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Zika Vírus

Malformações ortopédicas causadas pelo zika vírus preocupam especialistas

Congresso Brasileiro de Ortopedia Pediátrica, em BH, propõe reunião de casos para definir tratamento

Carolina Cotta

Casos de malformações ortopédicas em bebês com a Síndrome Congênita do Zika Vírus foram apresentados para especialistas de todo o Brasil durante o congresso - Foto: Carolina Cotta/EM/D.A Press

As alterações ortopédicas que podem estar relacionadas ao zika vírus foram discutidas durante o XII Congresso Brasileiro de Ortopedia Pediátrica, que está sendo realizado em Belo Horizonte até sábado. Especialistas preocupados com o aumento de casos querem reunir suas experiências para a elaboração de um protocolo que possa orientar a conduta de todos os ortopedistas diante da suspeita de o vírus provocar microcefalia e também malformações ortopédicas.

A ideia do painel, segundo a ortopedista Ana Paula Tedesco, veio da constatação de um número maior de malformações, observada, principalmente, pelos ortopedistas do Nordeste,onde se concentram a maior parte dos casos de zika. "Mas não sabemos se há relação. O propósito da reunião é reunir os casos em um estudo para começarmos a pesquisar se há opu não tal relação", explicou a especialista.

Segundo Fernando Garcia, chefe do Serviço de Ortopedia e Traumatologia do Hospital Infantil Martagão Gesteira (HIMG), de Salvador, também é importante determinar centros de referência para o atendimento ortopédico de crianças diagnosticadas com a Síndrome Congênita do Vírus Zika, já que há algumas evidências, nada ainda comprovado cientificamente, de que além da microcefalia o vírus provoca uma série de outros danos nos bebês infectados durante a gestação.

 

Do ponto de vista ortopédico, as malformações mais comuns, segundo o ortopedista pediátrico Fábio Matos, coordenador científico do HIMG, são quadris luxados (para fora da articulação), pés e joelhos tortos, artrogripose (contratura em flexão das articulações) e um atraso no desenvolvimento neuropsicomotor. A evidência mais comum, entretanto, segue sendo a diminuição do perímetro cefálico, que caracteriza a microcefalia. Há ainda casos de espasticidade (caracterizada por músculos tensos ou rígidos e uma incapacidade de controlá-los), decorrentes do comprometimento neurológico.

 

Durante o painel, Fábio Matos e a também ortopedista pediátrica Ana Paula Tedesco chamaram a atenção para a importância do diagnóstico da síndrome, já que isso é determinante paraa definição do tratamento. Segundo Fábio isso ocorre porque outras infecções causadoras de microcefalia, as chamadas Torchs (sigla para toxoplasmose, rubéola, citomegalovirose, herpes e sífilis) também podem desencadear malformações ortopédicas.

“A diferença é que para as Torchs há tratamento e para aquelas causadas por zika não há remédio. A dificuldade que estamos enfrentando é que os pacientes com malformações possivelmente decorrentes do zika não respondem bem ao tratamento convencional. Se o caso não foi causado por zika há mais meios de intervir. Se for zika a abordagem é diferente. E é tudo ainda muito desconhecido”, lamenta. Segundo Ana Paula, o tratamento tem sido instituído com base no que os ortopedistas sabem sobre essas malformações em outras circunstâncias. "Porque não sabemos, e ninguém sabe, se são necessários tratamentos diferenciados ou não para ter bons resultados", explica.

No serviço do HIMG, por exemplo, já são 16 casos de crianças com a Síndrome Congênita do Vírus Zika. A maioria tem pé torno congênito (quando ele se volta para dentro) e pé talo vertical (quando ele se volta para fora). Esses casos estão sendo abordados com métodos convencionais, e com sucesso, embora não se saiba se irão evoluir bem, como ocorre nessas malformações quando causadas por outros motivos. Mas os médicos estão preocupados com a abordagem dos quadris luxados, outra malformação que está ocorrendo nessas crianças e até agora sem sucesso na intervenção.

 

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