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Paixão selfie

Selfie está mudando a forma como olhamos para nós mesmos

O sedutor autorretrato feito no celular é um fenômeno cultural. Cada um de nós guarda no celular uma espécie de autobiografia em imagens. A mania de tudo registrar tem um impacto importante na formação da identidade e, por isso, precisa ser bem administrada

Revista do CB
A empresária Monnike Falcão abraça com entusiasmo a ferramenta: só no mês passado, ela fez 96 fotos de si mesma - Foto: Zuleika de Souza/CB/D.A Press
Selfie. A palavra, com certeza, já faz parte do seu vocabulário, e, se você observar, a pronuncia com mais frequência do que imagina. Vem do inglês, com origem no termo self-portrait — que significa autorretrato. O autor da imagem não se esconde por trás das câmeras. Ele aparece e, desta vez, em primeiro plano.


O uso do termo aumentou em 17.000% no período de um ano entre 2012 e 2013, de acordo com o blog do dicionário de Oxford. Devido a esse crescimento tão rápido, ‘selfie’ foi eleita pelo renomado dicionário “a palavra do ano de 2013”. Ela ganhou o mundo como sinônimo de foto de si tirada com um smartphone e compartillhada nas redes sociais.

Em 2015, Samsung e a consultoria Antennas Business Insights realizaram a primeira pesquisa sobre a selfie no Brasil. O resultado obtido foi expressivo: 90% dos brasileiros tiram selfies e a frequência é alta — 58% disseram fazer selfies quase todos os dias ou, pelo menos, uma vez por semana.

Outro traço interessante sobre os brasileiros que o levantamento percebeu é que 72% dos entrevistados preferem tirar a foto conhecida como ‘ussie’, que é a selfie em grupo, com amigos e familiares.

Em qualquer cidade pacata do interior, há uma praça e em torno dela estão a padaria, a farmácia, o açougue etc. De acordo com o psicólogo especialista em dependência tecnológica Cristiano Nabuco, os habitantes dessas cidades vão até a praça para cumprir um objetivo muito específico: verem e serem vistos. “Faz parte da necessidade biológica do homem se manter em destaque. As redes sociais são a nova praça”, exemplifica. As pessoas criam novas identidades, postam coisas boas, como sucesso profissional, viagens e comida apetitosas. Afinal, ninguém quer ser visto na praça com aparência desleixada.

Uma das explicações para a adesão dos internautas à selfie é exatamente o cumprimento dessa função “instintiva”. Na internet, é possível que qualquer um seja a sua melhor versão, eternizar sua identidade e valores.

Porém, é preciso ter moderação. Pessoas que postam demasiadamente, em busca de aceitação, acabam sendo taxadas como chatas. O raciocínio comum é que quanto mais reconhecimento, melhor. Segundo o especialista, isso não é saudável. “Quando uma selfie não atinge muitas curtidas nas redes sociais é, frequentemente, apagada. Como se aquilo fosse uma mancha no currículo da pessoa”, afirmou.

O psicólogo ressalta a existência de estudos que mostram que quanto mais selfies um indivíduo posta nas redes sociais, mais inseguro ele é.
Essa seria uma maneira de compensar sentimentos negativos e inquietudes. Isso porque a internet se configurou como uma realidade paralela na qual é possível obter sucesso e aceitação. Mesmo assim, os internautas devem usar o recurso de forma equilibrada, de modo a não misturar realidade e fantasia.

- Foto: Josep Lago / AFP

Glossário


“A” selfie ou “o” selfie?


Coisa de jovem?


O que as imagens dizem
A estudante Natasha Mendes, 21 anos, reconhece que talvez tenha se excedido no período em que ficou fora do país: fez mais de 5 mil fotos. “Acredito que 90% delas sejam selfies. Mesmo quando viajava com amigos, nós preferíamos tirar selfies”, confessa.
Em julho de 2015, ela se mudou para Paris com o objetivo de estudar francês. Apaixonada por fotografia, ela fez questão de registrar cada momento dos sete meses de intercâmbio.


Natasha Mendes, 21 anos - Foto: Reprodução Instagram No começo da viagem, ela diz que sentia vergonha de fazer o registro que muitos veem como algo egocêntrico, ainda mais no meio da rua. “Eu me sentia meio boba, com o bastão de selfie enorme esticado e sorrindo pro além. Até tentava disfarçar”, assume. A timidez foi passando quando a estudante percebeu a popularização do recurso. E foi aprimorando os cliques. “Com o tempo, você aprende o ângulo certo para cada tipo de foto”, diz.

Para a psicóloga Ana Maria Martins, especialista em terapia cognitivocomportamental, não se pode atribuir um sentido generalizado ao ato de tirar selfies. A obsessão em ser sujeito da imagem pode ter diferentes significados para cada pessoa. Pode ser o simples desejo de se ver ou a vontade de registrar um momento para consulta pessoal. Segundo ela, a barreira do vício é cruzada quando há alguma forma de prejuízo. “Por exemplo, quando a pessoa para de se envolver com os momentos e companhias para ficar totalmente imsersa no ato de tirar fotos”, pondera.

O crescimento da internet e das redes sociais permitiu a qualquer pessoa um espaço para buscar atenção ou notoriedade. A selfie, como forma de registrar um momento e compartilhar o sentimento associado a ele, é uma forma válida de expressão e comunicação moderna. Entretanto, o professor da Universidade Católica de Brasília Alexandre Cavalcanti Galvão comenta que a selfie se torna um assunto delicado diante de uma situação. “Quando a pessoa começa a se autofotografar inventando um estado de espírito, é preciso prestar atenção. A necessidade de pegar emprestado um sentimento diferente do real é o que deve chamar a atenção”, ressalta Alexandre.

De acordo com o professor, essa necessidade de se mostrar em situações positivas é um condicionamento cultural. Alexandre ressalta que a sociedade permite cada vez menos exibir “sentimentos pesados”. “Não permitimos que as pessoas se sintam tristes e chorem por suas perdas, queremos que o luto passe rápido”, aponta. Nesse sentido, a selfie apenas reproduz um padrão social mais amplo.

Para eternizar o momento

1) Maquiagem


2) Acessórios


O efeito Kardashian: A socialite norte-americana sempre declarou abertamente o seu vício pelas selfies. No ano passado, a Editora Rizzoli compilou os melhores momentos em um livro, Selfish. Duas semanas após o lançamento, já estava na lista dos mais vendidos, na categoria Fotografia e Arte, na Inglaterra e no Estados Unidos. São 350 páginas de fotos da celebridade %u2014 sozinha ou na companhia de amigos e familiares. - Foto: Reprodução Internet Fique bem na foto

1. Busque uma boa luz
2. Preste atenção ao plano de fundo
3. Faça algo criativo
4. Tente novas poses 
5. Evite fotos de baixo para cima

Aplicativos para edição


CamMe


Selfshot


B612

As amigas e sócias Camila Nereu e Monnike Falcão não economizam nos cliques: a busca pela selfie perfeita - Foto: Zuleika de Souza/CB/D.A Press
Coleção de likes

Não dá para negar que, com ou sem acessórios de última geração, o medidor de sucesso das fotos nas redes sociais são as curtidas e os comentários. Muitas pessoas publicam selfies já contando com uma repercussão positiva e, às vezes, se desapontam quando a selfie não se torna objeto de atenção. Isso não é um motivo de preocupação para a empresária Camila Nereu. Ela não repara muito na quantidade de curtidas, mas acha que,  caso percebesse um número muito menor, isso poderia causar uma insegurança momentânea.

Um aspecto curioso sobre o hábito de capturar a própria imagem é que as empresárias concordam que nunca se dão por satisfeitas logo com o primeiro clique, por mais que fique bom. Elas sempre tiram várias fotos antes de escolher uma para compartilhar na internet. “Acho que isso é muito comum entre as mulheres. Normalmente, nós tiramos mais fotos. Sejam selfies ou não”, frisa Camila. A empresária deixa escapar que jamais postaria uma foto triste ou desarrumada. “O Instagram não é bem a vida real”, conta.

A pedido da reportagem, Camila e a sócia, Monnike Falcão, revelaram um segredo. Depois de tanto investimento para chegar à “selfie perfeita”, quantos autorretratos elas carregam no celular? Das 35 mil fotos que Camila tem no celular, 1.500 são selfies. No caso de Monnike, que trocou de celular em janeiro deste ano, já foram 1.300 fotos em um mês — sendo que 96 são autorretratos.

Casos extremos

Dependência da web
De acordo com Núcleo de Dependência de Internet, em São Paulo, apresentar pelo menos cinco dos oito critérios listados abaixo pode configurar dependência.

1. Preocupação excessiva com a internet.
2. Necessidade de aumentar o tempo conectado (on-line) para ter a mesma satisfação.
3. Exibir esforços repetidos para diminuir o tempo de uso da internet.
4. Apresentar irritabilidade e/ou depressão.
5. Quando o uso da internet é restringido, apresenta labilidade (instabilidade) emocional.
6. Permanecer mais tempo conectado (on-line) do que o programado.
7. Ter o trabalho e as relações familiares e sociais em risco pelo uso excessivo.
8. Mentir aos outros a respeito da quantidade de horas conectadas..