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Pesquisadores descobrem que vermes aumentam a fertilidade de mulheres

Cientistas dos EUA chegaram à conclusão após acompanhar índias da Amazônia. As infectadas por parasitas têm até dois filhos a mais. Segundo eles, o fenômeno pode ser explicado por mudanças no sistema imunológico das gestantes

Roberta Machado
As mulheres chimanes têm, em média, nove filhos. A infecção por vermes também é alta: cerca de 70% da tribo - Foto: Michael Gurven / Divulgação Um estudo epidemiológico feito com quase mil gestantes indica que a infecção por parasitas pode ter efeitos positivos na gravidez.
A conclusão é de um levantamento feito em uma comunidade de mulheres chimanes, um grupo indígena do norte da Bolívia. O trabalho, publicado hoje na revista Science, revela que as mulheres infectadas pelo nemátodo Ascaris lumbricoides, que provoca a ascaridíase, tiveram até dois filhos a mais do que aquelas não contaminadas. Os pesquisadores acreditam que a estranha relação esteja ligada ao sistema imunológico das gestantes.

Mais de 1 bilhão de pessoas no mundo sofrem de infecções parasitárias causadas por vermes, principalmente em regiões tropicais sem saneamento básico. Os sintomas nocivos dessa relação parasitária são bem conhecidos e podem variar de anemia a problemas cognitivos. Mas a ligação benéfica entre esses parasitas e a gravidez ainda é um tema pouco explorado na medicina. “Até onde sabemos, esse é o primeiro estudo a analisar em detalhes a relação entre helmintos e fertilidade”, ressalta Aaron Blackwell, professor de antropologia na Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, e um dos autores do estudo.

Um dos motivos que levaram os pesquisadores a escolher a população chimane para o trabalho foi o alto índice de parasitose registrado na comunidade amazônica: cerca de 70% deles são infectados por vermes ao menos uma vez na vida. Outro importante aspecto para a pesquisa foi o alto índice de nascimentos entre as indígenas, com uma média de nove filhos por mulher.

Durante nove anos, os pesquisadores registraram as gestações e os casos de parasitose de um grupo de 986 chimanes.
Ao compararem os dados, concluíram que as infecções durante as gestações estavam ligadas a um maior número de filhos. As mães que eram infectadas pelas lombrigas, como são conhecidas popularmente as Ascaris, teriam, em média, dois filhos a mais do que as mulheres que nunca haviam sido contaminadas. A ascaridíase também estaria associada a primeiras gestações mais precoces e a um menor intervalo entre os nascimentos.

Essa relação contraintuitiva poderia ser explicada por mudanças que ocorrem no sistema imune das gestantes. Quando uma mulher engravida, o organismo dela induz um perfil de resposta do tipo Th2, que o adapta para a chegada de um invasor e evita que ele seja atacado por células imunes. “Como o embrião tem antígenos que vêm do pai, o organismo materno tende a reconhecer o feto como algo estranho. Então, esse perfil anti-inflamatório é importante na gestação para impedir que a mãe rejeite o feto”, explica Bellisa de Freitas Barbosa, especialista em imunologia da reprodução e professora de imunologia da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), em Minas Gerais.

Esse é o mesmo tipo de processo que ocorre no caso da infecção pela Ascaris, que também induz a resposta imunológica do tipo Th2. Essa coincidência, defendem os pesquisadores, poderia promover a concepção e ser benéfica para o desenvolvimento do bebê. “Esse é um estudo muito original”, avalia, em entrevista à Science, o imunologista Rick Maizels, da Universidade de Edimburgo. “Acredito que ele vai estimular várias outras pesquisas”, ressaltou o especialista, que não participou do estudo.

A relação parasitária inusitada não seria prejudicial à saúde das mães, diferentemente das infecções causadas por outras espécies de helmintos, como o Ancylostoma duodenale. Enquanto o Ascaris só vai atrás dos nutrientes dos alimentos consumidos pelo hospedeiro, o verme que causa a ancilostomíase tem o hábito de furar a parede intestinal e sugar o sangue da pessoa contaminada. Esse tipo de infecção, que no Brasil é conhecida vulgarmente como amarelão, está associada à anemia e à perda de peso das gestantes, e pode ser bastante prejudicial ao bebê. O estudo com as mulheres chimanes mostrou que as mães que sofriam infecções desse tipo de parasita tinham uma fertilidade menor do que a média, com até três filhos a menos. A resposta imune provocada por esse helminto, ressaltam os pesquisadores, é diferente da identificada na ascaridíase.

Novos estudos
Os autores ressaltam que a relação benéfica ainda é não foi totalmente comprovada.
O estudo epidemiológico não analisou os efeitos imunológicos no organismo das participantes do levantamento. Portanto, não se pode afirmar com certeza o elo entre os parasitas e o aumento das gestações. “No entanto, muitos outros estudos já mostraram que os vermes causam mudanças imunológicas significativas, e nós estamos atualmente no processo de conduzir nossos estudos com medições imunológicas diretas”, ressaltou Aaron Blackwell, professor de antropologia na Universidade da Califórnia.

Os autores acreditam que as análises científicas sobre a relação entre o sistema imunológico e a parasitose podem levar a um novo entendimento sobre a forma como essa condição é tratada. As mudanças imunes provocadas pelos parasitas, ressaltam, também afetam a sucessibilidade a doenças como a malária e a tuberculose. “Vários trabalhos mostraram que a infecção por helmintos está associada a mudanças em outras condições, incluindo alergias e distúrbios autoimunes. Muitos testes clínicos estão atualmente avaliando os helmintos como uma forma de tratamento”, aponta Blackwell.

O cientista questiona, inclusive, a prática de exterminar esses micro-organismos do corpo. “Muitas pessoas estão questionando a ideia de que os profissionais de saúde deveriam ir a vilas e tratar todo mundo contra helmintos. Estudos mostraram que isso não é muito eficiente, já que as pessoas rapidamente são infectadas novamente, e também não têm grande melhora na saúde. Os nossos sugerem que outros efeitos dos helmintos na fertilidade e o risco de outras doenças também devem ser considerados quando se faz o planejamento do tratamento”, acredita o pesquisador norte-americano.

Intestino afetado
Uma das verminoses intestinais humanas mais disseminadas no mundo. A larva do parasita migra pela parede do intestino delgado e é transportada pelos vasos linfáticos e pela corrente sanguínea para os pulmões.
Depois, sobe pelas vias respiratórias e é engolida, voltando ao intestino delgado, onde o verme amadurece e pode chegar a 50cm de comprimento. A infecção pode causar espasmos abdominais e obstrução intestinal. Alguns medicamentos contra a ascaridíase não podem ser ingeridos por grávidas porque podem prejudicar o feto.

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Prescrição descartada
“Qualquer coisa que induza um perfil de resposta imunológica que seja muito semelhante ao processo gestacional pode favorecer a progressão da gravidez. Existem algumas doenças autoimunes, por exemplo, que são mais de um perfil Th2 e podem participar de um favorecimento da gestação, mas não seriam a causa de uma maior fertilidade. Os parasitas estão proporcionando nessas mulheres um perfil inflamatório muito semelhante ao perfil encontrado na gravidez. Então, isso melhora o sucesso gestacional. Mas ele pode ocorrer perfeitamente na ausência de uma infecção. A gente não pode chegar à conclusão de quem quer engravidar deve ser infectada.”

Bellisa de Freitas Barbosa, especialista em imunologia da reprodução e professora de imunologia da Universidade Federal de Uberlândia (UFU).