Conheça a história de pessoas que souberam envelhecer e saborear cada momento da vida

por Valéria Mendes 01/01/2017 10:00

Jair Amaral/EM/D.A Press
Com cinco filhos e dois netos, Maria de Lourdes, de 74 anos, é dançarina de flamenco e faz faculdade da terceira idade (foto: Jair Amaral/EM/D.A Press)

“A minha casa tem cheiro de pão de queijo quentinho saindo do forno. É igual casa de vó mesmo. Mas não tenho nada a ver com as avós de 1920 que passavam o dia fazendo crochê.” E foi assim que Maria de Lourdes, de 74 anos, recebeu a equipe do Estado de Minas em seu apartamento na região Leste de Belo Horizonte. Mesa posta com suco natural de manga, café fresquinho – sem deixar faltar a iguaria mineira mais celebrada – e boa conversa. “Peito no céu” é a frase que ela tem gravada em seu corpo de dançarina avançada de flamenco, de tanto ouvir a recomendação da professora. Postura de dar inveja, o grande orgulho dessa mulher é a sua família, seus cinco filhos – três mulheres e dois homens – e seus netos Nathalia, de 22, Yuri, de 11, e Andrei, de 7.

Ela, que antes de se aposentar aos 62 anos, foi professora de educação física e auxiliar de biblioteca, acumulando dois cargos públicos no Estado, olha para trás e se sente grata de ter conseguido com o marido, o auxiliar administrativo Antônio de Castro Lamego, falecido em 2002, dar o suporte necessário para que cada um dos filhos do casal “fosse bem-sucedido e reconhecido em suas profissões”, palavras da mulher que riscou muito salão com seu salto alto ao lado do companheiro de décadas.

Quando Antônio se foi, Maria de Lourdes precisou de um tempo para achar graça novamente na vida. Apesar de se sentir disposta e bem fisicamente, inclusive para regressar ao ambiente profissional, ela acha “injusto com a juventude ocupar um posto de trabalho em época de desemprego”. Por isso, está matriculada, desde 2009, em uma Faculdade de Terceira Idade, com aulas às segundas, quartas e sextas-feiras. Mas ainda sente falta do que fazer. “Tenho muita disposição”, diz enquanto enumera algumas das 30 disciplinas em que está matriculada: cinema, história da arte, tai chi chuan, aerodance, dança livre, espanhol e inglês, direito do consumidor, culinária...

Maria de Lourdes se diz agitada e conta que faz o almoço com computador e televisão ligados, “para não perder nenhuma notícia importante” e acompanhar os posts no Instagram enquanto responde às mensagens que não param de chegar no grupo ‘Friends’, do WhatsApp. São as companheiras de flamenco que compõem o Bell’Art Grupo de Dança: 20 dançarinas, “a mais nova de 61 anos e a mais velha de 78”, conta. Essas mulheres têm mostrado seu talento em espetáculos em locais de Belo Horizonte e, também, em cidades perto, como Lagoa Santa.

ESTILO SAUDÁVEL A mãe de Juliana, Cristiano, Maria Cristina, Luciano e Daniela diz que a primeira vez que pensou sobre envelhecimento tinha 40 anos. “Lembro da sensação, de me assustar com o passar do tempo”, relata. Mas a tal da terceira idade chegou e ela diz que não tem nada do quê reclamar. “Tenho um estilo de vida saudável, sempre pratiquei atividade física, me alimentei bem, não fumei e nem socialmente eu bebo. Só tenho a agradecer de chegar a essa idade com a disposição que eu sinto.”

Animação grande. Generosidade idem. Ela também faz artesanato, toca teclado, dirige pra todo lado e cuida dos netos “com todo o amor do mundo” sempre que é preciso, inclusive quando a caçula, Daniela, precisa que a mãe fique com Andrei para que ela vá ao estádio ver o Galo jogar. Maria de Lourdes é apaixonada pelo Cruzeiro. Mas ela já entendeu que paixão por um time de futebol não é coisa que se discuta. A gente aceita e pronto.

Maria de Lourdes não tem namorado e “casar está fora de cogitação”. “Até já apareceram candidatos, mas nenhum que valesse a pena”. Ao seu lado nos salões, ela teve um amigo que foi seu parceiro por muito tempo. Alfredo de Paula Neves que, segundo ela, decidiu, aos 98, que iria para uma casa de repouso porque já não estava gostando mais de viver sozinho. Os dois não dividem mais os “palcos” porque ele já faleceu. Esse talvez seja um aspecto difícil dessa fase da vida: se despedir de tanta gente querida.
O segredo da senhora de 74 anos para uma terceira idade de alegrias? Ela resume assim: “Sou mais feliz hoje, com meus filhos criados, do que antes. Meu conselho para viver bem é conviver com pessoas da mesma idade e não ficar em casa sozinho”, diz.

Coragem de mudar

O representante comercial Jorge Antonio da Silva, de 80 anos, é exemplo de como é possível mudar o rumo da vida em qualquer idade. Por 30 anos trabalhando em uma mesma empresa, ele já não se sentia mais feliz. Quando conversou com a filha, Jane Rocha, que é gerente de recursos humanos, sobre a vontade de mudar de empresa, ela confessa que ficou um pouco apreensiva. “Embora eu o tivesse incentivado, fiquei receosa em razão de o mercado não estar aberto às pessoas mais velhas. Meu pai trabalhou em poucos lugares na vida e trocar de emprego não é algo comum nessa idade”, revela.

Pai e filha começaram então pelo currículo, com referências de clientes de Jorge, que sempre trabalhou no segmento de autopeças, e ele foi selecionado. “Sempre fui vendedor, desde criança. Com 5 anos já ajudava meu pai a vender café”, recorda-se.
Jorge diz que construiu sua trajetória profissional em cima de sacrifícios e aprendizado. “Eu achava que o quê iria me tirar da praça seria a idade, mas hoje acredito que é a comunicação”, diz.

O representante comercial afirma que, com a tecnologia, as formas de comunicação entre vendedor e cliente mudaram muito e continuam mudando “o tempo todo e a toda hora”. “Como representante comercial, tenho que entrar no esquema do cliente. Se é site, tenho que dominar essa linguagem. Se é WhatsApp, tenho que saber como a ferramenta funciona”, exemplifica.

A verdade é que Jorge tem superado essa, talvez, dificuldade, com muita tranquilidade. Se não sabe, pergunta. “Ninguém nunca me negou ajuda. Tenho muita facilidade em pedir auxílio”, conta. Pai de quatro filhos e avô de cinco netos, ele é casado há 50 anos com Matildes Fidencia Silva, de 76.

Para Jorge, ele tem sorte de gostar do que faz. “Retorno com muita alegria e satisfação para casa”, revela. Ele e esposa fazem caminhada por 40 minutos de segunda a sexta-feira e 20 minutos de ginástica. “Minha academia é ao ar livre”, fala. A saúde do representante comercial é tão boa que o plano de saúde que ele contratou o tem como exemplo de envelhecimento com saúde e uma enfermeira faz um acompanhamento mensal, que ele define como “sabatina”, do seu quadro geral de saúde. Para ele, o segredo para viver bem é simples: “gostar de si mesmo”.

O papel da mulher
Rodrigo Clemente/EM/D.A Press
Graduada no ano passado em direito, Martha Barreto de Lucena, de 89 anos, já fez planos para 2017: estudar para ser aprovada na OAB (foto: Rodrigo Clemente/EM/D.A Press )


 

Martha Barreto de Lucena já tem 11 bisnetos. Aos 89 anos, realizou o sonho antigo, da época de menina, de concluir a graduação em direito. A colação de grau está marcada para março do ano que vem e a futura bacharel já fez os planos para 2017: estudar para ser aprovada na OAB.

Mãe de sete filhos, Martha foi casada com um médico renomado de Belo Horizonte que, como outros homens de sua época, não via com bons olhos a mulher no mercado de trabalho. “Fazer faculdade, na minha época, não podia nem pensar. Quem fazia, era mal vista”, relata.

Já casada e com filhos, quando a graduação em jornalismo não era uma exigência para trabalhar na imprensa, Martha foi ser repórter do Diário de Minas. Na redação do jornal, só três mulheres estavam na equipe. Nessa época, além das reportagens, ela também escrevia suas crônicas e publicava no impresso. Mas essa atuação profissional, que tanto a motivava e estimulava, durou apenas três anos. “Meu marido se sentia envergonhado pelo fato de sua mulher trabalhar fora. Naquele tempo, os homens, de um modo geral, gostavam das mulheres dentro de casa. Trabalhar fora era um escândalo”, conta.

Mãe de sete filhos, Martha ficou viúva aos 42 anos. Ela não se lembra o ano da morte de Alberto Deldato Maio Barreto e brinca que “a memória boa, apesar de tudo, já não é brilhante”. Depois que o companheiro faleceu, ela pensou em fazer turismo, os planos não deram certo “com a filharada toda em casa”, mas mais tarde teve a “oportunidade de trabalhar em uma firma”. Em 1950, se formou em ciências contábeis, mas não exerceu a profissão. “Depois disso fiquei fazendo pequenos cursos de terceira idade, mas cheguei num ponto que percebi que a memória vai ficando ruim e eu precisava exercitá-la”, diz. E foi então que, com 83, resolveu fazer direito. “Gosto de estudar, o curso era um desejo de mocinha”, revela.

Em 19 de novembro de 2016, Martha celebrou outra conquista, a publicação de seu primeiro livro Vou atravessar o arco-da-velha (Linear B Editora) que reúne textos, crônicas e poesias “de uma vida inteira”. Detalhe que os exemplares se esgotaram no dia do lançamento com a presença de tanta gente, colegas de faculdade, amigos de longa data, professores, parentes e conhecidos. “Eu escrevo porque preciso”, diz. Foram as filhas jornalistas de Martha que viram o potencial do material que ela tinha guardado. “Elas foram rever as coisas que escrevi e acharam que estava muito bom para publicar. São reflexões sobre a vida”, resume.


Martha hoje mora sozinha em um apartamento pequeno na Região Sul de Belo Horizonte e, como gosta muito ler, nunca se sente sem o que fazer. Fora isso, desde que acabaram as aulas no curso de direito, ela diz que “passa o tempo vendo a novela do STF. Não estou entendendo esse Brasil de jeito nenhum e fico tentando me aprofundar no que está acontecendo”, diz.

A escritora agradece pela saúde “nessa altura da vida” e pretende retomar a atividade física em 2017. “Pratiquei natação e musculação até um ano e pouco atrás, mas a faculdade era muito apertada e precisei parar. Vou ao ortopedista para saber se está tudo certinho e retomarei uma ginástica mais branda”, planeja.

Euler Júnior/EM/D.A Press
O Sesc em Minas tem uma equipe de vôlei voltada para pessoas da terceira idade; Lúcia Torres Vaz de Mello, de 81 anos, é levantadora de vôlei, adora viajar e já conheceu diversos países (foto: Euler Júnior/EM/D.A Press )

Independência

Um desafio na relação entre os idosos e suas famílias é o limite entre o cuidado dos filhos e filhas e o direito de decisão dos pais e das mães sobre a própria vida. Lucia Torres Vaz de Mello, de 81 anos, tem uma receita interessante para driblar a tentativa de controle das quatro filhas, Patrícia, Simone, Vanessa e Andreia. Na casa dela, que mora sozinha, Lucia não tem empregada e cuida de tudo. “As minhas filhas não querem que eu suba escada e eu não brigo com as ordens delas. Eu assinto, digo “sim senhora”, mas se eu tiver que subir escada para limpar janela, limpar o teto, eu subo. Por enquanto, não estou obedecendo não”, brinca.

Há 17 anos, ela perdeu o marido, Haroldo Ferreira Vaz de Mello, e esse foi o episódio mais difícil de sua trajetória até aqui. “Nos dois primeiros anos eu achava que não ia dar conta, chorei demais da conta. Fui casada durante 42 anos com um homem maravilhoso, mas o tempo é um bom remédio. Só com o tempo para gente dar conta.”

A levantadora de vôlei do time do Sesc também adora viajar e passar tempo com os sete netos e os dois bisnetos – tem um terceiro a caminho. “Viajo sozinha sem problema nenhum. No Brasil, só não conheço o Acre. Já fui ao Chile, Bolívia, Paraguai, Uruguai, Europa, Estados Unidos. De sexta-feira a domingo, meu neto caçula, o Bruno, fica comigo. Não fui aquela avó que cuida dos netos para as mães trabalharem, isso prende muito a gente em horários rígidos. Mas sou daquelas que fica com o maior prazer sempre que alguém precisa”, diz.

Quando fez 80 anos, Lucia realizou a vontade de dar uma grande festa para retribuir todos os convites que recebeu ao longa da vida. “Paguei tudo sozinha. Enquanto tiver meu dinheiro não quero ajuda de filha. Foi uma festa muito boa, muito bonita. Convidei os parentes, os colegas do vôlei do Sesc e tinha essa vontade de fazer uma festa para convidar todo mundo que já me convidou para alguma comemoração. E assim eu fiz.”

Católica praticante, Lucia acredita que nascemos com uma missão. “Uma coisa muito boa que fiz na minha vida é ter sido voluntária em casas de repouso. Foram 12 anos visitando idosos e idosas. A gente ia para cortar o cabelo dos idosos, fazer as unhas dos pés e das mãos, contar histórias, cantar. Sempre fiz com o maior carinho”, conta.

Sem vergonha de envelhecer

A música levou Maria das Mercês Miranda de Freitas, de 77 anos, a reviver tempos de outrora e a encontrar novas possibilidades de ser feliz. Ela conta que, nos seus tempos de ginásio, em Barbacena, estudou música e queria seguir a carreira de cantora. Mas preferiu acatar a vontade do noivo e se casar, abrindo mão em nome da constituição da família. Assim, ela criou os quatro filhos, seu maior orgulho hoje, e, em 2013, veio com a família para a capital. Depois de passar por período difícil, de solidão, com a morte do marido, em 2014, no início deste ano foi convidada a fazer parte de um coral, ao que aceitou prontamente.

“Comecei em maio, em uma turma já formada no início do ano e confesso que tive receio de não ser bem-aceita. Mas fui tão bem recebida que me senti em casa, com todos me apoiando. Assim, toda quinta-feira (dia de ensaio) para mim é uma festa”, diz Mercês, que se classifica como soprano, no grupo de cerca de 40 pessoas. “Antes, vivia só para a igreja e a família. Agora, estou novamente encantada com a música”, afirma, acrescentando que nunca teve medo de envelhecer. “O medo que tinha era de ficar sentada na frente da TV ou tecendo. E falei para mim mesma que nunca ia ser assim. A gente não deve ter vergonha de envelhecer e nem de fazer o que gosta. Se a saúde permite, podemos fazer de tudo. Cheguei aonde cheguei, forte e com disposição, e sou muito feliz por isso.”



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