Saúde

Excesso de craques pode gerar disputa interna e prejudicar equipes

Cientista francês conclui que as estrelas podem comprometer a harmonia dos times

Isabela de Oliveira

A receita para um time perfeito não depende apenas da popularidade dos jogadores escalados. O sucesso da mistura decorre mais da química entre eles do que do quanto agradam aos espectadores. No campo, a fórmula é sintetizada pela sabedoria popular de que, às vezes, menos vale mais: a seleção ideal não precisa ter apenas craques estelares. São imprescindíveis também atletas com habilidades pouco inferiores. O princípio proposto por Roderick Swaab, pesquisador da escola de negócios Insead, na França, justifica o resultado da edição deste ano da Copa do Mundo. Ao contrário de todas as outras, a equipe alemã liderada por Joachim Löw não tinha reservas: todos os 23 jogadores eram titulares.


"A maioria das pessoas acredita que a relação entre o talento e o desempenho da equipe é linear. Quanto mais a equipe está repleta de estrelas, melhor ela jogará. No entanto, nossa pesquisa documenta um efeito contrário quando há craques em excesso", diz o principal autor do estudo, divulgado na revista especializada Psychological Science. Foram realizados cinco testes, que envolveram pesquisas documentais e questionários com torcedores sobre a relação entre o desempenho de alguns jogadores e o da equipe.

Excesso de famosos pode ter comprometido a equipe
Embora dois experimentos tenham indicado que a opinião popular aposta no talento como sinônimo de sucesso, os resultados mostraram que muita habilidade de um ou mais integrante nem sempre beneficia o time. “Além desse ponto, as vantagens da adição de mais talentos diminuem e, eventualmente, prejudicam o desempenho da equipe porque os jogadores não conseguem coordenar as suas ações”, explica o especialista.

Para formular a hipótese, os autores precisaram entender as dinâmicas de hierarquia. Basicamente, elas preveem que times com muitos indivíduos dominantes geram disputas internas de autoridade e de status. A competição pode, por exemplo, levar um jogador a minar os esforços dos companheiros para promover a própria força. Com posse dessa informação, Swaab deu início à rodada de experimentos. Os dois primeiros consistiram em avaliar a percepção das pessoas sobre a relação entre talento e triunfo dos times.

Em um, os participantes foram convidados a avaliar se uma empresa teria mais ou menos sucesso conforme a qualidade dos funcionários. No outro, interpretaram o papel do técnico de uma seleção nacional de futebol escolhendo um elenco de jogadores que aumentasse as chances de vitória nas competições. Ambos os casos mostraram que a percepção popular sustenta a ideia de que mais estrelas geram maiores placares. “As pessoas nunca esperam que esse efeito possa ser, na realidade, negativo”, observa Swaab.

Time alemão ergue a taça da Copa de 2014 depois de ganhar da Argentina: vitória de um grupo de atletas que não eram reconhecidos mundialmente
Os outros três experimentos utilizaram modelos matemáticos para calcular a performance das maiores estrelas de chuteira nas seleções de acordo com o ranking oficial da Federação Internacional de Futebol (Fifa). Os estudiosos também computaram informações sobre contratações dos craques por clubes de elite. Essas qualificações tiveram como referência as Copas do Mundo de 2010 e 2014, sendo que apenas as prévias da última edição foram consideradas.

Swaab fez as mesmas análises da performance de jogadores da National Basketball Association (NBA), além de outra modalidade esportiva menos interdependente que as duas anteriores: o beisebol. Nesse caso, a Major League Baseball — nível mais alto do beisebol profissional dos EUA — foi investigada. Além da cotação dos jogadores dos três esportes no mercado, os pesquisadores avaliaram a performance e a quantidade de partidas disputadas.

Ao contrário das previsões dos participantes do estudo, os times de basquete e de futebol com maior quantidade de craques só tiveram sucesso até certa altura. Depois, sucumbiram ao declínio. O mesmo não foi observado com o beisebol. Com isso, Swaab demonstrou que a contratação de superstars para esportes de alta interdependência pode não ser suficiente para uma boa classificação nas divisões. Muito pior, pode trazer malefícios.

Cristianne Carvalho, coordenadora do curso de psicologia da Universidade Federal do Maranhão, exemplifica que grandes times do futebol mundial, como a seleção dos Galácticos do Real Madrid (2003) — equipe de Luís Figo, Zinedine Zidane, Ronaldo e David Beckham, entre outros —, teoricamente não deveriam saber o que é fracasso. “O clube teve o pior período de títulos de sua história. A seleção Brasileira de futebol de 1982, predestinada a levar o título pelo talento dos jogadores, também não sagrou êxito. Nossa seleção de vôlei masculina está passando por essa transição, em que os atacantes não são mais a única solução. Sobrecarregar apenas um ou dois jogadores ao longo de um campeonato desgastante é uma estratégia fadada ao fracasso”, comenta a especialista em psicologia do esporte.

Tradição X motivação
Seleções sem tradição, por outro lado, mostraram que é possível ir mais longe mesmo sem camisas conhecidas dos comentaristas. “Nesta Copa, tivemos Colômbia, Croácia e Nigéria no lugar de França, Itália e Uruguai, por exemplo. Quais eram os talentos dessas semifinalistas?
Nenhum atleta de renome internacional, como Neymar e Messi, mas não podemos dizer que não havia talentos.”

A psicóloga aponta motivação pessoal, não apenas a coletiva, paixão pelo atividade e apoio social, familiar e técnico como ingredientes para o sucesso de uma equipe esportiva. “O segredo está em como misturá-los: se errar na quantidade de algum deles, o resultado pode ser o fracasso”, alerta Carvalho. Swaab oferece outra alternativa, além do planejamento. “Uma solução é contratar menos indivíduos muito talentosos, algo que os treinadores argentino e francês fizeram durante a Copa do Mundo de 2014 ao não escalarem Carlos Tevez e Samir Nasri. Outra opção é investir mais nos membros da equipe para que possam ser eficientes em situações diferentes ou adversas”, sugere.

Técnico do Brasília Vôlei, Sergio Negrão conta que segue essa estratégia. “Não me interessam os melhores jogadores, mas os certos. Eu peço o histórico das minhas atletas e elas ainda respondem a um questionário que me ajuda a avaliar o perfil psicológico delas”, garante. O ex-voleibolista, no entanto, reconhece que há uma pressão para uma atitude contrária. “Existe uma ideia muito forte de que os times são montados apenas por estrelas.”

Vemos um aglomerado de pessoas
“O futebol é, por natureza, um esporte coletivo. Dessa forma, há naturalmente uma interdependência entre todos os atletas que compõem uma equipe, sejam eles talentosos ou não. A questão, penso eu, não é o excesso ou a escassez de estrelas em um mesmo time que pode destiná-lo ao fracasso ou ao sucesso. Ou seja, a afirmação da pesquisa não é necessariamente verdadeira. Tudo dependerá diretamente de alguns elementos fundamentais, entre os quais destaco o espírito de equipe, não ser egoísta, reconhecer o valor dos demais, não desconsiderar a equipe adversária e ter consciência de que o objetivo só pode ser alcançado a partir do esforço e da interação de todos. Mas ter esses cuidados na esfera da consciência não é o suficiente. Trata-se apenas do primeiro passo. É necessário que tudo isso seja colocado em prática. Falta a alguns atletas talentosos ter a capacidade de submeter a vaidade exacerbada aos objetivos da equipe e entender que, sem os demais, eles não jogam sozinhos nem alteram nenhum resultado. O que muitas vezes se assiste é a um aglomerado de atletas dentro de campo, da mesma forma que se vê um aglomerado de pessoas para entrar em uma mesma condução. Isso não é uma equipe.”

Virgínia Ferreira, psicóloga e professora da Faculdade de Medicina de Petrópolis (RJ)


Duas perguntas para...
Sergio Negrão, ex-voleibolista e técnico do Brasília Vôlei

Os treinadores têm a preocupação de balancear os “talentos” do time ue comandam?
Sim. E avaliamos também o perfil psicológico do grupo. É importante enfatizar que o grupo vem em primeiro lugar e que não cabem estratégias individuais. O talento de uma jogadora deve beneficiar a equipe, e ela deve colocar o time acima de tudo, de mim inclusive. Quando isso não acontece, ela recebe uma advertência. E, se não der certo, a pessoa é expulsa do grupo e acaba que todos perdem. Essa situação de supertalentos se sobressaírem é menor no vôlei porque ele é o esporte mais coletivo dos coletivos. No basquete, o Oscar saía de um garrafão com a bola, ia batendo até o outro lado e fazia a cesta sozinho. O Neymar, que é sensacional, dribla cinco jogadores e faz o gol sozinho também. O vôlei não permite isso porque a regra é não segurar a bola. Portanto, uma atacante muito talentosa é reduzida a zero se a levantadora não for boa.

Imagino que montar um time impõe uma forte pressão ao técnico. Como é?
É um pressão diária durante as 24 horas do dia, do início ao fim do contrato. Existe uma ideia muito forte de que os times são montados apenas por estrelas e, quando isso não ocorre, o técnico é criticado. O time de Felipão, por exemplo, deu a entender que era um grupo fechado de jogadores talentosos, mas, depois de uma adversidade, vimos que não era bem assim. Então, pelo menos para mim, não me interessam os melhores jogadores, mas os certos. Eu peço o histórico das minhas atletas e elas ainda respondem a um questionário que me ajuda a avaliar o perfil psicológico delas. Um time não é só treino físico porque isso a gente alcança com o treino. A parte psicológica também é importante, mas é preciso muito estudo e muita ciência para construir uma equipe forte.