Saúde

Criança desiste de tratamento contra o câncer e comove internautas; entenda o que é o neuroblastoma

Reece Puddington, de 11 anos, descobriu a doença em 2008. Após os resultados dos últimos exames optou por "ficar em casa e deixar a natureza seguir seu curso". A incidência anual desse tipo de tumor varia entre 7 e 12 casos por milhão de crianças até 15 anos, alcançando em torno de 7,3 casos/milhão no Brasil. Causas ainda não são conclusivas

Valéria Mendes

Essa imagem foi publicada em 23 de abril de 2013 com a legenda: "Eu amo ser capaz de desfrutar de um passeio de bicicleta em uma bela tarde ensolarada como hoje"
“Minha mãe sempre esperou, nos últimos 5-6 anos, o momento em que precisaria ter coragem para entender que “basta” significasse “basta”. Após cuidadosa consideração, ela percebeu que, se fosse por ela, continuaria a me levar para o tratamento e não me deixaria ir, mas se fosse por mim, ela me deixaria partir. Bem, ela está me deixando ir”. Essa é a tradução de um trecho do texto que Reece Puddington, 11 anos, publicou em seu perfil no Facebook na última semana. Intitulado ‘The beginning of the end’ (ou ‘O começo do fim’), o objetivo era dizer aos seus mais de 24 mil seguidores que abandonaria o tratamento contra um câncer. Há seis, o garoto inglês luta contra um neuroblastoma, um tumor raro. “Representa de 8% a 10% de todos os cânceres em crianças menores de 15 anos e a mais de 50% das neoplasias malignas. A incidência anual varia entre 7 e 12 casos por milhão de crianças até 15 anos, alcançando em torno de 7,3 casos/milhão no Brasil”, explica o coordenador do Serviço de Oncologia do Hospital das Clínicas da UFMG, do Centro de Oncologia Hospital Lifecenter e do Centro Avançado de Tratamento Oncológico (CENANTRON), professor André Márcio Murad. Ainda não existe uma conclusão da causa desse tipo de câncer, mas alguns fatores estão sendo investigados (veja ao final da matéria)


Desde 2009, Reece mantém – com a ajuda da mãe - a página para documentar sua batalha contra a doença que se manifestou no ano anterior. O estudante também administra uma conta no Twitter. A mensagem que comoveu o mundo e foi repercutida em vários sites tem mais de 700 compartilhamentos até agora. Entre os comentários, manifestações de admiração e tristeza se destacam. Uma brasileira escreveu: “Mantenha-se forte, querido Reece. Você é um garoto corajoso. Não desista de ser feliz, a vida pode nos trazer surpresas que nem podemos imaginar. Deus abençoe você e sua família. Desejo-lhe amor, paz e fé! Abraços do Brasil!”.

Brasileira manda recado para Reece


“Eu poderia optar por outra avaliação médica, mas isso significaria viajar para o hospital e lidar com os efeitos colaterais das medicações (...) ou poderia simplesmente não fazer nada, ficar em casa e deixar a natureza seguir seu curso”, escreveu o menino na rede social. A decisão teria vindo após Reece receber os resultados dos últimos exames.

Em seu último post no Facebook, o garoto começou com um “olá” aos novos seguidores, em especial aos brasileiros. Ele afirmou estar muito comovido com os comentários e pediu paciência para responder a todos. Em outro, afirmou que a situação atual de sua saúde ganhou muita atenção da mídia, mas que agora quer dedicar tempo para a família.

O que é
André Márcio Murad esclarece que o neuroblasma é um tumor sólido comum no tecido nervoso do pescoço, tórax, abdômen ou pélvis. Também aparece nos tecidos da glândula suprarrenal. Aproximadamente 97% dos neuroblastomas são malignidades embrionárias do sistema nervoso simpático que ocorrem quase exclusivamente em recém-nascidos e crianças muito novas. Por isso, é mais comum na infância, com uma incidência duas vezes maior do que a leucemia. Dois terços das crianças com neuroblastoma são diagnosticadas antes dos cinco anos de idade. Muitas vezes o neuroblastoma já está presente por ocasião do nascimento e em muitos casos, quando diagnosticado, já produziu metástase para os linfonodos, fígado, pulmões, ossos e medula óssea.

Essa é a foto do perfil de Reece Puddington, 11 anos, na rede social

Sintomas
“Os sintomas mais comuns resultam da pressão do tumor: olhos estufados e olheiras são comuns, quando o câncer se espalha atrás dos olhos. O neuroblastoma pode pressionar a coluna, causando até paralisia. Febre, anemia e pressão também estão presentes. Raramente aparecem diarreia violenta, movimentos musculares irregulares e não coordenados ou movimento ocular descontrolado”, aponta André Márcio Murad.

Tratamento
O oncologista diz que o tratamento depende da idade do paciente, localização do tumor, estágio da doença por ocasião do diagnóstico, biologia do tumor, além de outros fatores. No geral, são quatro tipos de tratamento: cirurgia, radioterapia, quimioterapia ou transplante de medula óssea. Esse último procedimento pode ser necessário para substituir o tecido danificado pela radioterapia ou quimioterapia. A medula óssea utilizada no transplante pode ser do próprio paciente.

Causas
Como a maioria acontece em recém-nascidos ou crianças novas, de acordo com o oncologista, uma maior investigação é necessária sobre os eventos que ocorrem antes da concepção ou durante gestação. Existem vários fatores sendo estudados, mas nenhuma causa definida com comprovação cientifica. O especialista cita alguns:

  • Medicações: dois estudos registraram um aumento de risco quando mães usaram medicações durante a gestação, tais como: anfetaminas, diuréticos, tranquilizantes e relaxantes musculares ou medicação para infecção vaginal;

  • Hormônios: dois estudos registraram um aumento de risco associado a utilização de hormônios, um deles indicando um aumento 10 vezes maior;

  • Características do feto ao nascer: um estudo indicou um aumento de risco associado ao baixo peso ao nascer e um efeito protetor para parto antes do tempo;

  • Anomalias congênitas: uma variedade de anomalias tem sido registrada ocorrendo juntamente com neuroblastoma, em um número pequeno de casos, mas nenhum padrão consistente foi observado;

  • Aborto espontâneo prévio ou morte fetal: o aborto espontâneo prévio foi associado com um aumento de risco em um estudo, mas resultados de um segundo estudo mostrou justamente o contrário;

  • Uso de produtos de fumo: estudos recentes associam a utilização de fumo durante a gestação e o risco do neuroblastoma no feto, mas a associação é fraca;

  • Exposição ocupacional paterna: três estudos relataram resultados conflitantes sobre o risco associado à ocupação paterna nas áreas de eletrônica, agricultura e o empacotamento e distribuição de certos materiais. Os agentes considerados foram campos eletromagnéticos, pesticidas, hidrocarbonetos, poeiras, borracha, tinta e radiação.


Na semana passada, o inglês de 11 anos anunciou que abandonaria o tratamento