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Obrigadas a abandonar seus países, crianças refugiadas sofrem para se adaptar à nova realidade?
Escola é elemento central para adaptação de crianças refugiadas, mas falta de preparo pode agravar sofrimento dos pequenos
“Você me dá uma maçã?”. Ester fez o pedido sorrindo, com todo o charme de uma criança disposta a conseguir o que quer. Acompanhada de outras duas garotas, elas se posicionaram ao redor do banco onde a reportagem do Saúde Plena estava sentada à espera de sua mãe, que estava no refeitório da Casa do Migrante, em São Paulo, acompanhando o almoço dos caçulas da família. Apesar de já ter almoçado e comido pela manhã a fruta que desejava novamente, a garotinha jogou a cabeça para o lado, recostando a bochecha no ombro, e sorriu como quem queria dizer, mas faltou uma dose de coragem: ‘sim, eu comi, mas quero comer de novo’. Depois de ganhar um pedaço, a menina com penteado afro voltou a se distrair com as companheiras de abrigo. Mais tarde, a mãe explicou que a adaptação da família à comida brasileira não está sendo fácil. Ela confessou achar estranho arroz e feijão todo dia e contou que Delfina, 1 ano, passou a primeira semana inteira de Brasil sem comer nada, apenas se alimentando de leite materno. E são justamente as frutas, segundo a mãe de Ester, o tipo de alimento que mais tem agradado seus filhos.
E é este o desafio mais urgente da família de Ester. Com quatro filhos pequenos e sem creche, Rosina não tem como sair para procurar emprego. Sem trabalho, não entra dinheiro para sustentar os filhos e muito menos uma moradia. Cada caso é avaliado individualmente pela equipe da Casa do Migrante, mas é sabido, por exemplo, de histórias de mulheres nas mesmas condições de Rosina que tiveram que deixar locais que acolhem refugiados para viver em abrigo da prefeitura, algo que não é desejado por nenhuma família com criança.
Assistente social e coordenadora do Programa de Atendimento de Refugiadas da Cáritas Arquidiocesana do Rio de Janeiro, Aline Tuller diz que a situação para as mulheres refugiadas que chegam ao Brasil sem os companheiros, mas com filhos menores de 6 anos, é a mais delicada. “É quase impossível conseguir vaga em creche. O que fazemos é tentar encaminhar essas famílias para outros programas sociais do governo, como por exemplo, o Bolsa Família”, diz. Ela lembra que o refugiado tem acesso às políticas públicas com as mesmas garantias dos brasileiros. “O ideal é que a família construa o caminho para a autossuficiência. Financeiramente falando, a adaptação dos pais favorece a adaptação dos filhos”, acredita.
Rosina é uma mulher inteligente e bem articulada. Ela aceita conversar, mas se recusa a ser fotografada: “é perigoso dar rosto para essa história”. Ela conta que estava na igreja quando foi convidada a pregar às outras mulheres que estavam no templo religioso que frequentava. “Eu preguei a igualdade. Queria acordar as outras mamães sobre a riqueza do nosso país que não é usufruída pela maioria das pessoas. Sim, a Angola é um país rico, mas na África não temos a democracia”, inicia o relato para explicar a razão de ter sido obrigada a deixar seu país.
O filho mais velho, Efraim, já está matriculado em uma escola pública da capital paulista. Sem creche, os irmãos Ester e Daniel Amado passam o dia em brincadeiras com outras crianças pelo espaço coletivo da Casa do Migrante. A caçula Delfina já anda, mas fica ainda muito tempo nos braços da mãe. Foi assim durante quase toda a entrevista. Ester se revezava nas brincadeiras e o esforço para entender o interesse que a mãe despertava na interlocutora. Ao ouvir o nome do pai, colocou-se entre mim e a mãe e não saiu mais. Rosina já havia dito que a filha do meio era a que estava com mais dificuldade em aceitar a mudança de vida.
No tempo em que ficou sequestrada, os outros três filhos ficaram com uma prima. Rosina foi reticente e demonstrou apreensão ao explicar por que o marido não veio. “Estava tudo certo para que viéssemos todos”, disse. Há mais ou menos um mês, ela disse que telefonou para o irmão do pai de seus filhos na tentativa de conseguir alguma notícia. “Ele não está em Luanda, mas está na província”, foi o que conseguiu de resposta. Rosina tinha uma banca na cidade que vendia de tudo: “coisas de comer e de beleza”, conta. O companheiro trabalhava como mecânico e ela não sabe sequer se algum dia vai reencontrá-lo. A mãe de Ester afirma que o marido sabe que ela está em São Paulo.
Para recomeçar a vida no Brasil, país em que ela “sonhava vir passeando”, precisa conseguir vagas em creches públicas para seus três filhos e um emprego. “Fizemos o cadastro. A fila de espera nas creches varia entre 60 e 50 pessoas”, relata. Na semana em que conversou com o Saúde Plena, a mãe de Efraim, Ester, Amado e Delfina faria um teste como faxineira e voluntários da Casa do Migrante cuidariam de seus três filhos durante a ausência dela.
Rosina é categórica sobre o retorno a Angola: “Esse governo que está lá vai sair e voltarei à minha terra”. A esperança que carrega no peito não é usada como consolo para lidar com o descontentamento de Ester. “Quero voltar a morar com o meu pai”, diz a menina. A mãe responde: “Se a gente voltar, vão me matar e vocês vão me perder. Um dia papai vai vir para cá”.
A família não trouxe fotos, brinquedos ou qualquer objeto pessoal. “Fiz uma malinha com quatro roupas de cada um, mas a gente tem recebido doações”, conta Rosina. Toda a família passou por atendimento médico quando chegou ao Brasil e o cartão de vacinas de cada criança foi atualizado. Tuller diz que muitos refugiados chegam ao país com malária e que a anemia falciforme é muito comum na população negra. “As crianças recebem toda a vacinação porque a escola exige e as mães muitas vezes não sabem ou não conseguem dizer com quais doenças ou vírus os filhos tiveram contato”, explica.
Francisco Efraim, o filho mais velho que já está na escola, tem demonstrado, segundo a mãe, sinais de adaptação. “Uma menina da sala deu para ele uma foto do Ben 10. Quando ele retornou da escola, me perguntou: - Você acha que ela me gosta?”, relata Rosina, que respondeu “sim” ao primogênito.
Criança brincando é criança saudável?
Presidente da Federação Latino-Americana de Psiquiatria da Infância e da Adolescência (Flapia), Ana Christina Mageste afirma que, do ponto de vista psiquiátrico, ter que fugir de um país para garantir a vida pode desencadear o transtorno de estresse pós-traumático (TEPT). “Muitas vezes, as crianças se calam e fingem que não está acontecendo nada, mas podem apresentar distúrbio de sono e dificuldade de relacionamento”, explica.
A psiquiatra alerta que uma criança que brinca e gasta energia não necessariamente está sinalizando que está tudo bem. “É particular da infância a capacidade de se desligar do mundo interno e se comunicar com o mundo externo através do lúdico. A criança brinca porque não tem outra coisa para fazer e muitas vezes o adulto acredita que, se ela está brincando, é porque está feliz. Mas a brincadeira para a criança é quase uma coisa automática. O brinquedo é também uma maneira de a criança se isolar”, explica. Por outro lado, segundo a especialista, é nesse momento de suposta descontração que a criança manifesta sintomas e insatisfações e o olhar atento de um adulto pode ajudar a descobrir o que ela sente.
Enquanto alguns meninos e meninas apresentam sintomas mais explícitos de trauma e dificuldades ao novo contexto, outros impressionam pela força emocional e capacidade de inserção à nova realidade, como parece ser o caso de Yazdan, o garoto iraniano de 8 anos que você conheceu na segunda reportagem da série ‘Crianças refugiadas: o desafio do recomeço’. Os especialistas ressaltam, entretanto, que sinais em princípio positivos podem estar relacionados a um amadurecimento precoce, inclusive para dar suporte aos pais, às vezes ainda mais fragilizados. A consequência disso é a necessidade de manter ativa uma rede de suporte no médio e longo prazo, realidade hoje distante no cenário brasileiro.