O cirurgião brasileiro Gerd Schreen despertou para o assunto ao identificar a plagiocefalia posicional na filha mais nova, hoje com 9 anos. Em 2005, quando ela tinha apenas 4 meses, o pai do médico percebeu que havia uma assimetria no crânio da menina. Apesar de ter recebido um diagnóstico correto inicialmente, Schreen descobriu que o problema era praticamente desconhecido no Brasil e o acesso ao tratamento era muito difícil. “Eu, mesmo sendo médico, nunca tinha ouvido falar. Mas a condição é muito mais frequente do que se imagina”, explica.
Nos Estados Unidos, as estatísticas indicam que a assimetria craniana atinja 13% das crianças. No Brasil, os levantamentos ainda estão sendo feitos. “Eu ouvia dos amigos, de pediatras e de neurologistas que 'depois o cabelo cresce', 'melhor se conformar'. Para mim, como pai, isso não era suficiente”, define Schreen, que resolveu viajar para os EUA e conhecer o tratamento oferecido lá.
Além dos capacetinhos mostrados na matéria anterior – o nome técnico para o equipamento é órtese – o médico explica que a terapia inclui a revisão e exames a cada 15 dias. Por isso, ele se mudou com a família – a filha mais velha, que tinha 2 anos à época, a esposa e a sogra - para os Estados Unidos. Não satisfeito com essa situação, estudou para se tornar especialista em assimetria craniana de bebês – curso que não existe no Brasil – e, na volta ao país, fundou a Cranial Care, instituição que já atendeu cerca de 600 crianças.
Tratamento
Em muitos casos, basta um reposicionamento da criança em sua rotina para driblar o torcicolo congênito, estimular o bebê a olhar para outras direções e fortalecer os músculos do pescoço, de preferência até os 5 meses de vida. Essas medidas podem ser suficientes para que o crânio volte ao formato normal. Já nos casos em que a assimetria permanece, pode haver a indicação da órtese.
Segundo Gerd Schreen, a cabeça do bebê é escaneada a laser - há alguns anos, era necessário um molde de gesso, o que foi superado com a tecnologia - e o capacete, única parte do tratamento que não é feita no Brasil, é encomendado. Em cerca de duas semanas o equipamento chega ao consultório para que sejam feitos os ajustes. “A órtese é feita com um polímero moldável, ou seja, é firme, mas elástico. Não aperta a cabeça da criança. Na medida em que o pequeno paciente cresce, vamos realizando modificações para garantir a adaptação adequada”, explica o médico.
Consequências
O deslocamento da articulação temporomandibular (ATM), por exemplo, pode causar diferença de posição na arcada dentária inferior, afetando a oclusão dentária (mordida) e provocando a já conhecida dor da ATM. “A mudança na posição de uma das órbitas, por sua vez, traz mudanças no campo visual. No caso do conduto auditivo, o deslocamento prejudica a autolimpeza do canal, favorecendo as otites de repetição", alerta o especialista brasileiro.
Mas um dos problemas mais graves da plagiocefalia posicional relaciona-se aos traumas psicológicos. “Pesquisas realizadas nos Estados Unidos observaram que as crianças com assimetria não-tratada tinham desempenho escolar pior que o dos colegas. Só que isso não se devia à deficiência intelectual, uma vez que o QI e demais testes indicaram o mesmo nível entre os dois grupos. A razão era o bullying, a baixa autoestima. Os prejuízos ao desenvolvimento psicossocial levaram aos prejuízos escolares”, explica Schreen.
Tempo é importante; dinheiro também
De acordo com o médico brasileiro, o tempo que se leva para iniciar correção da assimetria é muito importante. “É preciso agir naquele período de crescimento rápido da cabeça do bebê, que vai até os 18, no máximo 20 meses de vida. Mas o ideal é atuar entre os 3 e 6 meses, quando as chances de uma boa evolução apenas com o reposicionamento e a eliminação do apoio viciado, sem a necessidade de órtese, são grandes”, explica.
Schreen lamenta a falta de informação. "Nas palestras e aulas que ministro, minha primeira orientação é preventiva: digo que vou ensinar a não precisar dos meus serviços. As dicas para evitar a assimetria precisam ser mais bem divulgadas”, pondera.
Ele lembra que um diagnóstico precoce pode tornar a solução do problema bem mais simples e menos onerosa. “Não podemos perder a janela de tratamento, que é a fase de crescimento rápido da cabecinha da criança”, reforça o especialista. O cirurgião conta que, após concluir o tratamento da filha, a sensação era de poder proporcionar uma infância e adolescência saudável para a menina. A partir de então, ele passou a trabalhar para ampliar o conhecimento sobre essa condição no Brasil.