Os riscos de uma cesariana desnecessária não atingem apenas as mulheres, mas também os bebês. Estudos científicos mostram que essa cirurgia aumenta em até 120 vezes a probabilidade de o bebê nascer prematuro e ter a síndrome de angústia respiratória. Isso por que quando a gestante passa pelo procedimento cirúrgico antes de entrar em trabalho de parto, ou seja, por uma cesárea eletiva ou cesárea marcada, o risco de a criança nascer antes da 38ª semana é alto. Outra informação relevante é que 16% dos óbitos infantis são causados por prematuridade. A epidemia de cesáreas já impediu, inclusive, que o Brasil conseguisse alcançar o quinto objetivo do milênio da Organização das Nações Unidas (ONU), de reduzir a mortalidade materna (clique e saiba mais).
Por essas razões, um anúncio no site da Clínica Santa Helena, de Florianópolis, resultou em polêmica nas redes sociais. Ao acessar a página, o usuário se depara com um enorme banner em que a expressão ‘parto programado’ aparece em destaque e passa a ideia de que a mulher pode agendar data e hora para o nascimento do bebê. Ao lado, o anúncio cita os benefícios do produto, entre eles, uma diária em UTI Neonatal. A principal crítica é a associação direta que se faz entre ‘parto programado’ e ‘cesariana marcada’ e, obviamente, o risco maior de o bebê precisar da UTI.
As críticas pipocaram, a instituição tomou conhecimento e promete para a tarde de hoje uma nota em que vai explicar as intenções da peça publicitária. Dos 550 procedimentos médicos e cirúrgicos realizados pela clínica, 250 são nascimentos. Nem o diretor geral, Remaclo Fischer Júnior, nem o diretor técnico, José Francisco Zambonato, puderam falar com o Saúde Plena. No entanto, indicaram Fábio Albertoni, admnistrador da Clínica Santa Helena, para prestar os esclarecimentos.
“Tomamos conhecimento da repercussão nas mídias sociais ontem, manteremos o banner, mas vamos colocar uma nota no site esclarecendo que ‘parto programado’ é um produto da Clínica Santa Helena”, afirma. Ele reforça que a instituição não incentiva a cesariana e que o objetivo é facilitar o acesso das gestantes que não têm plano de saúde aos serviços da rede privada. O prazo máximo para adquirir o ‘parto programado’ é o sexto mês de gravidez. O valor de R$ 6.920 pode ser dividido em seis vezes, sendo que as três primeiras parcelas devem ser pagas no sétimo, oitavo e nono meses.
Segundo Fábio Albertoni o valor é o mesmo, independentemente de o parto ser via vaginal ou cesariana. “A palavra final é do médico”, declarou. “A diferença é que, no parto normal o médico recebe mais pelos honorários e, no caso de uma cesariana, o hospital ganha mais”, explicou por telefone.
Sobre o bônus de uma diária na UTI Neonatal, Albertoni ressaltou que é uma questão de segurança caso o bebê necessite de cuidados intensivos após o nascimento. Ele não soube dizer qual a taxa de cesarianas da Clínica Santa Helena, pediu um tempo para levantar os números, mas até o fechamento da reportagem a informação não chegou.
Dados oficiais do Ministério da Saúde mostram que a taxa de cesarianas na rede privada é de 84,6%. Dos mais de 2,9 milhões de partos que acontecem no Brasil, 521 mil são realizados na rede privada. A incidência de cesariana ainda é alta também no Sistema Único de Saúde (SUS): 40%. A Organização Mundial de Saúde (OMS) recomenda que seja, no máximo de 15%, mas média do país é de 55,6%.
Atualização:
A Clínica Santa Helena alterou a peça publicitária que incentivava a cesariana. Como dito anteriormente ao Saúde Plena, não mudou o nome do produto. A instituição continua sem informar a taxa de cesáreas e mantém a dúvida alimentada nas redes sociais: a explicação dada após a polêmica é apenas uma justificativa para fato de a campanha incentivar o agendamento do parto?
Anúncio que incentiva parto programado e associa cesariana à necessidade de UTI neonatal gera polêmica nas redes sociais
Clínica Santa Helena, em Florianópolis, esclarece que a expressão 'parto programado' utilizada na peça publicitária não é sinônimo de 'cesárea eletiva' e que se trata apenas de um produto oferecido pelo hospital para facilitar o acesso de gestantes sem plano de saúde aos serviços da rede privada