Essas pesquisas conseguiram encontrar uma relação entre níveis elevados de cortisol entre os executivos do mercado financeiro e crises econômicas. A substância em questão é um hormônio cujos níveis no organismo aumentam durante situações ou períodos de tensão e, entre vários efeitos, pode fazer com que as pessoas se tornem avessas a assumir riscos. Não é difícil, portanto, imaginar que cortisol em excesso é ruim para quem vive de especular. Mercado financeiro sem riscos é um mercado parado, logo, em crise.
Os experimentos foram feitos no Hospital Addenbrooke, no câmpus da universidade, e contaram com a ajuda de 20 homens e 16 mulheres com idade entre 20 e 36 anos. O objetivo era ver como os voluntários reagiam durante um jogo semelhante a uma loteria. No entanto, o grupo sofreu uma intervenção prévia: 20 dos participantes tiveram suas taxas de cortisol elevadas por meio de comprimidos durante os oito dias que antecederam os testes, e 16 deles receberam apenas placebo. Na hora de concorrer aos prêmios — que eram reais e em dinheiro — , as pessoas com taxas mais altas do hormônio arriscavam menos que as do outro grupo.
Manada
O economista Luiz Carlos Lemos Junior, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie de São Paulo, diz que não conhece muitos estudos envolvendo questões biogenéticas e econômicas. “Normalmente são áreas que não convergem.” Segundo ele, o que se sabe sobre o comportamento nas situações de risco é o que os especialistas chamam de efeito manada, comum durante colapsos de mercados de capitais e bolsas de valores. “Quando um investidor se move em uma direção, a tendência é que todos façam o mesmo. Há um estouro na manada, que segue na mesma direção, e isso fragiliza a economia”, explica o especialista.
É preciso lembrar que a economia possui uma máxima, que é a lei de oferta e procura. “Imagine que todo mundo comprou um ativo que, de repente, perde valor. Automaticamente, as pessoas decidem vendê-lo, e esse é o pensamento dominante. Isso faz com que a oferta seja maior do que a procura, e o preço, que já estava baixo, despenca. No entanto, uma pessoa que arrisca nessas condições pode contribuir para que o mercado se reequilibre”, observa Lemes Junior.
Mas, o que se vê são pessoas que preferem abandonar o mais arriscado em busca de proteção. “O que não se sabia ate então era que esses elevados níveis de cortisol podem, de certa forma, induzir as pessoas a ter aversão ao risco e a procurar essa proteção”, observa o economista. Ele, contudo, levanta uma questão: “Será que essa elevação (do cortisol) não é provocada pelo aumento do risco? Não há detalhes disso. Não dá para saber se essa interferência é psicológica ou química”, questiona.
O questionamento do brasileiro faz sentido, porque momentos de tensão aumentam a taxa de estresse da população em geral. Logo, se há uma crise no mercado financeiro, os profissionais do mercado sofrerão elevação do cortisol. Um estudo apresentado na 62ª Sessão Científica Anual da American College of Cardiology, em março do ano passado, revelou que as taxas de ataques cardíacos na Grécia aumentaram desde que o país começou a afundar na crise financeira.
O estudo examinou os registros médicos de 22.093 pacientes internados no Serviço de Cardiologia do Hospital Geral de Kalamata durante um período de oito anos. Eles foram divididos em dois grupos. O primeiro era formado por pacientes que adoeceram antes da crise, entre janeiro de 2004 e dezembro de 2007. No segundo, foram avaliados os prontuários de pessoas que sofreram algum problema no coração durante a crise, entre janeiro de 2008 e dezembro de 2011. A análise mostrou que, além de haver um aumento dos casos, mulheres e pessoas dos dois sexos com mais de 45 anos foram as mais afetadas.
Contudo, o experimento de laboratório feito por Coates e sua equipe conseguiu apontar que o cortisol elevado reduziu a propensão ao risco de alguns voluntários, sugerindo que o hormônio realmente atuou na mudança de comportamento. “Qualquer investidor sabe que seu corpo pode ser comparado a uma montanha russa emocional. O que não sabíamos é que algumas dessas mudanças fisiológicas, como os níveis alterados de estresse, realmente alteram a nossa capacidade de assumir riscos”, observa o neurocientista.
Defesa e saúde
Secretado pelas glândulas suprarrenais, o cortisol é um hormônio que alimenta a resposta de “luta ou fuga”, que evoluiu para ajudar a sobrevivência em face de ameaças físicas, como predadores. O nível da substância também sobe em situações de estresse não físicas, como tempos de incerteza econômica. Níveis altos desse hormônio estão ligados a uma série de problemas de saúde, como enfraquecimento do sistema imunológico, ganho de peso, aumento da pressão arterial, doença cardíaca, ansiedade e depressão.
Anderson Rodrigues, membro da Sociedade Brasileira de Cardiologia e conselheiro do Laboratório Sabin
Perfis variados
“O cortisol é disparado imediatamente quando o organismo sofre uma situação de estresse, por exemplo, num assalto. Os músculos precisam de sangue para que a pessoa corra, as pupilas se dilatam, a saliva diminui e aumenta a secreção de ácido gástrico no estômago. As preocupações também elevam o nível do hormônio, e a situação financeira é um agravante para o risco cardiovascular. Há três tipos de estresse: o ambiental, que é como as pessoas reagem a riscos do meio em que estão; o biológico, relacionado diretamente às condições físicas, como a resposta fisiológica a estímulos estressantes, como raiva, risco financeiro ou perda de um ente querido; e o psicológico, ligado ao aspecto e à avaliação subjetiva de cada indivíduo. Nesse último, é avaliado como a pessoa responde a exigências que são dadas a ela. Isto é, se fica irritada, se explode ou se não está nem aí. Isso significa que o estresse vai depender também do perfil do investidor e das relações dele com os riscos. Alguns são mais conservadores, outros gostam da emoção e da adrenalina que os riscos proporcionam.”