Autossabotagem é um ciclo repetitivo de sentimentos negativos e pode ser perigosa

Sensações como culpa e medo impedem a pessoa de mudar e arriscar o novo. A saída está na busca interior de cada um

por Lilian Monteiro 06/03/2018 13:06

Beto Novaes/EM/D.A Press
(foto: Beto Novaes/EM/D.A Press)

Autossabotagem. Autoboicote. Puxada de tapete. Tudo provocado por você mesmo. Tem feito isso? Está sendo controlado por uma força maior, pelo inconsciente (ou não) e sendo impedido de mudar, de arriscar em algo que pode torná-lo mais confortável, satisfeito, desafiado, instigado, interessado ou até mesmo mais feliz com sua vida? Quais travas, limites, medos e inseguranças tem repetido ao longo do caminho para ser dominado por uma voz interna que o impede de tomar a atitude que o faça sair do lugar, de um conformismo que cria raízes que dificultam e inviabilizam uma mudança de comportamento ou atitude que poderá ser recompensadora?

A autossabotagem inibe descobertas que, boas ou ruins, seguramente trarão aprendizado. Nada na vida é garantido, o resultado pode ser o não esperado, o não planejado, o não desejado. No entanto, ao optar pela inércia, que é um caminho (livre-arbítrio), lembre-se de que a vida é uma só. E, ao se contentar com correntes que o impeçaM de dar passos diferentes, de lutar por conquistas e fazer grandes (ou pequenas) realizações, significa que está abrindo mão do que a vida oferece, abdicando de escolhas que podem lhe fazer bem e mostrar outras perspectivas.

Neste início de 2018, depois da folia, alegria e fantasia do carnaval, em que muitos usaram máscaras reais e imaginárias e ilusórias, é tempo de se ater a um período de reflexão, inspirado pelo período da quaresma e penitência, para buscar uma reviravolta no jeito de ser, se assim o desejar. Uma decisão corajosa e que, fatalmente, virá acompanhada de dor. Um sofrimento valioso. Dê um basta na autopunição. Dê uma chance a você mesmo.

Essa conquista dói, mas alcançá-la é permitir revelar-se a si mesmo e ao mundo, livrar-se de culpas, receios e resgatar sua plenitude com a potencialidade que todos têm. A psiquiatra e psicanalista Gilda Paoliello lembra que o escritor, filósofo e jornalista russo Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski disse que “a maior felicidade é saber por que se é infeliz”. O que deve ser a busca de todos: “Sim, esse é o caminho, mas o grande problema do ser humano é não seguir o preceito básico - 'conheça-te a ti mesmo' - e não querer saber sobre si. Quem tiver medo permanecerá na ignorância, que consiste em ser vencido por si mesmo. A maturidade não será alcançada se não houver essa sabedoria”.

A autossabotagem é uma atitude emocional que destrói o futuro. Para Gilda Paoliello, “é um sintoma de quem está 'doente de si mesmo'. Por isso digo que o remédio está com a própria pessoa. Só ela pode se curar, a partir do momento em que admite que está doente. Mas nem sempre ela consegue fazer isso sozinha”.

PESSOAS MELHORES

Por qur repetimos atitude que nos destroem e nos fazem sofrer? Essa e muitas outras questões estão no livro O ciclo da autossabotagem, do psicólogo americano Stanleu Rosner e da escritora Patrícia Hermes, em que buscam explicar como é possível ajudar o sabotador a quebrar vínculos repetitivos. Por meio de estudo de casos reais – como a separação dos pais na infância ou o término conturbado de um relacionamento –, os autores analisam como episódios traumáticos podem criar dilemas inconscientes que nos fazem agir contra nós mesmos. O resultado é um ciclo de autodestruição, que afeta relações pessoais e profissionais pelo resto da vida. Mas ele também mostra a melhor maneira de superar tamanho sofrimento, vencendo antigos traumas e buscando novos caminhos.

A autoafirmação é possível. O amadurecimento, acompanhado do autoconhecimento, é a solução para gostar mais de si mesmo e se tratar melhor. Especialistas indicam como seguir em frente de forma mais saudável, enquanto personagens que superaram obstáculos compartilham experiências que não só os fizeram crescer, como os transformaram em pessoas melhores, para elas mesmas e, consequentemente, para todo mundo.

Sua melhor versão
A autossabotagem é paralisante para a vida pessoal, emocional e profissional. Para fugir das rédeas que o impedem de evoluir é preciso ter coragem e lutar contra o medo de falhar


“Entendi que a demanda da vida e do mercado profissional e de trabalho não é de ideias geniais, mas de coragem e suporte para que cada um as coloque em prática e vá além do desejo. É a mudança desta era, com novos comportamentos e a quebra de paradigmas. E o mundo requer essa atitude de todos nós hoje.” Dessa forma, é possível, individualmente e com ajuda (se preciso), superar a autossabotagem a que o ser humano se impõe. O pensamento é de Marcela Bueno, coolhunter e gestora de marcas da MAR Negócios do Futuro.

Com mais de 15 anos de experiência em gestão de marcas para o futuro, criando modelos de negócios disruptivos, Marcela partiu da sua própria vivência para criar uma saída pela amarras que lhe imputava. “Vivia uma crise existencial, fazia coisas que não funcionavam, que não me representavam mais, e criei para mim vários desafios pessoais e profissionais que mexiam com meus pontos acomodados. Daí nasceu o que chamei de 10 minirrevoluções, pequenas mas que impactam. Achava que era muito boa no que fazia. Fui revisitar e fazer de novo. Comecei do zero e aprendi que era cheia de vícios e tinha mais coisas a aprender, estava estacionada. Não é simples, toca profundo e precisamos ter a humildade de recomeçar sempre.”

Essa experiência pessoal fez com que Marcela a transformasse no projeto Dessabotamento Total, no qual, durante três horas intensas, as pessoas são apresentadas às 10 minirrevoluções “para impactar o futuro de quem quer mudar e espantar os monstros sabotadores que moram na nossa cabeça”. Ela explica que, para não cair na armadilha da sabotagem, é fundamental “entender a voz que diz 'não pode', 'não consegue', 'não vai dar certo'. Percebi que a potência das pessoas está presa atrás dessas camadas. São pontos que têm de ser revistos, não de forma externa, mas para dentro, internamente”.

Arquivo Pessoal
"Percebi que a potência das pessoas está presa atrás dessas camadas" - Marcela Bueno, coolhunter e criadora do projeto Dessabotamento (foto: Arquivo Pessoal )
Ao deixar de se sabotar, Marcela enfatiza que a pessoa passa a demonstrar coragem de ser o que é, e é aí que tudo ocorre. O desafio é enfrentar, confrontar e vencer seus medos e desafios pessoais que o tiram do lugar-comum. “O que proponho é ancorado em estudos, no marketing 4.0, que é centrado nas pessoas, nos ensinamentos do mestre espiritual Prem Baba e também da monja Coen, e auxiliado pelo despertar de diversos profissionais, desde mentores e grandes gestores profissionais ligados a finanças e empreendedorismo, comunicação pública e voluntariado, até coach de carreira, psicólogo e terapeuta holístico.”

Marcela revela que, depois de perceber o quanto precisa mudar, tomou as rédeas da sua vida e fez uma grande incursão no universo da sabotagem. Aliás, esse é um estado de constante atenção e vigia. É como se ela, a autossabotagem, estivesse sempre à espreita. Não dá para baixar a guarda! “Conseguir se deslanchar na vida pessoal e na carreira, perdendo medos e crenças antigas, é libertador. É o feedback que tenho tido desde a primeira turma do Dessabotamento Total, em 2016. Já formamos uma rede de mais de 200 pessoas impactadas.”

VERDADE

Para Marcela, sabotagem é um estilo de vida que tem de ser enfrentado. As tais vozes precisam ser controladas para se ter uma experiência transcendental. “Nas minhas últimas férias, quis mergulhar. Mas a voz me dizia, 'nossa, você é mãe, filho pra criar, isso é radical'. Mas encarei e foi quase uma meditação. Sensacional.” O enfrentar vale para todas as situações e obstáculos que se apresentam ao longo da vida. No entanto, ela sabe que não é simples e muitos menos fácil. “Começa com a coragem para assumir a sabotagem. E tudo isso que falei, vivi e proponho às pessoas não é nada esotérico, é informação real. É comportamento humano. E sei que, da era industrial para a já pós-digital que vivemos, é impossível fazer sozinho. Precisamos de pares, porque é dolorido. Mas, com ajuda, as pessoas se conectam organicamente. É possível essa transformação.”

Marcela alerta que a ideia do dessabotamento não é incentivar um salto sem rede. O objetivo é que cada pessoa faça esse salto para dentro dela, da sua verdade. “Não é jogar tudo para o alto e ir viver numa kombi, na Austrália (o que até pode ocorrer, mas é raro, é exceção).” E avisa que não existe ninguém que não seja sabotador na face da Terra. “A saída é, por que vivemos aqui? Como melhorar? Como entender a voz que nos guia e nos dá potência?. Para chegar às respostas há um tratado interno que é preciso superar, e muita responsabilidade.”

• Ação é a cura

Duas formações acadêmicas frustrantes, um trabalho no negócio da família que não a satisfazia, um problema grave de saúde e a descoberta diária de qual o caminho seguir, ainda que a luta contra a autossabotagem seja constante. Esse recorte traduz um pouco da vida de Raquel Couto, que abriu mão da administração, do direito e do emprego na empresa de fogos de artifício do pai para se encontrar como coach, em uma reviravolta sensível de como deseja encarar o mundo profissional e pessoal. “Formei-me em administração e não queria trabalhar na área. Fui para o direito - a outra opção era psicologia - e, na metade do curso, me decepcionei e descobri que não era para mim. E nos dois anos em que trabalhei com meu pai, comprovei que não nasci para trabalhar atrás de uma mesa. Chegou um momento em que me senti perdida, mas não tinha consciência de que era autossabotagem. Estava deixando a vida me levar.”

Beto Novaes/EM/D.A Press
"Há um mês descobri que, se tenho medo, vou lá e faço. Para mim, medo se cura com ação. Depois que se faz, fica fácil" - Raquel Couto, coach (foto: Beto Novaes/EM/D.A Press)

No fim de 2011, Raquel, por indicação de um conhecido, fez um curso de desenvolvimento pessoal e foi quando passou a buscar o que queria ser e é hoje. “Encantei-me. Mudei de área e, felizmente, quando tive de enfrentar um problema grave no intestino, passei por tudo mais fácil, porque tinha iniciado meu processo de desenvolvimento. E a partir daí fiz outros questionamentos. Teria cumprido meu papel? Era um novo recomeço? Percebi que me sabotava em muitas coisas, não só profissional, mas emocionalmente.”

 

CRESCIMENTO

 

Raquel revela que, com frequência, descobre suas puxadas de tapete. Mas nunca mais deixou a vida solta. “Procuro me aperfeiçoar e me descobrir. Faço maratona e a corrida é uma forma de processar várias coisas, refletir como minha mente funciona, como ligo a dor com o corpo... Enfim, acho impossível não se sabotar, mesmo porque, a pessoa não tem consciência e, por isso, persiste no erro. Acredito que, como presto muita atenção no que falo, em como ajo e no que faço, estou ligada, ainda que algumas situações passem batido. Mas creio que tudo é aprendizado, processo de crescimento e desenvolvimento. É autoconhecimento.”

Para Raquel, a autossabotagem pode até doer, mas não a vê como sofrimento. “Viro a chave fácil e encaro como uma oportunidade de crescimento e de fazer diferente. Mas lá atrás era tudo ao contrário, era fácil culpar os outros. Hoje, sei que é minha responsabilidade. Sei também que tenho vários medos, mas há um mês descobri que, se tenho medo, vou lá e faço. Para mim, medo se cura com ação. Depois que se faz, fica fácil. Antes, não lidava com ele dessa forma, ele era meu freio. Agora, só avalio se é o que quero, se vale a pena para o momento e se precisa ser feito agora. Tem de ser assim, porque senão entro em sofrimento. Tudo o que não quero.”

Dessabotamento Total

» O que é?

São três horas intensas com 10 minirrevoluções para impactar seu futuro e espantar os monstros sabotadores que estão morando aí nessa cabeça.

» Como é?

Experiências que dão frio na barriga e um manual prático de dessabotamento para você começar agora o que quer que esteja parado na sua vida. Recomenda-se coragem para fazer parte dessa rede.

» Para quem?

Para quem tem projetos na gaveta, mas não consegue tirá-los de lá. Para as pessoas que estão incomodadas com o estilo de vida de hoje, querem se conectar com o novo e sabem que sozinhas é osso começar alguma coisa. A hora é agora.

» Para quê?

Para ajudar você a tomar decisões perigosas. Para que você possa conhecer sua verdade, se conectar com pessoas incríveis, fazer negócios, realizar sua missão na Terra, parar de procrastinar, e se reconectar com sua família no mundo. Para mudar o mundo e pra fazer dele um lugar “foda” de a gente viver!

Contato: dessabotamentototal@gmail.com e www.vaiformiga.com.br/dessabota

Ludibriar a si mesmo
Autossabotagem é a capacidade de cada indivíduo fazer mal a ele próprio. Comportamento de repetir os mesmos erros impede a felicidade,mas é possível sair desse ciclo e optar pela mudança


É comum ouvirmos falar de pessoas que têm tudo para dar certo e que, no entanto, na hora de usufruir das próprias conquistas, destroem o que construíram, ou que estão sempre repetindo escolhas erradas, seja na profissão e na vida amorosa, seja nas amizades e nos projetos. Parece que têm medo de ser felizes. Ganhadores de loteria que perdem tudo, artistas bem-sucedidos que destroem a carreira, atletas que se envolvem com drogas, pessoas que arruinam a própria vida afetiva, políticos que se corrompem destruindo a trajetória. Tudo isso, segundo a psiquiatra e psicanalista Gilda Paoliello, é autossabotagem. “O conto dos três desejos nos ilustra bem essa estranha dificuldade de lidar com a realização de desejos: um casal de lenhadores foi visitado por um gênio que lhes concedeu três pedidos. A mulher, distraída, comentou que estava com fome e gostaria de comer um chouriço, e ele apareceu. O marido, irritado por a mulher ter desperdiçado desejo, disse que ela devia ficar com o chouriço preso ao nariz. O desejo realizou-se. A mulher, desesperada, pediu ao gênio para lhe tirar o chouriço do nariz. Mais uma vez, o desejo realizou-se, o casal continuou infeliz e o gênio desapareceu.”

Mas por que as pessoas se autossabotam? Gilda Paoliello destaca dois pontos principais, que podem parecer estranhos: o medo de ser feliz e a tendência a repetir os mesmos erros. “O homem é o único animal capaz de ludibriar a si mesmo. A psicanálise fornece indicações de que há uma lógica que o bom senso comum desconhece. Essa lógica é a do inconsciente, que atua como se fosse uma outra pessoa, montando armadilhas. A tendência do autossabotador é colocar a responsabilidade de seus fracassos nos outros – pais, parceiros, chefias –, e não se dá conta de que ele próprio provoca sua infelicidade. A origem dessa tendência pode estar na infância, onde encontramos nossas referências e construímos defesas para lidar com o mundo.”

Ainda que seja uma batalha diária, é possível lidar com a sabotagem e enxergar uma versão melhor de si mesma. Para a psiquiatra e psicanalista, o primeiro passo seria a pessoa se dar conta de que ela é a responsávelpelas escolhas que faz e pelas consequências e sustentações dessas escolhas. “Só se tornando autora da própria vida ela poderá mudá-la e deixará de repetir os mesmos erros.”

No entanto, muitas pessoas recaem no ciclo da autossabotagem. Insistir com o mesmo perfil de namorada ou enxergar sempre os mesmos obstáculos no trabalho. “A estranha tendência humana à compulsão de repetição. As pessoas têm medo do novo e se acomodam no familiar, mesmo que esse familiar lhe faça sofrer. Os poetas, como sempre, têm clara percepção dessa tendência e suas consequências: 'já conheço os passos dessa estrada, sei que não vai dar em nada, seu segredo sei de cor...' ou '...lá vou eu de novo como um tolo, procurar o desconsolo que cansei de conhecer...", palavras de Chico Buarque."

MUDANÇA

Marcílio Nicolau/Divulgação
"A tendência de autossabotador é colocar a responsabilidade de seus fracassos nos outros, pais, parceiros, chefias, e não se dá conta de que ele próprio provoca sua infelicidade" - Gilda Paoliello, psiquiatra e psicanalista (foto: Marcílio Nicolau/Divulgação )
Mas há cura para a puxada de tapete. E, conforme Gilda Paoliello, a palavra mágica é mudança. Para mudar, a pessoa não pode ter medo de se conhecer, de encarar sua história, que é contada em seu sintoma. “A partir daí ela pode construir uma nova forma de ser, sem repetições. A psicoterapia seria um caminho para essa construção.” E será que a autossabotagem tem relação com falta de esperança? Para a psicanalista, “podemos dizer que a falta de esperança é consequência da autossabotagem, à medida que esta leva a uma exaustação pela repetição dos mesmos erros”.

Na busca do autoconhecimento e do amadurecimento, e na luta contra a autossabotagem, vale destacar uma pesquisa de 1916, de Sigmund Freud. Em um artigo, o pai da psicanálise discorreu sobre as pessoas que tinham medo de ter satisfação e, de certa forma, sentiam-se aliviadas quando as coisas davam errado. “O nome exato do artigo é “Os arruinados pelo êxito”. Nesse trabalho, Freud reitera que o sintoma psíquico é resultado de um conflito entre um desejo inconsciente e o “Eu” e, assim, a frustração de uma satisfação seria a primeira condição para o adoecer. Por que então uma pessoa adoeceria precisamente no momento em que um desejo há muito alimentado se realiza? Depois de analisar vários casos que têm como ponto comum a ruína frente ao êxito, inclusive as histórias de Lady Macbeth, descritas por Shakespeare, e de Rebeca, de Ibsen, Freud conclui, à luz da experiência clínica, que “o trabalho psicanalítico nos ensina que as forças da consciência que induzem à doença, em consequência do êxito, em vez de, como normalmente esperado, em consequência da frustração, se acham intimamente relacionadas com o complexo de Édipo, a relação com o pai e a mãe – como, talvez, na realidade, se ache o nosso sentimento de culpa em geral”.

Então, como fazer o autossabotador enxergar o mal que está fazendo a si mesmo e lhe dar força para mudar? Gilda Paoliello destaca que para que da doença se extraia a cura é preciso trabalho. “Trabalho de esvaziar o gozo, limpar o sintoma, transformando-o em traço suportável. Não cabe aqui acomodação ou passividade. Há que se trabalhar: trabalho de construir, no demasiado próximo, a distância necessária para ver a própria responsabilidade; na certeza inabalável, a dúvida, e na seriedade circunspecta, o humor. Transformar o drama da própria vida em comédia é sinalizar a saúde mental.”

Viagem interna

Edésio Ferreira/EM/D.A Press
A psicóloga Fernanda Berni ressalta que cada pessoa traz dentro de si meios necessários para buscar e atingir o próprio crescimento pessoal (foto: Edésio Ferreira/EM/D.A Press)

Não se engane. Todos nós, em algum momento da vida, podemos ter um comportamento de autossabotador. O problema é quando algumas pessoas se fixam nessa atitude e passam a se prejudicar em todos os ambientes e círculos, seja familiar, amoroso, do trabalho e mesmo fisicamente. A psicóloga Fernanda Berni alerta que quando a frequência é alta há um prejuízo real e cada pessoa precisa prestar atenção e se reavaliar. “A autossabotagem é quando nós mesmos contribuímos para o nosso sofrimento, fazendo escolhas erradas, na contramão das nossas necessidades, desejos e sonhos. É um comportamento autodestrutivo, que vem acompanhado de pensamentos e sentimentos negativos, de uma autoimagem ruim e desvalorizada, uma autoestima baixa. O autossabotador tem medo de se arriscar e do novo, e estaciona em uma situação ruim, ainda que ela lhe traga tristeza, dor e frustração. Ele acredita que não pode, não consegue ou não merece ser feliz de verdade.”

Fernanda Berni avisa que, na maioria das vezes, a pessoa não sabe, não tem clareza desse tipo de comportamento. Mas o que há por trás da autossabotagem? “Normalmente, tem relação com um sentimento negativo anterior à autossabotagem, que pode ser culpa ou medo. O medo de uma prova, de buscar um novo trabalho ou terminar um relacionamento nocivo. Assim, ele se mantém na vida do jeito que está porque, por algum motivo, pensa que não vai conseguir mudar.”

Mas em algum momento o autossabotador vai perceber, só que depois de sofrer muito. É quando, explica a psicóloga, ele deve se perguntar: “Como reajo a esse ciclo de sabotagem? Como busco a solução? Como tento alcançar os objetivos? Tenho buscado de fato o que é melhor para mim no sentido de crescimento?”.

PADRÃO REPETITIVO

A psicóloga chama a atenção para não se confundir padrão de comportamento repetitivo com autossabotagem. A autossabotagem pode ter um comportamento repetitivo, mas nem todo comportamento repetitivo é autossabotagem.

Fernanda Berni enfatiza que a autossabotagem é um ciclo, porque sustenta um comportamento e, ao repetir as mesmas escolhas, a pessoa estará sempre limitada. Por isso, o psicólogo tem papel importante, com a ressalva de que, quando o profissional diz ao paciente para correr riscos e incentiva o crescimento, não significa que é para fazer loucuras. “Mas pensar com cuidado e critério porque cada pessoa traz dentro de si meios necessários para buscar e atingir o próprio crescimento pessoal. O psicólogo vai ajudar nesse processo, para que essa libertação da autossabotagem se dê atrelada ao autoconhecimento e a um pensar mais cuidadoso, para que ela tome posse de suas potencialidades, que depende do querer e do conseguir.”

Enfática, Fernanda Berni destaca que, para superar a autossabotagem não tem receita de bolo ou lista na internet, mas sim uma viagem para dentro de si. “É um processo, ele é individual e diferenciado, com cada um vivendo de uma forma o seu caminho.”