Exame criado por cientistas acusa a existência de tumores de forma rápida e menos invasiva

Testes iniciais mostram que a abordagem tem melhor acuidade que a de métodos tradicionais

por Vilhena Soares 25/12/2017 14:27
Vargo/CB/D.A Press
(foto: Vargo/CB/D.A Press )

Uma das maiores vantagens na luta contra o câncer é o diagnóstico precoce da doença. Quanto mais cedo se sabe da existência dela, maiores as chances de cura. Em busca de diminuir o tempo de identificação de tumores, cientistas japoneses criaram um dispositivo que consegue sinalizar a ocorrência do problema pela urina dos pacientes. Os achados foram publicados na última edição da revista americana Science Translational Medicine e poderão resultar na criação de técnicas mais eficazes para a descoberta também de outras enfermidades.

Os autores do estudo explicam que a falta de um método que possa diagnosticar o câncer de forma mais rápida e eficiente ocorre porque ainda não existe uma maneira de detectar as vesículas extracelulares (EVs). Essas pequenas substâncias estão presentes em fluidos do corpo, como a urina, e têm micro RNAs, elementos que podem indicar a presença de problemas no organismo, incluindo os tumores.

“A análise de micro RNAs nas vesículas extracelulares de urina (EVs) é importante para a realização de diagnósticos de doenças de forma precoce, simples e não invasiva. No entanto, existe a dificuldade em analisá-las, e foi o que nos propomos a estudar nesse projeto”, conta Takao Yasui, professor do Departamento de Engenharia Biomolecular da Universidade de Nagoya, no Japão, e um dos autores do estudo.
Yasui e sua equipe criaram aparelho composto por uma rede de nanofios e uma série de fluidos. A interação da urina com os dois elementos permite a análise química e elétrica das moléculas. “O dispositivo consegue capturar microRNAs presentes na urina de forma eficiente, usando apenas a interação com os nanofios e seus fluidos. A estabilidade mecânica de ambos permite uma análise eletrostática que garante o sucesso da técnica”, explica Yasui.

Os pesquisadores testaram o método em amostras de urina de indivíduos saudáveis e de pacientes com tumor de pâncreas, fígado, bexiga ou próstata. O dispositivo identificou quantidades maiores de sequências de micro RNAs nos voluntários com câncer, se comparado a outros métodos de diagnóstico. “Além disso, usamos nossa metodologia para identificar micro RNAs urinários que poderiam potencialmente servir como biomarcadores não apenas para cânceres urológicos (bexiga e próstata), mas também para os não urológicos (pulmão, pâncreas e fígado)”, complementa o autor do estudo.

Desafios Andrey Soares, oncologista do Centro Paulista de Oncologia (CPO), explica que as vesículas extracelulares são liberadas por todas as células do corpo e têm como função fazer a comunicação entre elas. Têm proteínas e RNA, sendo que algumas pesquisas já sinalizam a presença de DNA nelas. Como estão presentes em qualquer fluido do corpo, fazer uma análise desse material pode facilitar processos médicos. “Por isso o interesse de analisar a urina, porque ela pode render um exame menos invasivo. Seria mais fácil do que uma análise sanguínea, em que você precisa fazer a coleta em um hospital, por exemplo”, compara.

O médico explica que identificar essas moléculas é um dos grandes desafios da oncologia e que, apesar dos resultados interessantes obtidos, é um método que precisa ser aprofundado. “A grande dificuldade é que essas moléculas são extremamente pequenas, menores que uma hemácia. É um problema que enfrentam outros métodos de análise, como a centrifugação”, diz.

A solução encontrada por Yasui e os colegas foi utilizar a seleção magnética, em que os nanofios tentam prender essas vesículas para que sejam avaliadas. “É uma análise que parece promissora, mas que ainda está longe de ser colocada em prática. É necessário um aprimoramento. Também temos que pensar no preço, que precisa ser acessível para que essa tecnologia possa ser usada dentro da oncologia”, opina.

Uso ampliado Segundo os autores, o trabalho é bastante inicial, e o objetivo do grupo, a longo prazo, é desenvolver uma forma de diagnóstico mais eficaz não só para tumores. “Acreditamos que esse método proporcionará uma base para nossos próximos passos, em que pensamos numa forma de conseguir diagnósticos precoces baseados em urina, além de exames mais apurados para outras enfermidades que são mais simples de ser detectadas. Começaremos a usar uma grande quantidade de amostras clínicas”, adianta Yasui.

Soares acredita que o trabalho dos cientistas japoneses também pode explorar um dos grandes objetivos buscados dentro da área oncológica, que é determinar de qual parte vem o tumor. “Para alguns tipos de câncer temos exames específicos, como o de mama e a mamografia. Mas, no caso de outros cancros, identificá-los é mais difícil. A grande intenção do futuro, acredito, é entender de que parte do corpo o problema veio e fazer isso de uma forma mais fácil”, destaca o especialista.

Antes dos sintomas

Ocorre no estágio pré-sintomático, antes de o paciente manifestar sintomas relacionados à doença. Inicialmente, especialistas pedem exames e testes laboratoriais quando há suspeita de existência de um tumor. Quando esses exames indicam alguma chance de a doença existir, é comum a solicitação de uma biópsia ou de um exame de determinado tecido do corpo para a comprovação.