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Excesso de peso na adolescência é fator de risco para doenças do fígado na meia idade

Quem chega ao fim da adolescência com sobrepeso tem 64% a mais de risco de complicações hepáticas na meia-idade. Segundo especialistas, os estragos provocados são equivalentes aos do excesso de álcool

Isabela de Oliveira
A doença hepática causada pelo excesso de peso é parecida com a provocada pelo álcool, inclusive com relação ao longo tempo de instalação - Foto: YOSHIKAZU TSUNOApós investigar quase 45 mil indivíduos ao longo de duas décadas, pesquisadores do Instituto Karolinska, na Suécia, concluíram que o sobrepeso no fim da adolescência é um fator de risco significativo para o diagnóstico de doenças graves no fígado na meia-idade.
Os resultados, publicados hoje no Journal of Hepatology, mostram que o excesso de peso na juventude funciona como um marcador para o desenvolvimento de doenças hepáticas que progridem silenciosamente no decorrer dos anos e podem se tornar potencialmente fatais.

Em adultos, a obesidade é associada ao risco aumentado de morte e hospitalizações causadas por complicações no fígado, sobretudo doença hepática gordurosa não alcoólica (DHGNA) e câncer. Pacientes muito acima do peso também têm pior prognóstico de esteatose hepática, hepatites B e C e doença hepática alcoólica. Para entender melhor essa relação, Hannes Hagström, principal autor do estudo, investigou registros de 44.248 suecos recrutados para o serviço militar no fim da adolescência, entre 1969 e 1970.

Desses, quase 3 mil (6,6%) estavam acima do peso, com índice de massa corporal (IMC) superior a 25. A obesidade — determinada pelo IMC acima de 30 — afetava 352 (0,8%) dos militares. Após quase 20 anos, 393 homens foram diagnosticados com doença hepática grave, dos quais 352 eram obesos. Segundo os cientistas, o sobrepeso e a obesidade aumentaram em 64% o risco para doenças no fígado, ou seja, cada kg/m² a mais no IMC representava 5% a mais de chances de surgimento de DHGNA e cirrose.

“É possível que esse risco aumentado seja causado por uma exposição mais longa ao excesso de peso, em comparação com o excesso de peso ou a obesidade adquiridos mais tarde na vida. Essa suposição pode ter implicações no tratamento de pacientes com DHGNA”, cogita o autor.
Suposição considerada credível por Cristiane Moulin, endocrinologista especializada em obesidade pela Universidade de São Paulo (USP). Segundo ela, muitos estudos apontam que a obesidade na adolescência é um fator predisponente para a persistência do problema na vida adulta. “O que esse estudo mostra é que o que fazemos na infância e na adolescência tem um impacto importante na vida adulta. Por isso, políticas de combate ao excesso de peso devem ser efetivadas”, diz Moulin, que é membro da Associação Brasileira para Estudo da Obesidade (Abeso).

Clique na imagem para ampliá-la e saiba mais - Foto: Valdo Virgo e Lucas Pacífico / CB / D.A Press
Pior para os homens
Raymundo Paraná, coordenador do Núcleo de Hepatologia do Hospital Universitário da Universidade Federal da Bahia (UFBA), explica que a doença hepática causada pelo excesso de peso é parecida com a provocada pelo álcool, inclusive com relação ao longo tempo de instalação. “É importante mostrar que não precisa ser obeso, basta ter sobrepeso”, alerta o ex-presidente da Sociedade Brasileira de Hepatologia (SBH). Homens, explica o médico, parecem ser especialmente suscetíveis ao mal por possuírem um padrão de obesidade concentrado no abdômen.

“A gordura central causa perturbações metabólicas e inflamatórias, atraindo os macrófagos que produzem fatores químicos como respostas a infecções e inflamações. Esse processo é continuado e gera danos ao organismo”, detalha Paraná. Além disso, a gordura central gera resistência à insulina, fazendo com que o indivíduo produza a substância em maior quantidade. O hormônio, no entanto, tem dificuldade para agir. “A insulina é a chave e a célula, a fechadura. Essa combinação permite que a glicose entre. Acontece que, em pessoas com resistência, a insulina é uma chave truncada. Não funciona”, diz o especialista.

Como resposta, o corpo produz mais insulina, o que gera um círculo vicioso: mais depósitos de gordura no pescoço e no abdômen, que produz mais o hormônio.
“Além disso, essa gordura secreta toxinas pró-inflamatórias que enviam ácidos graxos livres ao fígado, mas muito acima da capacidade que ele aguenta processar. Então, por não conseguir exportar esse excesso, ele guarda”, diz Paraná.

Esse reservatório, completa o médico, é o que gera a esteatose hepática, o acúmulo de gordura nas células do fígado, uma complicação assintomática que acomete quase todo indivíduo acima do peso e 100% dos obesos. “Nem todos adoecem: até 15% dos obesos ficam doentes e, por enquanto, não existem marcadores específicos para avaliar quem têm risco. Por isso, o melhor é alertar todos que têm problemas com o peso, e desde jovens. Esse estudo é interessante por isso”, avalia Paraná. A endocrinologista Cristiane Moulin completa que, se repetida hoje, a pesquisa sueca poderia oferecer resultados piores. “Ao contrário de 1970, os jovens de agora são mais sedentários e se alimentam pior, e isso também deve ser levado em consideração”.

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Em 2014, pesquisadores da Universidade de Pelotas, no Rio Grande do Sul, estimaram que as doenças do fígado são a oitava causa de morte no Brasil. Entre 2001 e 2010, 853.571 pessoas foram hospitalizadas em decorrência delas (0,72%) e 308.290 morreram (3,34%). A idade média dos internados e mortos era 48 e 58 anos, respectivamente. A cirrose era a principal causa das admissões e óbitos.
A maioria das internações foi registrada na Região Sul, enquanto as mortes foram mais frequentes no Sudeste.

Outro estudo brasileiro publicado em 2011 pela Sociedade Brasileira de Hepatologia na revista Annals of Hepatology sugeriu que, no país, a doença hepática não alcoólica é mais comum aos 49 anos, afetando principalmente homens (53,3%), dos quais 85% são assintomáticos. Taxas elevadas de colesterol, triglicérides ou ambas foram observadas em 66,8% dos casos, assim como obesidade (44,7%), excesso de peso (44,4%), diabetes (22,7%) e síndrome metabólica (41,3%).

Colapso por excesso de gordura
O principal alimento das células é açúcar, ou glicose. No entanto, fatores como períodos prolongados de privação alimentar podem fazer com que essa fonte de energia fique escassa. Nessa situação, o corpo adota um plano B cujo principal ator é o fígado: a partir da quebra de ácidos graxos (lipídios), ele gera glicose e garante, por algum tempo, o funcionamento celular. Agora, pesquisadores da Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos, mostram, na revista Cell Reports, que outros tecidos podem intervir para produzir glicose quando a capacidade do fígado de quebrar gorduras é prejudicada.

Embora o corpo consiga se adaptar, os autores mostram que, pelo menos em ratos, o não funcionamento desse mecanismo é letal. Michael Wolfgang, coautor do estudo, explica que a capacidade de manter a glicemia durante a fome, a gluconeogênese, requer a oxidação de ácidos graxos pelo fígado. Cerca de 90% do processo se dá nesse órgão, enquanto o resto ocorre nos rins e no intestino. Para entender como o fígado desempenha essa função, os cientistas eliminaram o gene CTP2, necessário para a oxidação de ácidos graxos, em ratos. Os filhotes conseguiram sobreviver às duas primeiras semanas de vida, quando dependiam exclusivamente do leite materno, um alimento rico em gordura e pobre em açúcares.

“Ficamos surpresos em saber que eles ficaram bem, mesmo sem a habilidade de queimar gordura para produzir glicose e cetonas”, conta o autor. Cetonas são moléculas geradas pela quebra de ácidos graxos pelo fígado. Na falta de glicose, elas são uma fonte alternativa de energia usada por vários tecidos, por exemplo o cérebro. Enquanto foram alimentados apenas com o leite materno, os camundongos sem CPT2 tiveram o mesmo peso que os ratinhos com o gene e consumiram quantidades comparáveis de gordura e açúcar. Não produziam, contudo, a mesma quantidade de cetona.

Isso ocorreu porque a função do fígado foi, aparentemente, assumida pelos rins. Neles, os autores encontraram um teor aumentado de gordura, bem como de genes cuja atividade principal é oxidar ácidos graxos. Camundongos tinham, além disso, taxas mais altas de FGF1, molécula que estimula a absorção e a quebra de gorduras pelas células. Faltava saber o que ocorreria nos animais quando eles crescessem. Em um primeiro teste, os ratinhos foram submetidos a um jejum de 24 horas e apresentaram níveis normais de glicose no sangue, indicando que ela estava sendo bem produzida e aproveitada pelo organismo, apesar da má função hepática.

Dieta da moda
O problema ocorreu quando os animais foram submetidos à dieta cetônica. “Essa dieta mostra como perder peso rápido é pior do que ser gordo. É a nova dieta da moda, mas já sabemos que têm efeito temporário e gera muito estresse no fígado por privar o organismo intensamente de calorias. Ela mobiliza rapidamente a gordura abdominal, encharcando o fígado com ácido graxos livres. Uma pessoa com doença renal menos grave pode, rapidamente, evoluir para uma condição fatal”, alerta Raymundo Paraná, coordenador do Núcleo de Hepatologia do Hospital Universitário da Universidade Federal da Bahia.

Mesmo recebendo grande quantidade de calorias — todas as refeições tinham manteiga, por exemplo —, o organismo dos animais colapsou porque o fígado não conseguiu lidar com o alto volume de gordura. As cobaias chegaram até a perder massa gorda, mas o fígado colapsou. “Ele sabia que precisava queimar gordura para produzir glicose, por isso pedia ao tecido adiposo do resto do corpo para enviar ácidos graxos. No entanto, como não podia queimá-los, só os absorveu e, com isso, acabou muito gordo para funcionar” explica Wolfganf. .