Saúde

Conheça as histórias de Maurício e Francisco, que lidam com a revelação da sexualidade de forma diferente

O primeiro criou até um blog para contar sua experiência. O segundo prefere manter o anonimato

Nas lembranças mais antigas do fotógrafo Maurício Coutinho, 47 anos, está uma revista com homens despidos debaixo da cama da empregada e a necessidade de eles ganharem, todas as noites, um beijo. Ele tinha 8 anos de idade e não sabia o porquê daquela sensação. Mas ele precisava fazer e, como não falava aquilo para ninguém, acreditava que poderia viver com esse segredo pelo resto da vida.

Sua primeira experiência homossexual foi aos 14 anos e o fez sentir nojo de si mesmo. Mas o desejo sempre voltava. “Eu namorava meninas, mas não parava de ficar com meninos. Chegava até mesmo a beber para conseguir criar coragem.” Na sua cabeça, o que sentia por homens era apenas sexual e, quando conhecesse a mulher certa, aquela vontade cessaria. “Eu me apaixonei pela minha ex-mulher. Achava que era bissexual e que, com ela, não ia mais precisar ficar com outros homens.”


Ao morar nos EUA, começou a ver a forma como os homossexuais lutavam pelos seus direitos. “Foi quando comecei a me questionar: por que não ter orgulho do que sinto? Por que não viver o que sinto?” Algumas experiências, mais outros anos de angústia e Maurício entendeu que toda sua negação era inútil: ele era gay. Terminou o casamento e, em 15 dias, estava apaixonado pelo seu primeiro namorado. “Eu tinha 30 anos e ele 18. Eu me sentia um idiota: como alguém tão jovem tinha tanta certeza de si e eu ainda sentia tanto medo?”

Nessa época, seu filho estava com 8 anos e o questionou sobre a forma como a mãe falava. Maurício, então, perguntou: “Sua mãe acha que sou gay. E se eu fosse?”. Ao ouvir do filho que isso não seria um problema, se abriu. “A resposta dele me surpreendeu: ‘Eu só tenho medo de alguém te sacanear’. Naquele momento, ele pensou em mim.”

'Por que não ter orgulho do que sinto? Por que não viver o que sinto?' Maurício Coutinho
Daí, seguiu-se uma conversa mais franca, na qual o garoto sanou dúvidas e Maurício assegurou que a dinâmica de uma relação heterossexual era idêntica a de uma homossexual. Feliz com a forma como ele lidou, Maurício ligou para o namorado que tinha à época, contando como tudo havia saído bem. Ao terminar a ligação, foi interpelado: “Pai, por que o senhor não mandou um beijo para ele? Se você diz que as relações são iguais, tem que mandar um beijo quando se despede”.

“Tive que ligar de novo só para mandar esse beijo”, lembra Maurício. O fotógrafo garante que não há diferença alguma entre um pai heterossexual e outro homossexual, e essa é a maior prova de que a sexualidade não é uma característica que vai ser passada pela forma como a criança é educada. “Até porque há milhões de filhos de heterossexuais que são homossexuais.” O que é preciso, na opinião dele, é que se cesse o discurso de que pais gays terão filhos gays. No caso dele, a sua sexualidade acabou criando um mito entre os amigos do filho.

“Quando eles chegavam aqui, já se apresentavam e diziam o quanto queriam me conhecer, porque eles gostam do que é diferente. Meu filho nunca teve vergonha.” Com o tempo que levou para se encontrar, com a reação do seu filho à sua história e com a relação boa que se manteve entre eles, Maurício tinha histórias e opiniões suficientes para escrever sobre a própria vida. E foi disso que surgiu o blog Papai Gay (www.papaigay.com). De um primeiro post em que ele conta como foi sair do armário para o filho, Maurício começou a perceber a quantidade de homens que passam pelo mesmo dilema. “Ele era fechado e eu o abri, justamente, para ajudar outros pais. Era algo nosso que se tornou maior.”

Francisco prefere não se identificar. A culpa antes e durante o casamento era constante

Foram 33 anos de casado. Em uma Brasília ainda sob a mão pesada da ditadura militar, a homossexualidade era invisível e indizível. Pelo menos para o empresário Francisco (nome fictício), 60 anos, era assim. “Desde pequeno, sei que sou homossexual. Aos 15 anos, meu pai faleceu, eu me tornei arrimo de família e esse pensamento saiu da minha cabeça. Aos 21, conheci minha ex-mulher e, durante todo o tempo em que estivemos casados, não tive nenhuma outra relação.”

A culpa era constante, claro. Francisco chorava muito, ainda mais quando precisava se envolver demais no trabalho, que o fazia ter contato com muitos homens. O sofrimento diário foi consumindo toda sua vontade de viver e foi quando se deu conta de que precisava se aceitar. E, dessa forma, explicar aos filhos quem ele era de verdade. Entretanto, ele não pôde escolher o momento. Durante uma reunião familiar, uma discussão aleatória resultou na sua confissão. Ao ser interpelado por um parente sobre a sua sexualidade, Francisco lembrou todos os seus anos preso a uma verdade heterossexual e disse, a plenos pulmões: “Sim, sou gay”.

“Foi o dia mais difícil da minha vida. Eu já tinha dito para mim mesmo que era gay, mas ali foi quando pus isso para os meus filhos. A reação deles foi ruim, violenta. Não conseguiam entender.” O processo foi lento, digerido aos poucos. O empresário começou a, de fato, viver as experiências das quais se afastou durante todos os anos anteriores. Hoje, mantém um relacionamento com um homem mais novo. Na família, o tema continua velado. “Eles me perguntam se está tudo bem na minha relação e só.”

Francisco acredita que isso se deve ao fato que é mais fácil para o pai aceitar um filho gay. “Sempre tive uma relação muito boa com eles. Mas os criei dentro de uma ideia de moralidade que interferiu no julgamento deles em relação à sexualidade dos outros. Porque eu nasci em uma sociedade que não admite o gay.” Os filhos continuam a trabalhar com o pai, mas há um distanciamento. Francisco garante ter feito sua parte como figura paterna, oferecendo as melhores escolas, o carinho, e isso, assegura, não tem relação alguma com sua sexualidade. Mas, confessa, reforçou comportamentos homofóbicos na tentativa de esconder a própria sexualidade e isso pode ter influenciado no momento em que eles souberam de tudo. “Mesmo assim, estamos bem. Lembro que, depois daquela primeira reação violenta, eles me olharam e disseram: ‘Pai, seja feliz’.”

Com sua mudança de visão do que é um homossexual, Francisco hoje trata o assunto de forma mais natural e isso permite que sua neta possa perguntar por aquele tio que sempre está junto dele. “Ela sempre questiona e quer saber se está tudo bem. Assim, posso ser um pai e um avô mais sincero, mais livre e com mais certeza do que sou e do que gosto. Ainda há muitos homens vivendo uma mentira e isso só traz sofrimento.”