A estratégia segue a mesma ideia de prevenção emergencial contra a infecção pelo HIV, chamada de profilaxia pós-exposição (PEP), que já é realizada no país. A técnica é voltada principalmente aos agentes de saúde que foram expostos ao vírus de forma acidental, mas também atende casos de falha nas medidas de prevenção após relações sexuais. Nesse caso, doses do coquetel de medicamentos usado para combater a infecção em pessoas já diagnosticadas precisam ser ministradas até 72 horas após a exposição e por cerca de 28 dias. Dessa forma, o vírus é combatido no instante em que entra na corrente sanguínea do indivíduo, impedindo que ele se instale definitivamente.
“Nos últimos três anos, há uma série de descobertas da ciência a fim de impedir a transmissão do vírus da Aids. Precisamos de coisas novas para impactar a epidemia, quebrar a estabilidade para baixo”, avalia o diretor do Departamento de Aids do Ministério da Saúde, Fábio Mesquita. “Até então, fazíamos a prevenção clássica, mas contar com a camisinha, por exemplo, tem um limite, porque depende do comportamento humano. Em algum momento, a pessoa pode não usar o preservativo, embora ela consiga até certo ponto impactar a epidemia e estabilizar”, completou o diretor.
De acordo com Mesquita, a evidência científica mostra que a PEP funciona. O método de prevenção já faz parte das estratégias de combate à infecção pelo HIV em diversas partes do mundo, como os Estados Unidos e a Tailândia. Nos dois países, a combinação de antirretrovirais usada é tenofovir e emtricitabine, comercialmente conhecida como Truvada. Essa também será a combinação usada no Brasil, porém sob outro nome comercial, já que a produção do remédio é nacional.
O diretor reforça que o objetivo do novo estudo é testar a possibilidade de implementar a medida em um serviço de saúde como o brasileiro. A pesquisa demorará cerca de três anos para ser concluída, mas, durante o primeiro ano e meio, será conduzida apenas no estado da Região Sul. Mesquita também planeja a ampliação da oferta da profilaxia pós-exposição para a atenção básica.
Tratamento
Hoje, 313 mil pessoas com Aids fazem tratamento com medicamentos antirretrovirais no Sistema Único de Saúde (SUS). Segundo o boletim divulgado pelo Ministério da Saúde, o coeficiente de mortalidade da doença caiu de 6,4 em 2003 para 5,5 em 2012. A letalidade é maior entre homens, que representam 71,6% do total de casos fatais. Vice-presidente da organização não governamental Amigos da Vida, Angelo Guimarães Della Cro Ce, 47 anos, convive com a doença há 13. A ONG promoveu no último domingo a corrida “Vivendo a Vida”, da qual participaram pelo menos 700 pessoas em Brasília.
Terapia ampliada
Como forma de aumentar o acesso ao tratamento da infecção pelo HIV, o coquetel de medicamentos para a Aids será ofertado no Sistema Único de Saúde (SUS) a todas as pessoas que tiverem o diagnóstico da infecção pelo vírus, mesmo que não manifestem a doença. Antes, os antirretrovirais só eram oferecidos quando a contagem das células de defesa CD4 — que indicam o grau de evolução da doença no organismo — ficavam abaixo de 500/mm³.
A ampliação começa a valer a partir de hoje. O governo espera que mais 100 mil pacientes infectados pelo HIV tenham acesso ao tratamento. Hoje, somente outros dois países — França e Estados Unidos — ofertam os medicamentos para a doença como começará a fazer o Brasil.
A medida foi anunciada ontem pelo Ministério da Saúde, que também lançou uma campanha para que a população faça exames para identificar a infecção. A partir de 2014, um teste rápido para diagnosticar a presença do HIV no organismo será vendido nas farmácias do país e oferecido no SUS. Desenvolvido pela Fiocruz, o exame é capaz de detectar a infecção pela saliva.
A presidente Dilma Rousseff usou o Twitter para chamar a atenção para as medidas anunciadas. “Vários estudos demonstram que o uso precoce de antirretrovirais reduz em 96% a taxa de transmissão do HIV”, escreveu a presidente, que complementou todas as mensagens com a hashtag #façaoteste.