Saúde

Indivíduos genuinamente gentis têm mais saúde psicofísica do que aqueles que têm apenas atitudes esporádicas

Quem apenas assume um papel gentil, como no Natal e réveillon, especialista enfatiza que a tentativa vai acabar nas conhecidas brigas e desentendimentos familiares típicos das comemorações e reuniões de fim de ano

Lilian Monteiro

Não é possível mascarar a gentileza. Fingir ser gentil. As pessoas podem até aplicar artimanhas para passar a imagem de agradáveis, aprazíveis e delicadas, mas não a sustentarão por muito tempo. Vão se revelar como realmente são. O médico e psicanalista Geraldo Caldeira explica a diferença entre quem é gentil e aquele que se comporta como tal, seja em determinadas situações ou épocas do ano. “Os gentis demonstram estado de humor adequado, alegria de viver e gostam de si mesmos. São pessoas que têm as necessidades básicas mais ou menos preenchidas, já que totalmente não existe porque o ser humano é um ser faltoso. Aliás, esse é o eterno preço a pagar por ter dado um salto na natureza, ter se separado do animal para se transformar num ser dependente da função mãe.”


Geraldo Caldeira, médico e psicanalista, diz que os gentis demonstram estado de humor adequado, alegria de viver e gostam de si mesmo
Geraldo Caldeira assegura que o indivíduo, quando tem caráter gentil, demonstra a gentileza na adversidade e, teoricamente, tem um modelo de saúde existencial (psicofísica) melhor, mais saudável. Ou seja, não vai tomar um monte de remédios, estar na sala do psiquiatra ou na fila para operar. Óbvio, dentro da normalidade. “Temos permanentemente três sistemas em equilíbrio. O sistema nervoso central , que faz parte do límbico, tem vários núcleos geradores das emoções, que o tempo todo estão em articulação e atuantes com o sistema imunitário (defesa do organismo) e o endócrino (produção de hormônios). Um influencia o outro e o que mantém o equilíbrio é o bom humor, que tem de passar pelo bom amor e pela gentileza. Por isso, quem é gentil tem saúde psicofísica muito boa.” O psicanalista enfatiza que a pessoa gentil transmite ao outro o reconhecimento de que ele é um ser significativo, bom e que merece atenção.

Já quem apenas assume um papel gentil, como no Natal e réveillon, Geraldo Caldeira enfatiza que a tentativa vai acabar nas conhecidas brigas e desentendimentos familiares típicos das comemorações e reuniões de fim de ano. “O gentil esporádico traz a esses encontros a hostilidade do ano, de viver às turras, e será mais comum ter atritos nesses festejos. Tudo aborrece quem não é gentil. Ser social, dar presentes e desejar boas-festas vão soar vazio. É a gentileza ilusória. Repetição. Se não é, melhor não fazer porque a expressão falsa vai se mostrar o contrário, e com frequência.”

DESARMA
Aposentada depois de mais de três décadas de atuação, a psiquiatra Mary Ávila Abrahão Reis é mestre ao interpretar e praticar a gentileza. Ela ensina que “nas emergências as pessoas têm dificuldade de ser gentis por causa de uma necessidade imediata. Ao levar meu filho à escola pela manhã, o horário, o trânsito, o ímpeto é furar tudo. Mas é nessa hora que tenho de ser gentil. É difícil e é um exercício.” Ela lembra que somos postos à prova a todo momento. “É preciso exercitar. Acredito que as pessoas querem ser gentis, mas muitas vezes não se controlam diante da sua urgência.”

"Nas emergências as pessoas têm dificuldade de ser gentis por causa de uma necessidade imediata" - Mary Ávila Abrahão Reis, psiquiatra
Observadora, Mary conta que é casada com um homem extremamente gentil, Luiz Fernando Abrahão Reis, o que a deixa encantada e a faz exercer ainda mais sua gentileza. “Quando eu não dirigia, observava como ele era atencioso no trânsito ao dar passagem e ceder a vez a outros carros. Acho também que a maturidade me deu capacidade de perceber ser gentil. A juventude não deixa, as emergências são prioridades. Com os anos, pude me dedicar mais.” Mas Mary assegura que gentileza se ensina. “Além do meu marido, meus filhos, adolescentes, Marina e Guilherme, têm atitudes gentis porque têm exemplos. E confesso que, por ser do interior, onde o dia tem 16 horas e não 10 como na capital, a pessoa nasce e vive gentil.”

Mary concorda que, infelizmente, justo no fim do ano a gentileza some das relações ou fica escassa. “É triste. A pessoa corre para confraternizar, mas antes de chegar perde todas as chances de ser gentil. Vai buzinar, xingar, reclamar… É preciso ser gentil na vida e não só com data e hora marcadas. É gostoso, agradável e tão bom.” Ela conta que outro dia estava no supermercado com a sogra e percebeu uma senhora com dificuldades para colocar as compras na sacola. “Fui ajudá-la e ela se assustou, disse que não precisava. Mas aceitou. Quis levá-la até o carro, mas não deixou. Então, recuei. Outra situação é dar lugar a alguém no ônibus e receber olhares como se tivesse feito algo absurdo. A falta de prática assusta as pessoas, tanto para quem recebe ou observa a gentileza. Não deveria ser assim.”

Para Mary, a gentileza também tem a ver com educação. “Por respeito, dedicação e carinho, chamo os mais velhos por senhor e senhora. Mas, às vezes, me olham e sinto que soa como indelicadeza.” Nas percepções da psiquiatra, ela conta que notou que quando a gentileza é exercida num ambiente ou situação de tensão ou estresse “desarma as pessoas”. Por isso, ela a vê também como “generosidade, de não julgar ninguém e continuar sendo gentil”. E, ainda, que “a gentileza está presente na palavra, no ato de ligar para alguém que passa por um momento difícil para conversar.” Mary ensina que nada a impede de praticar a gentileza. “Ser gentil é fazer o bem com o outro e para você também. Gentileza é a disponibilidade que existe para a vida.”

Mary Ávila, psiquiatra aposentada
Concurso estimula valores da gentileza
Você cumprimentou seu vizinho hoje de manhã? Desejou bom-dia ao porteiro ao cruzar com ele no saguão? Se respondeu positivamente, você está fazendo bem a sua saúde e a das pessoas que o cercam com ações gentis. Para premiá-lo, a Associação dos Empregados da Copasa (Aeco) promove, com apoio institucional da Copasa, o 3º Concurso de Redação e Desenho voltado para crianças e adolescentes. Das 527 redações e desenhos recebidos foram selecionados 120 por uma professora de português do Núcleo de Estudos Orientados e por Glauco Moraes, artista da Maison Escola de Artes. Na categoria Desenho, os participantes foram convidados a atender ao subtema “Gentileza urbana – o que podemos fazer para viver em um mundo melhor?”. Os 12 vencedores serão conhecidos nesta segunda.