Mindful eating aprofunda a percepção dos sentidos, aguçando a sensação de se alimentar de forma consciente

Maus hábitos alimentares causam doenças, como obesidade e diabetes. Comer com atenção, mantendo o foco no que se está ingerindo é a proposta do método para uma vida mais saudável

por Lilian Monteiro 19/02/2018 07:00
Mari Lemos/Divulgação
(foto: Mari Lemos/Divulgação)

É muito comum as pessoas comerem enquanto mexem no celular, assistem TV, estão na frente do computador, lendo e conversando, o que tira a oportunidade de desfrutar e saborear os alimentos. Essa desconexão faz com que não se mastigue bem, não perceba o que comeu, coma mais do que o necessário, e por aí vai. O que é um problema, já que maus hábitos alimentares causam doenças, como obesidade, diabetes e hipertensão arterial, entre outras. Juliana Nakabayashi, nutricionista e nutricoach, explica que surge com força o movimento mindful eating (ME), que significa comer consciente, ou seja, alimentar-se com atenção, mantendo o foco na alimentação. “Mindful eating é uma prática que ajuda a comer de forma consciente, e não só comer. Ela incentiva-nos a ficar atentos sempre que estivermos em contato com o alimento, seja no momento da compra, no preparo, seja na hora de servi-lo. É um incentivo a usar os cinco sentidos. Tocá-lo, sentir sua textura, aroma, perceber o som que aquele alimento faz ao mastigá-lo. Sentir se é doce, amargo, salgado, azedo.”

Juliana Nakabayashi afirma que, quando se fala em mindful eating não pode deixar de falar do mindfulness (atenção plena), prática com o objetivo de trazer a pessoa para o aqui e agora, sem crítica e julgamento. “É comum os pensamentos nos levarem para outro lugar, nos impedindo de viver o presente. Consequentemente, vem a ansiedade, o esgotamento físico, mental e emocional, a tristeza, a angústia, a frustração. Digamos que o ME é o mindfulness voltado à alimentação, com a proposta de tirar a pessoa do comer desatento. A partir do momento em que a alimentação se torna consciente, focada no sabor, no cheiro, na textura, na temperatura e na mastigação, há uma transformação na vida da pessoa, porque ela descobre que pode comer de tudo e, naturalmente, aprenderá a conhecer e a respeitar sua fome e saciedade sem precisar de uma dieta que quase sempre vem acompanhada de regras e limitações. Portanto, o ME auxilia no emagrecimento”, garante.

VIVÊNCIA

Diante disso, surge também o MindFOODness. Projeto criado por Bernardo Coelho, psicólogo clínico, instrutor de ioga e mindfulness e diretor do Instituto Mindfulness e Cia. Ele conta que, inspirado no mindful eating, criou o MindFOODness, que é a junção desse conceito com a alta gastronomia, oferecido em um jantar que é uma verdadeira vivência, não só gastronômica.

Bernardo Coelho explica que “se a alimentação consciente nos convida a explorar com muito mais profundidade os aromas, sabores e texturas dos alimentos, ao sairmos do piloto automático, ao associarmos com um delicioso menu, podemos experienciar um verdadeiro banquete de sentidos.”

Este ano, será a quinta edição do MindFOODness. No próximo sábado, o chef Renato Quintino vai preparar um delicioso menu de seis pratos (da entrada à sobremesa), cada um harmonizado com uma taça de vinho, com Bernardo Coelho conduzindo os participantes por meio das técnicas de mindfulness (atenção plena) a degustação de cada um dos pratos para que todos possam se aprofundar na percepção das sensações, dos sentidos e, naturalmente, aguçando o prazer de se alimentar de forma consciente.

Comer consciente
Mindful eating incentiva as pessoas a ficar "ligadas" sempre que estiverem em contato com o alimento, seja na compra, seja na hora de servi-lo, ou simplesmente fazer as pazes com a comida


A nutricionista e nutricoach Juliana Nakabayashi conta que, para adotar o mindful eating (ME), basta querer melhorar a relação com a comida, seja para aprender a comer de forma consciente e natural, seja para fazer as pazes com ela. “Qualquer um pode iniciar a prática do mindful eating sozinho. Mas há profissionais treinados que a ensinam. O que facilita, já que, quem busca o ME, normalmente se alimenta de forma automatizada, come rápido, não tem o hábito de apreciar e saborear a refeição e deseja melhorar tais padrões. Com a ajuda de quem domina as ferramentas, fica mais certo atingir o objetivo.” Segundo Juliana, a maior dificuldade é no início. “Diria que pessoas ansiosas, agitadas, que comem muito rápido ou comem e não se dão conta de que estão comendo podem ter dificuldade porque terão de mudar o comportamento automático para o consciente. Mas é justamente esse grupo que mais se beneficia com a prática.” Portanto, a dica é respeitar seus limites e começar, mesmo que aos poucos, como por exemplo, fazendo respirações para acalmar a mente, descansando o talher entre uma garfada e outra, desligando o celular, ficando em silêncio enquanto faz as refeições.

SEM DIETAS IMPOSTAS

Sandra Arruda/Divulgação
"Diria que pessoas ansiosas, agitadas, que comem muito rápido ou comem e não se dão conta de que estão comendo podem ter dificuldade porque terão de mudar o comportamento automático para o consciente. Mas é justamente esse grupo que mais se beneficia com a prática" - Juliana Nakabayashi, nutricionista e nutricoach (foto: Sandra Arruda/Divulgação)
Juliana Nakabayashi afirma que o ME é indicado a todas as pessoas, inclusive crianças, já que o objetivo é promover uma relação harmoniosa com a comida, onde tudo pode, sem julgamentos. “Mas há grupos que podem ter excelentes benefícios: pessoas que vivem na alimentação automática e descontrolada, pessoas que desejam aprender a lidar com a fome emocional, pessoas que comem com medo e culpa de engordar ou adoecer. O ME também pode ser usado no tratamento dos transtornos alimentares (anorexia, bulimia, ortorexia, comer compulsivo). Nesse caso, é importante associar o ME ao acompanhamento psicológico, psiquiátrico e nutricional.”

Para a nutricionista, vale enfatizar que, no mindful eating “não há julgamentos na alimentação”. Ou seja, não se julga se é calórico, gorduroso ou fit. Não há rótulos. Tudo é permitido. “Mas se há atenção e consciência na hora de comer, consequentemente, ocorre uma transformação positiva e os hábitos e comportamentos disfuncionais, com o tempo, se tornam funcionais e adequados, trazendo não só saúde, mas paz para quem pratica.”

O que Juliana Nakabayashi prega em seu trabalho é que o nutricionista saia do papel de prescritor de dieta e assuma o papel de terapeuta nutricional. “O nutricionista comportamental ensina as pessoas a comer, mas usa outra didática. Sem dietas impostas e com muita conversa e diálogo.”

Para mulheres

Juliana Nakabayashi vai dar um curso que engloba o mindful eating para mulheres, o “Você tem fome de que?”. Serão sete encontros, às segundas-feiras, das 19h às 21h, mais uma consulta individual, com início marcado para 12 de março. Ela vai abordar temas ligados à nutrição consciente e à autoestima feminina. Os objetivos são melhorar a relação com a comida e fazer as pazes consigo mesma, mostrar que é possível comer com equilíbrio, sem fazer dietas restritivas e, ainda, emagrecer e despertar a essência feminina (intuição, aceitação, autoestima, amor, criatividade e fluidez, entre outras). O curso é indicado para mulheres que estão insatisfeitas com sua vida, seu corpo, que já tentaram de tudo para perder peso, mas vivem no efeito sanfona. Mais informações: www.reequilibre.com.br.

Os benefícios gerais de comer com atenção plena:

» Melhora a mastigação e a digestão;
» Desenvolve o termômetro interno da fome e da saciedade;
» Traz calma e paz, principalmente para aqueles que comem com culpa;
» Melhora a percepção do sabor, da textura e do aroma, já que se come com os cinco sentidos;
» Mais disposição física e mental;
» Restabelece a saúde (ex: perda de peso, controle da glicose, redução da gordura abdominal, controle da hipertensão e redução da ansiedade).

Os princípios, segundo o The Center for Mindful Eating:

1. Permitir a si mesmo tornar-se consciente das oportunidades positivas e carinhosas que estão disponíveis por meio da seleção e preparação dos alimentos, respeitando a sua própria sabedoria interior.
2. Usar todos os seus sentidos na escolha do que comer para que seja gratificante para você e nutritivo para o seu corpo.
3. Reconhecer respostas aos alimentos (gostos, desgostos ou neutro), sem julgamento.
4. Tornar-se consciente da fome e saciedade físicas para guiar suas decisões para começar e parar de comer.

Os 5 passos para praticar:

1. Respeite seu corpo e sua fome
2. Respeite suas vontades
3. Respire fundo várias vezes para voltar ao momento
4. Curta o momento. Preste atenção no momento em que você está comendo
5. Saboreie sem culpa: procure mais satisfação, mais prazer

Banquete de sentidos
Inspirado no mindful eating, em junção com a alta gastronomia, o mindFOODness propõe a todos buscar a alimentação consciente e explorar sua potencialidade de forma prazerosa

Mari Lemos/Divulgação
Desde o preparo do cardápio, a atenção e a criatividade devem ser minuciosas (foto: Mari Lemos/Divulgação)

Projeto criado por Bernardo Coelho, psicólogo clínico, instrutor de ioga e mindfulness e diretor do Instituto Mindfulness e Cia., o mindFOODness foi inspirado no mindful eating. É, segundo ele, a junção da alimentação consciente com a alta gastronomia. Ele realiza isso em um jantar que é uma experiência de sensações e gastronômica.

Em sua quinta edição, o mindFOODness será realizado no próximo sábado, com o preparo do menu pelo chef Renato Quintino. Serão seis pratos, harmonizados com uma taça de vinho. Bernardo Coelho fica responsável por conduzir e orientar os participantes sobre as técnicas de mindfulness (atenção plena), para que todos possam desfrutar do cardápio com prazer e de forma consciente.

Bernardo Coelho enfatiza que o mindFOODness é também uma celebração e divulgação do mindfulness “ao proporcionar um momento tão prazeroso, desmitificando a ideia comum de meditação como algo pouco acessível para a maioria das pessoas. Na realidade, esse estado e atitude de presença podem e devem ser praticados por qualquer pessoa que queira criar uma relação mais leve e harmoniosa com seus pensamentos e emoções, diminuindo, assim, o estresse e a reatividade. Sem falar que pode ser praticado a qualquer momento e em qualquer situação da vida.”

Com relação ao cardápio, Bernardo Coelho conta que a cada edição do MindFOODness o chef faz um menu todo novo e original. “Temos como tradição ser surpresa, o que aguça a curiosidade. Eu mesmo só fico sabendo no dia. O que posso dizer é que já fizemos uma versão vegetariana, mas esta edição não será.”

ANSIEDADE

A nutricionista Patrícia Coelho, especialista em mindful eating, formada na Bélgica por Jan Chozen Bays (médica e monja budista) e coordenadora do Instituto Mindfulness e Cia. enfatiza que, atualmente, nos deparamos com muita informação contraditória ou alarmante na mídia sobre alimentação e nutrição. Ela revela que é vasto o número de pessoas que a procuram no consultório, se apresentando confusas em relação a qual alimentação seguir. “Algumas apresentam até uma certa fobia em relação a determinados alimentos, outras não conseguem sequer desfrutar de uma refeição sem ao menos pensar se é ou não nutritivo e qual o valor calórico daquele prato etc. Ou seja, as pessoas estão perdendo o simples e singelo prazer de comer e até mesmo de desfrutar das relações de forma tranquila ao fazer uma refeição. Além disso, grande parte da população apresenta compulsão alimentar ou, como muitos me relatam, 'eu como por ansiedade!'.”

Bruna Lamas/Divulgação
Antes de degustar, pessoas são convidadas a se concentrar para voltar o foco somente para o prato (foto: Bruna Lamas/Divulgação)

A nutricionista explica que um dos intuitos do mindful eating ou alimentação consciente é “resgatar a sabedoria interna do corpo para nos direcionar a comer com prazer e consciência e estarmos atentos aos diferentes tipos de fome que temos e quais estratégias podemos utilizar em momentos de fragilidade (ansiedade, frustração, tristeza etc.), que não seja a comida. Podemos dizer que o mindful eating é a atenção plena ao se alimentar, mantendo a conexão com o momento presente e com os sentidos nas cores, texturas, aroma e sabor de cada alimento, bem como nossa real fome e necessidade. Esse estado de “presença” na alimentação é cultivado há milhares de anos nas tradições orientais e práticas budistas e, portanto, não é algo novo, de nossa atualidade”.

Serviço
» Evento: MindFOODness
» Dia: sábado (24)
» Local: Espaço Renato Quintino - Rua Cristina, 1.175, Bairro Santo Antônio
» Horário: das 19h30 às 23h
» Valor: R$ 200
» Informações e inscrições: (31) 98866-8002 (WhatsApp)

ANOTE AS DICAS

A nutricionista Patrícia Coelho, especialista em mindful eating e coordenadora do Instituto Mindfulness e Cia. recomenda:

1 -
Sempre coma bastante devagar. Precisamos de ao menos 20 minutos desde o início da refeição para a sensação de saciedade chegar ao cérebro

2 -
Elimine estímulos como celular, TV, revistas, computador etc., que tiram você de estar totalmente presente durante sua alimentação

3 -
Perceba em detalhes as cores, texturas da comida, os aromas, o sabor de cada item, se deliciando e mantendo os pensamentos apenas no que está ocorrendo no momento

4 - Entre uma garfada e outra, descanse os talheres. Respire. Aproveite.

5 - Evite todo tipo de julgamento e autocrítica ao comer. Gaste sua energia em aproveitar os sabores e a degustação em si da comida, de forma lenta e atenta

6 - Caso esteja se alimentando na companhia de outras pessoas, procure manter uma conversa agradável e sem conteúdos densos. Permita-se, inclusive, estar em silêncio. Isso alivia a ansiedade e pode ser capaz de criar intimidade ao apenas aproveitar a companhia do outro

7 - Esteja presente, sentindo seu corpo, sua respiração e as sensações ao comer. Não se distraia com muitos pensamentos que tragam preocupações nem tente resolver problemas durante a alimentação

Quase uma meditação

Para falar de mindful eating, Patrícia Coelho alerta que se deve primeiro entender sobre mindfulness. “O termo mindfulness é cada vez mais popular no mundo ocidental, por causa do sucesso de programas laicos (não-religiosos), como Mindfulness Based Stress Redution (MBSR), desenvolvido pelo pesquisador Jon Kabat-Zinn a partir de 1979, na Universidade de Massachussets, nos EUA. Foi um programa de medicina comportamental voltado para a redução de estresse, trabalhado com pacientes com dor crônica devida a diferentes problemas de saúde.”

Mari Lemos/Divulgação
A nutriconista Patrícia Coelho e o diretor do Instituto Mindfulness e Cia., Bernardo Coelho, explicam que programas foram inspirados em práticas budista e de ioga (foto: Mari Lemos/Divulgação)

A nutricionista diz que, apesar de seculares, esses programas foram desenvolvidos com inspiração em práticas budista e de ioga. “Por isso, muitas pessoas o consideram meditação ou o tratam como tal. No entanto, mindfulness pode ser entendido como uma atitude e um estado de presença que pode ser desenvolvido por meio de práticas ou técnicas de atenção plena utilizando a respiração ou o movimento do corpo como foco. Sendo assim, caracteriza-se pela consciência ou estado mental que surge ao se prestar atenção, de forma intencional, à experiência ou fenômeno presente, sem julgá-los ou reagir a eles.”

O certo é que o mindfulness pode se estender a tudo em nossa vida e significa estar atento e presente em cada atividade no dia a dia. “Daí o termo mind-ful eating, que já conta com programas reconhecidos mundialmente, como o da médica e monja budista Jan Chozen Bays, com quem tive o prazer de estudar na Bélgica, onde fiz minha formação como instrutora de mindful eating.” A nutricionista destaca que, diferentemente das tradicionais dietas, o mindful eating trabalha com o desenvolvimento da atitude de busca por um prazer sustentável, livre da culpa, mas com responsabilidade que só é possível se aprendermos a estar presentes e conscientes, inclusive dos vários tipos de fome que sentimos. Entre os resultados, baseados em pesquisas científicas, está a redução de compulsão alimentar, melhora da aceitação e satisfação com o próprio corpo, aumento da consciência alimentar e prazer ao comer.

ENVOLVIMENTO

Existem trabalhos apontando a perda de peso em pessoas que necessitam. No entanto, Patrícia Coelho ressalta a importância do envolvimento e do empenho ao adquirir o hábito das práticas de mindfulness e mindful eating, proporcionais ao ganho de seus benefícios. “Só você mesma pode fazer algo por você. Adquirir a consciência da autorresponsabilidade é algo que o mindful eating não deixa passar. O programa se dá por meio de encontros semanais em grupo (geralmente de oito semanas) onde se ensina a prática. Há, ainda, o formato intensivo de um fim de semana inteiro para quem não pode se comprometer ao longo de dois meses.” (LM)