conta. Conversando com os amigos, foi alertada de que aquelas situações certamente se tratavam de inveja.

Para Cynthia, o olho gordo acontecia somente em relação a pessoas muito bonitas, endinheiradas ou cativantes, que atraem a atenção de uma forma geral. Agora, diz que o sentimento a atinge de várias formas, até sem um impulso atestado empiricamente. "É uma coisa inexplicável. Ficava doente, ia ao médico, fazia os exames e não aparecia nada. Sofri ameaças, tentativas de assalto. Não sabia que a inveja poderia chegar a tal ponto."

A grama do vizinho...
A inveja impacta tanto a vida de quem alimenta esse sentimento quanto a de quem é objeto dela. Entender o que a motiva e se fortalecer internamente é a melhor forma de se blindar

A advogada Silvia Sette, de 36 anos, passou pela experiência da inveja no âmbito familiar, e a situação acabou causando uma ruptura de relações. Depois de três anos de namoro, ela e o companheiro decidiram se casar. Ela se lembra de que o matrimônio teve tudo o que cabe nos melhores sonhos, com direito a festa para 500 convidados e, depois, lua de mel de 30 dias pela Europa.

Juarez Rodrigues/EM/D.A Press
A advogada Silvia Sette enfrentou esse sentimento no âmbito familiar, que culminou com a ruptura de relações (foto: Juarez Rodrigues/EM/D.A Press)

Na época, o irmão do marido tinha uma namorada. Eles estavam juntos fazia cinco anos, e a moça começou uma pressão para se casar também, o que ocorreu um mês depois. “O casamento deles foi simples, um almoço em um restaurante. Claramente, minha cunhada não suportava conviver conosco e com o que a gente tinha. Não me esqueço do que ela me disse: 'Não dou conta de ver você com tudo isso e nós com nada'. Admitiu abertamente que era inveja”, recorda.

De uma hora para a outra, todas as situações que Silvia e o marido viviam e ela não podia ter agravavam a dor de cotovelo. Começou a inventar mentiras, provocar conflitos. A maledicência foi tamanha que originou uma briga entre os irmãos que durou quatro anos. “Meu cunhado não participou do nascimento do meu filho, e nós não acompanhamos nossos sobrinhos. No Natal, passávamos separados. Até chegar o momento em que ele começou a descobrir as mentiras da esposa e a obrigou a se desculpar”, lembra.

Há seis meses, eles acabaram se divorciando. Agora, a família voltou a se relacionar, mas o vinculo segue estremecido, meramente formal. “A inveja é um sentimento péssimo. A pessoa quer ter o que você tem, faz tudo para atingi-lo, provoca tanto mal que consegue até destruir uma família.” Silvia conta que perdoou a agora ex-cunhada e que, atualmente, convive com ela.

EFEITO FÍSICO

Casada, mãe de duas filhas, a psicóloga Andrea Santiago revela que já foi alvo de invejosos variadas vezes, o que, além de lhe afetar emocionalmente, também repercutiu em sua condição física. Ela exemplifica. "Certa vez, uma pessoa conhecida exaltou meu cabelo e tocou nele. Dias depois, os fios começaram a ficar fracos, sem brilho, sem viço, e caíram de forma assustadora." Mesmo que o acontecido não tenha uma explicação lógica, Andrea considera que existe a ligação clara com a atitude da pessoa em questão. "Me disseram para me benzer, eu fui, e não deu outra. Logo meu cabelo voltou ao que era."

Edésio Ferreira/EM/D.A Press
A psicóloga Andrea Santiago conta que já foi alvo de invejosos várias vezes, com repercussão em sua saúde física (foto: Edésio Ferreira/EM/D.A Press)

Em outra ocasião, chegou a uma festa onde já havia sido avisada que ali era invejada. "Me receberam com inúmeros elogios. Minutos depois, me esborrachei no chão, como se alguém tivesse me empurrado. Foi desastroso. Quebrei dente, rasguei a boca. Horrível." Em uma recepção com os mesmos convidados, mais um episódio - outro tombo. "Dessa vez saí carregada. Meu pé trincou, o ligamento foi atingido, fiquei 45 dias imobilizada."

Andrea conta que, para afastar a inveja, busca sempre a crença no divino e procura evitar o convívio em locais onde capta uma energia maléfica. "Já fui muito prejudicada pela inveja, mas hoje digo para os invejosos de plantão que estou totalmente blindada. Afinal, o invejoso é quase sempre um aniquilador dele mesmo."

SITUAÇÕES BANAIS

Para a enfermeira Natália da Silva, de 47 anos, é possível vislumbrar a inveja nos pequenos detalhes e, na sua opinião, isso muitas vezes acontece por coisas banais. "Dá para sentir aquela carga pesada, aquela vibração negativa direcionada para você. Incomoda demais. Em muitos casos não consigo saber o motivo, mesmo porque não sinto inveja de ninguém." Ela diz que esse é um sentimento que faz mal para quem é o foco da inveja, muito mais que para quem a destila e, para se manter bem, procura não dar importância e ignorar o invejoso.

Natália identifica quando os elogios são falsos e fica claro o tom do ciúme. A situação ocorre recorrentemente quando a pessoa que é mirada pelo olho gordo adquire bens, por exemplo. Em outra perspectiva, enxerga suas qualidades de sinceridade, de ser autêntica e segura de si fatores que motivam a inveja. "Falo o que penso e sinto e já me prejudiquei por causa disso. A verdade precisa ser dita e muita gente tem medo dela, principalmente quando é algo que machuca. Em várias situações fui mal interpretada e levei a pior por falar a verdade."

Mãe de uma moça de 23 anos e um rapaz de 31, a enfermeira conta que, quando está com eles, escuta muitas vezes que não tem o perfil adequado para o papel materno. Também cita que seu jeito de ser, que ela descreve como extravagante, suscita inveja, mas afirma que não se importa de ser julgada assim. No seu modo de entender, não existe inveja boa. "É ruim de qualquer maneira, para todas as partes envolvidas. Perdi muitos amigos e a cumplicidade de famílias inteiras por causa disso. Às vezes alguém se mostra confiável, próximo, mas te apunhala", lamenta.

Competição destrutiva

Um aspecto obscuro da inveja é o de tentar diminuir os méritos de pessoas que nem se conhece, sobre quem não se sabe a história de vida, de luta, de sofrimento, de barreiras vencidas, de glórias, erros ou desafios - na maioria das vezes, é o preconceito que prevalece. Vindo de uma família humilde, Ozeias Nunes dos Reis sabe o que é isso. Hoje comemora feitos que muitos poderiam ter como inalcançáveis para ele. Aos 43 anos, casado e pai de dois filhos, é pastor adventista, formado em canto erudito e em licenciatura plena pelo Conservatório Brasileiro de Música, no Rio de Janeiro, pós-graduado em psicologia clínica e mestrando em divindade pela Washington University of Virginia, na cidade de Washington, nos Estados Unidos, onde mora.

Arquivo Pessoal
O pastor Ozeias Nunes dos Reis já foi mira de inveja e diz que esse sentimento não pode ser confundido com admiração (foto: Arquivo Pessoal)

Ele conta sobre o sonho de ingressar na universidade e que foi o primeiro entre seus parentes a conseguir realizá-lo, o que logo suscitou inveja. "Seria pouco provável iniciar um curso universitário. Logo após entrar na faculdade, fui convidado para integrar o coro sinfônico do Teatro Municipal do Rio de janeiro, sem fazer teste. As pessoas se perguntavam: 'por que ele conseguiu tão fácil?' O invejoso não te difama diretamente, mas cria uma espécie de complô pelas suas costas e, quando nos damos conta, é impossível reverter o mal entendido. Até chegar ao extremo de não podermos mais nos defender."

Em outra situação, foi professor em um conservatório de música no interior de Minas Gerais e constatou o mau olhado por ter traços inovadores. Quando iniciou as aulas na escola, que passava por uma crise, tinha apenas dois alunos, mas rapidamente estava com a carga horária completa. Ao invés de enaltecer seu trabalho e entender o que ele estava fazendo para melhorar a situação, lembra, os colegas quiseram mesmo o prejudicar. Em outros casos, recorda-se de ter que dar explicações por algo que foi acusado de fazer, mas não fez.

Já calejado, para se preservar da inveja, Ozeias diz que é transparente e sempre fala a verdade e, com isso, identifica seus amigos reais, selecionando melhor quem quer que esteja ao seu lado. "Por ser sincero, meus amigos saberão que quando alguém falar algo injusto sobre mim é mentira e fruto de inveja. Creio em uma citação bíblica que fala: pelos seus frutos o conhecerei. O fruto sempre diz de que árvore veio", compara. Para o pastor, a arma dos incompetentes é a ignorância e, quem quer ganhar a vida fácil, não vê o sacrifício do outro para chegar aos seus objetivos. "Tudo na vida tem seu valor e seu esforço. O invejoso não quer se empenhar, e sim ganhar através da mentira, manchando a imagem dos outros."

Na visão de Ozeias, a inveja não pode ser confundida com admiração."Quando a pessoa observa outra que conquistou bons resultados e almeja seguir os mesmos passos, isso é reconhecimento. Agora, quando se pergunta 'porque ele e não eu', aí o sentimento passa a ser malévolo. Para mim, a pior coisa do invejoso é que acredita na mentira e ainda quer tirar satisfação. Perdi muita noite de sono por causa disso e já chorei bastante. Até que aprendi que a verdade precisa amadurecer e nunca apodrece, mas a mentira cai rapidamente pois já nasce podre."

ANTÍDOTO

A advogada Adriana teve tanta dor de cabeça por causa da inveja que preferiu ser identificada pelo codinome. De uma família numerosa, desde de pequena se defronta com o problema entre os próprios parentes, principalmente partindo de uma das irmãs. “Todo mundo acha normal a competição entre irmãos, porém mais tarde descobri que aquilo já era inveja.” No decorrer da vida, Adriana foi ultrajada por várias pessoas e em numerosas circunstâncias, seja entre os entes de sangue e até na igreja. Ela declara estar cansada de tanta maldade.

Atualmente muito bem sucedida, não gosta de se expor. A ambição dessa irmã sobre seus avanços gerou incontáveis reveses. O conflito entre as duas acontece com frequência e intensidade, em atitudes das mais simples às mais graves. “Tudo o que faço ela quer copiar e me culpa por seus desgostos, com cinismo.” Adriana muda o cabelo, a irmã faz igual, pretende comprar um carro, a irmã quer o mesmo. Ela já atrapalhou a advogada na locação de um imóvel, por exemplo.

Para ela, é alvo de olho gordo pelo fato de sempre lutar pelos seus ideais. Com o tempo desabrochou, desenvolveu o intelecto, foi cotada para miss, estabeleceu relações com pessoas interessantes, conseguiu status e agora exibe no álbum de retratos viagens pelo mundo e, no armário, roupas, sapatos e bolsas de grife. “A inveja é destrutiva. Quando você está com uma vibração energética baixa, entra na frequência do invejoso e é atingido.” Adriana considera o perdão um antídoto para o veneno da inveja. “Me resguardo reafirmando minha fé, melhorando minha energia, tudo através da meditação. Nada de sal grosso. Não acredito nessas coisas”, ensina.

Posição de insatisfação

Prosperidade, felicidade e triunfo muitas vezes estimulam sentimentos negativos. Ao se comparar com o outro e com suas conquistas, o invejoso busca formas de denegrir ou diminuir o invejado

A noção inicial sobre a inveja vem da origem do termo, do latim invidia: in-videre, que quer dizer olhar com maus olhos. Em uma linguagem contemporânea, significa estar em ressentimento com o contentamento, prosperidade e o triunfo dos outros, enxergando-se como desprezado injustamente e excluído do ter e ser. O indivíduo que a carrega está em constante posição de insatisfação, tomado pela ânsia de possuir algo que outra pessoa tem, ser o que outra pessoa é, ou pela vontade de destruir o que o outro detém ou representa. Nesta perspectiva, ao se comparar com outrem, o invejoso toma a pessoa invejada como o cerne de sua existência.

Existem condições para constatar um sentimento como sendo inveja: a pessoa deve se defrontar com alguém detentor de um bem tido como superior, seja este material, moral ou espiritual; o indivíduo deseja esse bem para si, ou quer que seu portador não o possua mais; esse anseio não suprido causa dor naquele que deseja. O mal estar do invejoso não se dá tanto por não dispor daquilo, mas de se ver como indigno de tê-lo, colocando-se no lugar de alguém incapaz de conquistar bens semelhantes aos invejados. Essa postura acaba o levando a tentar destruir a reputação daquele a quem inveja ou acabar com as posses cobiçadas, e ele faz isso quase sem notar.

Ramon Lisboa/EM/D.A Press
O psicólogo Marcus Sarmento explica que o perfil do invejoso muda seguindo o meio sociocultural em que vive (foto: Ramon Lisboa/EM/D.A Press)

O tipo, as causas, as consequências e a força com que a inveja acontece dependem de qual é o objeto da aspiração, e o perfil do invejoso muda seguindo o meio sociocultural em que vive, elucida o psicólogo Marcus Sarmento. Na sociedade de consumo, que estabelece padrões de comportamento e aparência, não raro perversos, as pessoas são incitadas ao desejo – ter uma roupa de marca, uma televisão, um carro, uma mansão, um relacionamento amoroso ideal, fazer uma viagem, exibir um corpo magro e musculoso, e assim por diante. “As crianças, por sua vez, podem ser impelidas a ter aquele jogo, um brinquedo, algo que viu em um desenho, em um filme”, ilustra.

A inveja pode chegar a extremos quando desemboca em atitudes nocivas concretas e tornar-se verdadeiramente uma patologia - é um sintoma agravado em certos transtornos de personalidade. Seus efeitos vão de mentiras inofensivas até transtornos enormes. Dependendo do nível do sentimento, continua o psicólogo, ele pode ser realmente prejudicial e tornar-se incontrolável, uma obsessão. Por exemplo, quando o invejoso rouba alguém para conseguir o que ele tem ou, com a mesma intenção, mas em um ato violento, acaba matando o invejado - o que beira a sociopatia.

Mesmo nas situações em que não está evidentemente doentia, refere-se a uma emoção dolorosa, e é complicado percebê-la pela lógica de uma reflexão racional. “O invejoso incorre em pequenos enganos. A pessoa detentora do objeto não tem valor, e acontece uma desvirtuação do próprio objeto. O invejoso nega sua vontade. Por outro lado, é uma questão de desvalorizar a si mesmo”, explana o especialista. Quem sente a inveja, pondera Marcus, não necessariamente consegue assimilá-la.

Vivência familiar

A inveja pode surgir, entre muitos motivos, da experiência familiar, em situações em que a comparação é algo frequente, corroborada também socialmente, o que está extremamente relacionado ao ciúme. Desde cedo as crianças são confrontadas com aquela que é mais bonita ou tira notas melhores. Na escola, na família ou no contexto social, a competição firmada no conceito de que o outro não pode ser melhor faz nascer um sentido de insatisfação.

É a partir dessa constatação que podem surgir sensações ruins, mediante as "vantagens" do outro, fazendo nebulosas as próprias capacidades e oportunidades: inferioridade, inadequação, frustração, desamparo, raiva, vergonha, insegurança, baixa autoconfiança, redução da autoestima e ira. O pensamento acaba se voltando para o fim de desvalorizar o outro para evitar a diminuição do valor de quem o inveja, como uma estratégia para compensar suas limitações. Quando se trata de inveja, é usual quem a sente precisar de auxílio. Ela está presente em diversas relações humanas - no convívio social, nas amizades, no trabalho e até entre os familiares. É uma emoção poderosa e enfrentá-la significa ter um nível de inteligência emocional do qual muita gente está distante.

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A psicóloga Maria Clara Jost diz que o invejoso responsabiliza o outro (foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press)

A psicóloga Maria Clara Jost ressalta que a inveja se dá tanto em termos materiais, relacionados a poder e condições financeiras, quanto pelo ponto de vista afetivo, pela necessidade de reconhecimento, carinho e amor, entre outros. “Pode ser uma impressão objetiva, quando se sabe que o outro realmente tem mais, ou subjetiva, quando se tem a ideia de que o outro é mais amado, mais admirado, mais reconhecido. E esse outro pode ser qualquer outro – alguém do convívio próximo, ou alguém da mídia, uma celebridade. É aquela famosa expressão: a grama do vizinho é mais verde que a minha.”

Maria Clara salienta que, geralmente, o perfil de quem é a mira da inveja é de alguém que está em plenitude interior, em paz, com saúde física e psicológica. Já o invejoso, compara, acha que tem menos do que deveria, que o que tem está aquém do que merece, e responsabiliza os outros por isso. É uma pessoa carente, inquieta, angustiada, insatisfeita, queixosa, que se sente injustiçada e jura que a vida lhe deve favores. “A partir daí, é muito fácil a situação se transformar em agressão. O invejoso começa a usar armas morais para fazer com que o outro se sinta diminuído, até provocando sérios escândalos. É comum perder completamente o senso da realidade. O problema pode virar um caldeirão de emoções e desaguar em tragédias. A notícia boa é que a inveja tem tratamento”, diz.

Natural e positiva

O Monge Zen-Budista Ryo Kei (Napoleão), praticante da meditação zazen, ensina que meditar é um meio para reciclar padrões de comportamento. No caso da inveja, opera quase como uma terapia, para afastar seu sentido negativo. “É fundamental a pessoa estar aberta a perceber-se como é, observar como está agindo em sua vida quando surge esse estado que sente como inveja, como seu corpo reage a isso, seu olhar, sua maneira de falar, de estar. A tônica não é o que está fora, mas voltar isso tudo para o interior”, ensina. O objetivo é evitar somatizações energéticas, que podem virar doença, e chegar a uma transformação efetiva, um desfecho em que essa postura saia e passe a não ser mais o eixo da vida, continua o monge.

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O Monge Zen-Budista Ryo Kei (Napoleão) explica que a meditação, no caso da inveja, funciona quase como uma terapia (foto: Beto Novaes/EM/D.A Press)

Afinal, ele explica, a inveja é uma característica que tem sua origem, muitas vezes na infância, quando se determinam alguns condicionamentos que forçam a pessoa a ser assim e responder dessa maneira às situações rotineiras. “Há que se aprender a lidar com sua própria consciência, tentar distinguir as mazelas que o levaram àquela situação. Para deixar de ser invejoso, é importante buscar se acalmar, mudar a direção da energia”, orienta Ryo Kei (Napoleão). Todos têm algum nível de inveja, comumente difícil de identificar - é um sentimento extremamente individual e não pode ser generalizado, acrescenta.

Quase sempre compreendida com uma conotação pessimista, no oposto da inveja destrutiva existe a inveja construtiva, a que o vocabulário corriqueiro chama de "inveja branca". Muitos irão dizer que sentir inveja é inevitável, faz parte da natureza humana e, admiti-la com sinceridade para consigo mesmo, já é o começo da melhora. O invejoso conduz um apurado senso crítico e é detentor de um importante poder de observação. Se procura experimentar a riqueza da diferença identificando seus próprios desejos, explorando possibilidades e obedecendo suas barreiras, acaba encontrando no alheio um impulso para progredir, ao contrário de se frustrar e denegrir o outro. "Se ele é assim, por que não eu? - Se ele pode, eu também posso".

É com esses conceitos e positividade em relação à vida, que a inveja atua para ultrapassar a zona de conforto e avançar, uma vez que o invejoso adquire confiança para assumir a responsabilidade de agir, crescer e realizar. Nesse tipo de elaboração pessoal, a psicologia orienta a se conscientizar sobre a força dual (boa e ruim) da inveja, aprendendo a mirar na perspectiva favorável dessa emoção, tomando-a como uma oportunidade de evolução, aceitando-se e reconhecendo-se nela.

A inveja, em um primeiro momento, assusta, vista como um sentimento denso, uma sombra na luz, lembra pecado e obscuridade, diz Nereida Vilela, fisioterapeuta e há 30 anos praticante dos preceitos da leitura corporal. Classificada de outra maneira, na polaridade luminosa da sombra, continua Nereida, é um caminho para a descoberta do que já se possui e não se sabe, do que já se pode desfrutar, mas ainda não se conhece. “É um sentimento vivo, válido, natural e devido ao ser humano como todos os outros, parte da construção dos sentires do homem. Nos ajuda a encontrar uma direção de merecimento, expandir as próprias potencialidades e chegar à força para a conquista. É como se, através disso, acessássemos a possibilidade da abundância.”

Reprodução/Internet/cantinhodefrancisco.com.br
(foto: Reprodução/Internet/cantinhodefrancisco.com.br)

Conforme a leitura corporal, a inveja acontece quando alguém vê no outro uma condição que lhe agrada ou que lhe é devida, mas que ainda não tem a liberdade ou o direito de desenvolver. “Quem inveja, na verdade, pode enxergar no outro um brilho que ele possui e que acaba sendo um espelho na percepção de suas próprias qualidades. Se conseguirmos tratar a inveja sem preconceito ou culpa ela se torna motivação para a clareza sobre o que podemos alcançar, desfazendo a neblina do olhar sobre a gente mesmo: eu invejo para entender que aquilo também pode ser uma verdade minha. A forma como se responde a ela é que cria os efeitos nocivos da vibração”, afirma Nereida.

Pela interpretação da palavra (in-veja - ver dentro), a inveja é intrínseca ao que é íntimo, explica Nereida. “É no dentro que pulsa a luz que se reflete no outro. Ela vibra, através de nós, até a superfície. A inveja bem vivida mostra o que conquistar, aponta o que se pode realizar. Delineia o caminho do outro, mas sublinha o nosso próprio caminho. Ver no outro inspira, ver o outro é ver a si. A questão é a confiança, a disposição para desenvolver a trajetória e a vontade, para expressar a própria verdade”, finaliza.

INTERPRETAÇÕES DIVERSAS

O tema está presente na religião, na filosofia, na psicologia e também na arte, como na literatura e no cinema, desde a Bíblia e as tragédias gregas. Para o catolicismo, é um dos sete pecados capitais, diretamente oposto às virtudes da caridade e do amor ao próximo. No budismo, é um traço mental que pode chegar à cólera, enquanto uma artimanha de defesa que surge quando a pessoa se sente inferiorizada em comparação ao outro. Outras definições no correr da história são concordantes. Segundo Aristóteles, a inveja é uma dor consequente da boa fortuna da qual desfrutam alguns dos semelhantes. Sócrates a denominou "a úlcera da alma". Napoleão Bonaparte afirmava que "a inveja é um atestado de inferioridade.”

Já São Tomás de Aquino a descreve como "a tristeza do bem alheio enquanto se considera como mal próprio, porque diminui a própria glória ou excelência.” O frade encara a inveja como um atentado contra o amor, uma vez que é peculiar do amor, assim como da amizade, querer o bem como se busca o próprio bem. São Tomás de Aquino encontra vícios derivados do sentimento, que ele batiza de "filhas da inveja". São eles: a murmuração (em outras palavras, a fofoca); a detração (difamação ou maledicência, ou o falar mal abertamente); ódio (aversão que surge por medo, raiva ou injúria sofrida); exultação pela adversidade (rir da desgraça alheia); aflição pela prosperidade (tristeza sentida ao ver o progresso do outro).

Reprodução/Internet/Mude.nu
Na A Divina Comédia, obra de Dante Alighieri, a inveja é descrita como um ser com olhos costurados com arame. A foto mostra uma escultura de Karen Coburn que dá forma à defnição de Dante (foto: Reprodução/Internet/Mude.nu)
No clássico Otelo, William Shakespeare busca na figura de Iago a melhor expressão do mau olhado: ele insinua para o general de Veneza a traição de sua amada, Desdêmona, com o objetivo claro de destruir a harmonia entre os dois. Movido por ciúme, Otelo mata Desdêmona e, depois de saber sobre sua inocência, comete suicídio. Na célebre obra A Divina Comédia, Dante Alighieri cria a imagem da inveja no Purgatório, como uma figura de olhos costurados com fios de arame como punição por ter se alegrado ao ver a desgraça de outros.

Em seu aclamado livro Esaú e Jacó, Machado de Assis conta a história da disputa acirrada entre dois irmãos gêmeos que não se entendem, o que acaba perfazendo a temática da inveja, com um toada parecida aos escritos de Dois Irmãos, de Milton Hatoum, também permitindo o elo com a paródia bíblica de Caim e Abel. No O conde de Monte Cristo, a cobiça de um marinheiro em relação à nomeação de Dantés, o protagonista, ao posto de comandante de um navio, decorre em uma teia de mentiras e calúnias que levam o capitão, injustamente, a 23 anos de prisão.

Percorrendo o trajeto das produções cinematográficas, grandes filmes foram concebidos com o objetivo de apreender a essência da questão. Alguns versam sobre suas consequências, outros falam do prazer da inveja, e mais alguns se lançam a tentar compreendê-la em seus diversos níveis. Dentre as películas mais famosas, estão: O Talentoso Ripley, Ricardo III, Assassinato em Gosford Park, As Bruxas de Salém, Malena, O Grande Truque, Água para Elefantes, Coraline e o Mundo Secreto, Memórias de uma Gueixa, A Malvada, O Que Terá Acontecido a Baby Jane?, Um Sonho sem Limites e Quero Ser John Malkovich.

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