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2016 não está sendo fácil, mas festas de fim de ano podem resgatar sentido de união

A economia instável deixou as pessoas inseguras, a polarização política criou desavenças, o clima pesou. O fim do ano que se aproxima é uma oportunidade para repensar nossas atitudes, sentimentos e posturas

Gustavo Perucci
- Foto: Lelis / EM / D.A Press
Pode perguntar para qualquer um que a resposta, provavelmente, será a mesma: 2016, como entoou a cantora Kátia nos anos 1980 em sua mais famosa canção, não está sendo fácil. Crise é a palavra do momento. Impeachment, polarização política, economia em frangalhos, desemprego em alta, falta de perspectivas, muita discussão nas redes sociais... Bons motivos para qualquer um perder a cabeça. Diante do turbilhão de acontecimentos que geram tanta animosidade entre pessoas próximas, o Natal que se anuncia talvez seja a perfeita oportunidade de deixar as rusgas de lado e refletir sobre as atitudes e posturas pessoais.

Mas a comemoração do nascimento de Jesus Cristo, que simboliza, no ponto de vista católico, a esperança, vem perdendo lugar para o prazeroso, porém, fugaz, consumismo. Por mais simpática que possa ser, a figura do Papai Noel altera nossa relação com a data, enfatizando mais a troca de presentes do que a união e reflexão. E o pior: essa lógica invertida ganha força a cada geração.

E em um ano em que muitas pessoas perderam poder aquisitivo ou até mesmo o emprego, essa obrigação de presentear filhos, parentes, amigos e até colegas de trabalho é mais um peso sobre os ombros.
Mas não se assuste. Ninguém está falando de deixar os presentes de lado.

“Trocar presentes é um ato de afeto, uma demonstração de carinho. Mas as crianças cresceram, a família aumentou e começou a ficar muito caro presentear todo mundo. Aí sugeri o amigo-secreto para os dois lados da família, a minha e a do meu marido”, conta a artesã e professora aposentada Rosângela Alves, que há anos é adepta da tradicional brincadeira de troca de presentes. Até no 'núcleo duro' de sua família (ela, marido, duas filhas e seus respectivos maridos) o Natal é na base do amigo-oculto. Além de economizar e respeitar o orçamento, a artesã relata que o momento da dinâmica é divertido e une ainda mais os parentes.

Mesmo que nos afastemos a cada dia do real sentido do Natal, o fim do ano geralmente mexe com as pessoas de maneira única. “Ficamos mais sensíveis nessa época do ano, mais sensíveis ao outro, mais dispostos a perdoar. Mas o ideal é trabalhar esses sentimentos durante todo o ano, e não só no Natal. São valores que devemos levar para a vida toda”, analisa a psicanalista e psicopedagoga Cristina Silveira.

Que tal, então, aproveitar esse momento de sentimentos tão bons como união, esperança, amor, desapego e, como tanto insistiu o homenageado na data, perdão para se aproximar do verdadeiro espírito do Natal, deixando para trás um ano que, aos trancos e barrancos, mexeu com todo mundo? Ainda dá tempo. Afinal, estamos a 35 dias da data. O Bem Viver foi atrás de especialistas em diversas áreas para tentar dar um empurrãozinho nessa reflexão, além de, é claro, listar algumas dicas de como economizar nos presentes.

A professora Rosângela Alves propôs há alguns anos a brincadeira do amigo-secreto para o Natal de sua família e do marido, como forma de economizar sem deixar de presentear as pessoas - Foto: Edésio Ferreira/EM/D.A Press

Tempo de compartilhar  afeto e esperança

Festas de fim de ano podem resgatar sentido de união e ser celebradas de forma simples, com presentes mais em conta, porém, cheias de significados entre familiares e amigos

Amigo-oculto no Natal não é novidade para a artesã Rosângela Alves, que sempre valorizou mais o momento de confraternização em família, tão raro nos dias corridos como os atuais. Além da economia com o volume de presentes, a brincadeira proporciona interação e diversão entre os parentes e até lições de compreensão, respeito e amor ao próximo. A experiência em seus dois núcleos familiares demonstra bem isso.

A proposta era o amigo-oculto sem sorteio, em que cada um leva um presente genérico no valor determinado.
Depois, números são sorteados e, seguindo a ordem do sorteio, a pessoa escolhe aleatoriamente um dos presentes. O seguinte tem o direito de pegar um novo embrulho ou roubar o que os participantes anteriores abriram. O objetivo do jogo é interagir e se divertir, sem importar a qualidade ou preço da lembrança.

“Na família do meu marido sempre dá certo. Uns levam presentes melhores, outros piores. Mas o importante é que todo mundo brinca. Às vezes, definimos um valor, mas quem não pode acaba levando algo mais barato. Mesmo aqueles que levam presente acima do valor entram na brincadeira. Todos entendem a situação do outro, sem esquentar a cabeça com valor. Mas, na minha família, isso não deu certo. Na minha casa, umas pessoas queriam levar vantagem, escolhendo o melhor presente.
Mas, geralmente, ficavam com o pior. Aí dava cada confusão... Então, desistimos. Passamos a fazer o amigo-secreto sem sorteio um ano e, no outro, a brincadeira tradicional”, relata Rosângela.

É justamente no desapego material, na valorização dos relacionamentos e no respeito ao próximo que o espírito de Natal se manifesta. Mesmo para quem não se identifica com o sentido religioso da comemoração. Não que trocar presentes seja um problema. Um dos sentidos da data é compartilhar. Pode ser lembrança, carinho, alimento. A inversão da lógica, porém, ocorre quando um objeto de desejo ganha mais importância que a confraternização e união entre parentes e amigos.

A professora Rosângela Alves propôs há alguns anos a brincadeira do amigo-secreto para o Natal de sua família e do marido, como forma de economizar sem deixar de presentear as pessoas - Foto: Edésio Ferreira/EM/D.A Press“O Natal é um momento de alegria do tempo cristão e de esperança também, porque diz do nascimento do Salvador, daquele que traz a boa- nova, a esperança. Daquele que traz a mensagem de amor para as pessoas, da solidariedade, de olhar para o lado, de um momento de descentramento, digamos assim. A questão do presente, de poder estar junto, de compartilhar um alimento, acho interessante, bacana. Agora, quando o Natal se volta exclusivamente a essa questão de comprar um presente sem a reflexão religiosa de fundo, se torna uma outra coisa que não uma festa religiosa”, analisa Rodrigo Coppe Caldeira, professor da pós-graduação em ciência da religião da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas).

COMPREENSÃO DAS DIFERENÇAS
Em uma sociedade em que vivemos cada vez mais autocentrados, com tantas certezas e poucas dúvidas, um chamado à reflexão e à compreensão das diferenças é necessário. Ainda mais em tempos tão conturbados politicamente. “É um momento de relativizar esse eu e se colocar em uma relação mais verdadeira com o próximo. A imagem de um Deus que nasce criança, pobre, é muito forte no imaginário das pessoas. É um Deus que é forte quando se manifesta na fragilidade de uma criança. Essa imagem tem essa capacidade de união, de que Deus se encarna para nos trazer esperança, nos mostrar que o que vale é o amor para além das outras coisas. Agora, se causa efeitos positivos ou negativos, é outra história”, completa Rodrigo.

A psicóloga junguiana Olinta Fraga acredita que a época é propícia à reflexão, participando ou não de uma religião institucionalizada. Para ela, necessitamos de um simbolismo que renove nossas esperanças, por isso a mobilização que o Natal gera nas pessoas. “Infelizmente, hoje são poucos os que realizam um ritual comemorativo nesse sentido. Acredito que a limitação econômica possa ser um ensejo para repensar o modo de realizar esse momento. Às novas gerações foi transmitido o consumismo, muito pouco do sagrado. Isso é uma crueldade para com nossas crianças, pois a vida simbólica é necessária para nos organizarmos emocionalmente. Precisamos de momentos rituais, onde busquemos o transcendente, ou seja, algo mais além do que os nossos olhos possam ver. É isso que, de fato, nos alimenta”, analisa.

Quanto mais nos afastamos do sentido espiritual do Natal, mais peso ganha o ato de presentear. Supervalorizar o material em detrimento da confraternização afasta as pessoas e constrange quem tem menor capacidade financeira. Por isso a importância da compreensão com o outro, do entendimento de diferentes realidades. Se estiver difícil comprar lembranças para parentes e amigos este ano, aproveite e faça uma reflexão. Mesmo para quem é afastado da religião, os valores humanos que dão significado à data continuam atuais e, principalmente, necessário. Inclusive para as gerações que estão por vir.

“Sugiro que aproveitem o momento para mudar de rumo, educando mais os jovens. Podemos e devemos realizar uma festa simples e inclusiva, com valores reais, onde todos os membros da família participem na preparação do evento. Se deseja manter o presente, este pode ser confeccionado por cada um, e acolhido com afetividade, sem comparações, e/ou, simplesmente, que cada um escreva algo para o outro. Outra sugestão seria que cada um tirasse algo do seu armário para doar e, nos dias seguintes, os mais jovens fizessem a doação. Pode-se pensar em realizar uma noite de magia, com muitas histórias, rodas com cantigas e outras brincadeiras, etc., e sempre iniciando ou finalizando com um ritual introspectivo, com temas como solidariedade e respeito, deixando que todos expressem algo, inclusive as crianças. O importante é retomar o sentido do Natal”, recomenda a psicanalista Olinta Fraga.

SENTIMENTOS PARA TODA A VIDA
Somos seres de costumes e rituais. Vivemos de símbolos. Mas os sentimentos despertados na época do Natal são valores que deveríamos aplicar durante toda a nossa vida. Parece que conseguimos ligar e desligar esses sentidos. Da abertura a um momento de união e confraternização nos fechamos rapidamente em nossos próprios umbigos. Mas em um ano tão difícil, talvez seja proveitoso compreender o chamado à reflexão como algo necessário sempre. “O símbolo tem poder psíquico real. E seria saudável cultivá-lo para alimentar os nossos corações. Você pode cultivá-lo diante de uma imagem ou num parque, entre as árvores e pássaros, vendo o sagrado na natureza. É momento de balanço, de autoacolhimento, de aceitar a nossa limitação para entender o movimento da vida. Uma passividade dinâmica! O momento sugere reflexão e perdão. Perdoar é reconhecer o outro como igual na falibilidade e nas potencialidades. Você perdoando, fará bem ao outro, mas muito mais por você. Aproveite o momento, saia da ‘onda difícil’ e abra o seu coração às relações. A felicidade está nestes bons momentos de convivência alegre, amorosa, autêntica! Dessa forma, o Natal será contínuo em nossas vidas”, sugere a psicanalista Olinta Fraga..