"Não tenho força de vontade para fazer uma dieta, então era o único caminho", disse à Revista Time a venezuelana Yomaira Jaspe. Suas decisões alimentares são atualmente ditadas por uma atadura de plástico costurada na língua. Aqui no Brasil, a moda ainda não está disseminada como no país vizinho, mas não faltam exemplos de loucuras para emagrecer.
O mais recente foi o de uma blogueira de moda. Ela postou em seu instagram que, ‘por pura vaidade de me pesar hoje e ver que eu emagreci’, tomou vários laxantes e foi parar no hospital. A autora da foto é magra, mas atribuiu o desejo de perder alguns quilos a uma prisão de ventre. Verdade ou não, vale a pena recorrer a procedimentos drásticos e sem garantia de resultados futuros para emagrecer?
Embora a endocrinologista lembre que há casos em que a obesidade e o sobrepeso são ‘efeito colateral’ de outra patologia ou do uso de determinados medicamentos, na imensa maioria das vezes eles são mesmo causados pela má alimentação, sedentarismo e maus hábitos de vida.
Com dieta líquida forçada, o paciente emagrece na maioria dos casos, mas também tem dificuldades de fala e para dormir. O procedimento custa cerca de US $ 2 mil nos Estados Unidos ou apenas US $ 150 em Caracas. Em sua recomendação inicial só pode ser usado por dois meses, no máximo. Depois disso, o material começa a ser incorporado à língua, se não for retirado em tempo – o próprio criador do método, Nikolas Chugay, adverte sobre isso. Mas o risco vai além. “Os implantes na língua, além de dolorosos e incômodos, podem ocasionar lesões graves, com risco de prejuízo na gustação, que faz parte do processo de alimentação”, alerta Amanda.
A médica adverte que, além de não ter nenhum benefício comprovado, a medida proporciona uma associação negativa da alimentação com algo doloroso e sem prazer. “Geralmente esses ‘milagres’ são mantidos por pouco tempo, pois ninguém consegue levar o radicalismo à frente; e o resultado não é positivo. A pessoa, então, entra num ciclo vicioso e vai em busca de novas promessas”, define a especialista. Os próprios usuários do método radical já enxergam isso, como uma tia de Yomaira Jaspe, que também se submeteu à intervenção na língua: “não vai ser fácil quando a atadura for retirada. É muito fácil não comer quando você é impedido fisicamente”, confessa Vilmaris Ojeda, de 40 anos, na entrevista à Time.
A tal redinha é chamada exatamente de ‘miracle patch’ (atadura milagrosa), mas não tem aprovação de órgãos reguladores norte-americanos e brasileiros e traz consigo ainda o risco de infecção e rejeição pelo organismo. Ainda assim, o procedimento é apresentado no site de seu criador como uma ‘inovação’ que permite a perda de até 13 quilos em um mês e é muito mais barata que a cirurgia bariátrica.
Na foto postada em redes sociais, é possível observar comentários de seguidoras da jovem confessando que são ‘viciadas em laxantes’. Como o caso ganhou repercussão, a blogueira apressou-se em minimizar o fato, dizendo, em carta: “à noite veio o resultado e no outro dia fui no hospital porque me senti desidratada. Tomei 2 bolsas de soro, um Dramim e pronto, voltei pra casa. SÓ!”.
Mas não é só. De acordo com Amanda de Souza Silva, esse tipo de ‘saída’ pode trazer graves prejuízos para a saúde da pessoa, não só do ponto de vista orgânico, mas também psicológico. “Quando decidem por esses métodos de urgência, os indivíduos realmente acreditam que encontraram a solução do problema e não medem as consequências. O uso contínuo de laxantes, além de causar uma perda de líquidos importante, não reduz a gordura corporal, que é o principal objetivo do emagrecimento saudável. Há uma falsa sensação de emagrecimento”, explica. “Na verdade, ela perde peso em virtude de desidratação, o que pode ser fatal em determinados casos. Além disso, o hábito pode resultar em caquexia, que é um quadro de desnutrição grave”, alerta.
Além de náuseas e vômitos, o uso de laxantes pode inibir a absorção de nutrientes importantes e gerar fraqueza muscular, hipotensão ortostática (queda da pressão arterial ao levantar) devido à perda de líquidos e também de eletrólitos (substâncias conhecidas como minerais que são importantes para o funcionamento normal das células) pelas fezes.
Veja o visual da moça antes do episódio com os laxantes: Apesar de magra, blogueira optou por laxantes para que a balança acusasse quilos a menos: ilusão
Neste caso específico, cabe uma pergunta: por que pessoas que já são magras optam por negligenciar a saúde em função da vaidade? “As pessoas com este tipo de comportamento estão sempre em busca de um corpo considerado ‘perfeito’, influenciadas pela mídia, revistas, pelo modismo criado que o bonito é ser magro. Acredito que há uma distorção da própria imagem corporal e a saúde é deixada em segundo plano”, define a endocrinologista. “Quem disse que o bonito é ser magro? Vale a pena sacrificar a saúde por uma imagem imposta? O bonito é ser saudável, ter uma alimentação equilibrada, praticar atividade física regular, ter uma boa saúde mental. A busca deve ser por uma vida mais tranquila e com menos estresse”, ensina.
Afinal de contas, existe algum método de emagrecimento rápido? Não. E a obesidade não é um problema apenas estético. Segundo Amanda, o emagrecimento saudável exige mudanças comportamentais e isso deve ser feito de maneira gradual, para que o resultado seja definitivo. “Para pessoas que têm condições de perder peso sem uma intervenção cirúrgica, uma série de modificações nos hábitos de vida, com a supervisão de um profissional habilitado (ou, de forma ideal, de uma equipe multidisciplinar, como médico, nutricionista, educador físico, psicólogo), é o único método confiável para emagrecimento”. A médica deixa ainda aos leitores um princípio valioso, mas esquecido por muitos: “nosso corpo é o resultado de nossas ações e pensamentos. Não há milagres!”. Combinado?