Pesquisa com bactérias intestinais pode ajudar no combate ao câncer

Cientistas mostram que uma resposta melhor à imunoterapia está diretamente relacionada à microbiota mais rica. O resultado pode auxiliar no desenvolvimento de tratamentos mais eficientes no combate a tumores no pulmão e no rim, entre outros

por Vilhena Soares 08/11/2017 12:35

Reprodução/Internet/Geração Fit
(foto: Reprodução/Internet/Geração Fit)

A imunoterapia é uma das armas que mais têm sido usadas por especialistas no tratamento do câncer. Mas, apesar de muitos pacientes apresentarem melhoras com a estimulação do sistema imune, essa técnica mostra resultados distintos para cada indivíduo. Empenhados em decifrar o segredo dessa diferenciação, pesquisadores resolveram analisar o papel da microbiota nesse processo. Em duas análises, cientistas americanos e franceses constataram que pacientes com uma população rica de micro-organismos intestinais tiveram maior recuperação e diminuição da progressão da doença com o uso da terapia. A descoberta reforça suspeitas anteriores de que a microbiota funcione como uma ferramenta auxiliar ao sistema imune. Divulgados em dois artigos publicados na revista Science, os resultados podem auxiliar em tratamentos oncológicos mais eficientes no futuro.

No primeiro estudo, os cientistas analisaram pacientes que passaram por tratamentos imunoterápicos para tratar tumores de pulmão ou rim. Os indivíduos foram submetidos à imunoterapia com inibidores de PD-1, que ativa o sistema imunológico para atacar os tumores. Os investigadores observaram que os doentes que haviam tomado previamente antibióticos, para cuidar de infecções urinárias ou dentárias tiveram uma sobrevida reduzida quando comparados com aqueles que não estavam sendo tratados com antibióticos (o medicamento reduz a diversidade da microbiota).

 

“A análise dos micróbios intestinais dos pacientes revelou que uma abundância da bactéria Akkermansia muciniphila estava associada a um resultado clínico melhor. A espécie foi detectável em 69% dos pacientes com resposta parcial e em 58% dos que apresentaram estabilidade da doença. Porém, foi vista apenas em 34% dos pacientes que não responderam à terapia”, ressalta a conclusão do estudo, liderado por Bertrand Routy, pesquisador do Instituto de Câncer Gustave Roussy, na França.

No segundo trabalho, os pesquisadores coletaram e analisaram amostras da microbiota de pacientes com melanoma avançado, que também foram tratados com inibidores de PD-1. Os indivíduos que apresentaram uma grande quantidade de bactérias Faecalibacterium e Clostridiales em suas microbiotas responderam melhor ao tratamento e tiveram maior sobrevida.

Para conferir maior validade aos achados, os investigadores transplantaram as bactérias dos pacientes que responderam melhor ao tratamento em ratos com câncer. Os roedores também foram tratados com inibidores da PD-1. O procedimento rendeu resultados semelhantes aos observados em humanos, com uma melhora considerável dos animais. “Nossos estudos em pacientes e a pesquisa subsequente com ratos realmente nos conduzem à conclusão de que nossas microbiotas intestinais modulam a imunidade sistêmica e antitumoral”, declarou, em comunicado à imprensa, Jennifer Wargo, uma das autoras do estudo e professora-associada na Universidade do Texas, nos Estados Unidos.

 

Alterações

 

Os pesquisadores acreditam que os resultados devem se converter em tratamentos mais eficazes para o câncer por meio da imunoterapia, já que a microbiota é um sistema que pode ser alterado. “Você pode mudar a sua microbiota, realmente não é tão difícil. Por isso, defendemos que essas descobertas abrem novas oportunidades”, explicou Wargo. “Pesquisas nos mostram que a microbiota de um indivíduo é um fator de risco modificável, por meio da dieta, exercício, uso de antibióticos ou probióticos”, complementou Vancheswaran Gopalakrishnan, também autor do estudo e pesquisador da Universidade do Texas.

Cláudia Ottaiano, oncologista e especialista em tumores gastrointestinais do Centro de Oncologia do Hospital Santa Lúcia, em Brasília, assinala que as investigações internacionais seguem uma linha de pesquisa que é cada dia mais explorada dentro da área oncológica. “Antigamente, focávamos no tumor, suas características eram o alvo. Mas, agora, pensamos no hospedeiro, como o sistema imune do paciente vai reagir a doença. Esse estudo mostra como a microbiota pode evitar que ocorra um ‘esfriamento’ do sistema imunológico, como as bactérias estimulam o sistema de defesa para que ele possa combater o câncer”, ressaltou a especialista que não participou do estudo.

A médica ressalta que outras pesquisas são necessárias para que terapias voltadas à estimulação da microbiota possam ser consideradas na área oncológica. “É um campo vasto de pesquisa, que ainda precisa ser explorado mais, para que saibamos quais são os mecanismos de imunomodulação envolvidos, como, por exemplo, quais as bactérias responsáveis, se o uso de probióticos seria o indicado. Ainda existem muitas dúvidas”, complementou.

 

Para Eduardo Vissotto, oncologista clínico e membro da Sociedade Brasileira de Oncologia (SBO), os estudos internacionais também reforçam uma necessidade abordada de forma recorrente por especialistas da área de saúde: conter o uso exagerado de antibióticos. “Esses dados mostram como o uso desses medicamentos pode interferir no tratamento, já que ele diminui a população da microbiota e é utilizado de forma recorrente por pacientes com câncer, pois eles sofrem bastante com infecções”, ressaltou. “O alerta para o uso mais consciente de antibióticos também vale para toda a população, pois esses medicamentos acabam perdendo o poder de combate devido ao abuso na sua utilização, é algo que já reforçamos na área médica e que merece ser frisado sempre”, complementou.

Da mesma forma, Cláudia Ottaiano enfatizou a importância de maior cuidado com o uso dos medicamentos. “Já temos a recomendação de reduzir o uso de antibióticos no paciente com câncer, o que se encaminha para uma possível restrição, por causa da redução das bactérias intestinais. Ainda precisamos entender melhor essa relação, mas, cada vez mais, o oncologista tem se preocupado com a microbiota do paciente”, reforçou a especialista.

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