Saúde

Ganha força tese de que a vitamina D pode ser usada contra o câncer

Pesquisa de instituição dos Estados Unidos indica que a substância pode aumentar a sobrevida de pacientes com tumor colorretal grave em até 33%. A doença é a neoplasia mais comum em países desenvolvidos e detectada anualmente em 1,2 milhão de pessoas no planeta

Bruna Sensêve

Boom de estudos sobre a importância da vitamina D na prevenção de diversas doenças causou corre-corre às farmácias e inúmeras recomendações de suplementação diária nos últimos anos
O fim do tratamento contra o câncer não aponta imediatamente a cura. Logo em seguida, vêm meses de espera ansiosa, que se encerram com a recidiva ou um feliz desfecho das árduas sessões terapêuticas. O segredo para garantir maior sobrevida ao paciente, no entanto, pode não estar somente no sucesso da estratégia escolhida, mas na condição do organismo ao recebê-la. Em especial, na taxa da vitamina mais controversa para a medicina. Um boom de estudos sobre a importância da vitamina D na prevenção de diversas doenças causou corre-corre às farmácias e inúmeras recomendações de suplementação diária nos últimos anos. Na contramão, trabalhos contestaram a funcionalidade da substância administrada artificialmente. Agora, o assunto volta à discussão com novos dados confirmando que altos índices dela no corpo garantem maior sobrevida a pacientes com câncer.


Os últimos resultados nesse sentido foram apresentados no principal congresso internacional sobre câncer, o Simpósio de Cânceres Gastrointestinais da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (Asco), realizado neste mês, em São Francisco (EUA). A equipe de Shuji Ogino, do Instituto de Câncer Dana-Farber, da Escola de Medicina de Harvard, apresentou um estudo clínico que comparou os níveis de vitamina D na corrente sanguínea antes, durante e depois do tratamento com drogas quimioterápicas e terapias-alvo de pacientes em quadro de metástase hepática para câncer colorretal. Isto é, quando as células cancerígenas já tinham atingido os componentes do fígado.

Os resultados mostraram que pacientes com alto nível de vitamina D antes de serem submetidos ao tratamento sobreviveram em média 33% mais tempo (32,6 meses contra 24,5 meses). Os autores consideram que o trabalho representa uma nova visão na terapêutica contra o câncer, mas ressaltam que ainda é muito cedo para recomendar a vitamina D como um tratamento para tumores de cólon.

Alta incidência
O câncer colorretal ocupa a terceira posição nas estatísticas mundiais de incidência de doenças malignas, com aproximadamente 1,2 milhão de casos por ano, atrás apenas dos de pulmão e de mama. Nos países desenvolvidos, ocupa o primeiro lugar entre as causas de neoplasia, quando considerados ambos os sexos. Estimativas do Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva (Inca) para 2014 contabilizavam 32.600 novos casos no Brasil, sendo 15.070 homens e 17.530 mulheres.

Segundo o oncologista clínico Gilberto Lopes, do Centro Paulista de Oncologia (CPO) da Rede Oncoclínicas do Brasil, há praticamente uma década, a ação da vitamina D no câncer é discutida, e existem mecanismos em laboratório que sugerem haver um papel importante dela no combate a esse mal. “É uma substância ativa que funciona como um hormônio no corpo e pode agir na morte celular programada, um dos mecanismos que temos para proteção contra tumores malignos”, explica.

Segundo Lopes, as pesquisas permitiram a percepção de novos papéis exercidos no corpo pela vitamina D. “Há 35 anos, a única informação que tínhamos era de que a deficiência dessa substância causava raquitismo, e a doença praticamente não existe mais”, diz. O oncologista considera que a polêmica atual gira em torno de descobrir se vale a pena usar a suplementação contra o câncer em todos os pacientes. “Essa é uma das dúvidas que temos. A maioria dos estudos foi feita na América do Norte e na Europa. Então, há poucos dados de como ela age em resultados de câncer em países tropicais, como o nosso”, completa.

No caso do estudo conduzido por Ogino, não dá para saber, observa Lopes, se as altas taxas de vitamina D detectadas nos participantes estão ligadas à quantidade de exercício físico que eles praticavam, à ingestão da substância na dieta, ou se é fruto da exposição solar. Presente em leites e derivados, em peixes e no ovo, essa vitamina é produzida pelo organismo quando há exposição da pele à luz do Sol.

Nesse cenário, não há como iniciar as prescrições para melhorar a sobrevida de pacientes com tumores malignos. “Temos medo, mesmo sendo a vitamina D uma coisa tão simples. Isso porque já tivemos estudos sobre outros suplementos que geraram um risco maior de desenvolver câncer, como o ácido fólico. Então, a gente não pode começar a receitar como um medicamento até termos essa prova”, diz Lopes.

Uso também a favor do pulmão
A pesquisa em torno da associação do câncer e a vitamina D também atinge outros órgãos. Uma das autoras que trabalha nessa hipótese é Nithya Ramnath, professora associada de medicina interna na Faculdade de Medicina da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos. Sua última pesquisa publicada, em março de 2011, na Clinical Cancer Research, indicou que uma enzima envolvida no metabolismo da vitamina D pode prever a sobrevida de câncer de pulmão.

Ramnath e a equipe perceberam que níveis de CYP24A1 são mais elevados — cerca de 50 vezes — em tecidos cancerígenos pulmonares, quando comparados aos de um pulmão saudável. Quanto maior era o nível da enzima, os tumores eram mais suscetíveis de serem agressivos. Aproximadamente um terço dos pacientes com câncer de pulmão tinham altos níveis dessa enzima. Depois de cinco anos, esses doentes apresentaram cerca de metade da taxa de sobrevivência se comparados àqueles com baixos níveis de CYP24A1.

Os investigadores, então, ligaram esse resultado à forma como a CYP24A1 interage com calcitriol, a forma ativa da vitamina D. A enzima decompõe o calcitriol, porém, quando presente em grande quantidade, começa a dificultar os efeitos anticancerígenos dele. “Um composto natural, como a vitamina D, é atraente porque tem poucos efeitos colaterais, mas é ainda melhor se nós pudermos determinar exatamente quem se beneficiaria ao recebê-lo”, avalia.