Aurélio Araponga tinha 43 anos quando fechou o livro 'Capitães da areia' sem concluir o último capítulo. Nessa idade, foi surpreendido por um glaucoma que o levou à perda total da visão. Dessa e de outras obras de Jorge Amado, o aposentado guarda apenas fragmentos que a memória vai apagando. Aurélio teve que reaprender a ler com as mãos e aguçar a audição para que os romances do escritor baiano não o abandonassem novamente. Como ele, 6,5 milhões de brasileiros apresentam dificuldade severa para enxergar, segundo dados do censo demográfico realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgado em 2010.
Frequentador assíduo da biblioteca do Centro de Ensino Especial de Deficientes Visuais, na 612 Sul, o aposentado voltou a “ler” novos romances graças a um projeto brasiliense criado neste ano pela escritora e artista Adriana Ribeiro. A página da internet Purpurinar convida leitores voluntários de todo o país a gravar, em voz, poesia, ficção, romances e outros gêneros literários. “O projeto tem esse nome, porque acredito que somos todos poeira no ar, mas, com o voluntariado, viramos purpurina, nos iluminamos ao nos ajudar”, explica Adriana. As obras são disponibilizadas no site para aqueles que, assim como Aurélio, querem saber, do começo ao fim, a história de muitos livros que ainda não foram adaptados para o braile. Para divulgar essa ação, o link de download do audiolivro ou do texto é enviado às entidades de pessoas com deficiência de todo o Brasil.
O funcionário público aposentado Luiz Mourão, de 63 anos, abraçou a ideia e se tornou um voluntário on-line. Acostumado ao formato presencial há 15 anos, desde que saiu do mercado de trabalho para atuar no terceiro setor, Luiz viu na nova ferramenta a possibilidade de ajudar. “Há flexibilidade em termos de tempo e de mobilidade para os voluntários”, destaca. Por enquanto, o aposentado já gravou poesias e orações. “O importante é ajudar de alguma forma e isso me traz felicidade. Pretendo continuar gravando audiolivros e adianto: o benefício é recíproco.”
O músico Daniel Sarkis, de 43 anos, também é voluntário do Purpurinar. Editor das gravações que vão para a página, Daniel nunca havia trabalhado antes como voluntário. A vantagem de poder fazer algo em qualquer horário e lugar do mundo foi o pontapé necessário para que ele compartilhasse o conhecimento como músico nesse projeto. “Esse momento apareceu na minha vida, agora, para que eu visse que nunca é tarde para ser voluntário.”
Para o vice-diretor do Centro de Ensino Especial de Deficientes Visuais, Airton Dutra de Farias, a iniciativa de Adriana e dos outros voluntários do Purpurinar é um convite para que mais pessoas possam aumentar o acesso de deficientes visuais à literatura. Na audioteca do centro, por exemplo, o acervo é pequeno: aproximadamente, 700 audiolivros. Aurélio e outros alunos acham pouco. “Há quem escute o mesmo livro quatro vezes por falta de novas opções”, conta. Para mudar esse cenário, Airton aposta em ações como o Purpurinar. “Acredito que esse projeto seja uma forma de dar acessibilidade e cidadania aos deficientes visuais.”
Como você teve a ideia do projeto Purpurinar? Após a publicação do meu segundo livro, eu senti que estava faltando algo, que não bastaria mais escrever, publicar e ver meu livro na estante. O meu trabalho precisaria alcançar quem não tem acesso fácil à literatura. Sem dispor de muito tempo livre, pois tenho filha, marido, casa sem empregada, arte, pós-graduação e trabalho, tive a ideia de criar CDs com as minhas poesias e de distribuir gratuitamente para grupos de deficientes visuais. Sentei-me em frente ao meu computador, baixei um programa de gravação de voz e, da 0h às 6h, produzi meu primeiro audiolivro. Depois disso, a ideia do site foi automática. Assim, o acesso a esse material seria muito maior. Também imaginei que outras pessoas poderiam se sentir motivadas a ajudar sem sair de casa. O que me motiva é a compaixão, é me colocar no lugar do outro, sair do “meu quadrado”, ver que a vida não gira em torno dos meus próprios pequenos e grandes dramas.
De que forma é feita a curadoria dos áudios? E como fica a questão dos direitos autorais? Nós selecionamos as gravações de acordo com a dicção do voluntário, a qualidade do áudio e o conteúdo, logicamente. Recebemos o material pelo e-mail do projeto, escutamos, fazemos eventuais ajustes e observações aos voluntários e depois de aprovados, inserimos os arquivos no site para download. O uso dos textos é exclusivamente voluntário e não pode ser reproduzido para fins comerciais. Os textos que precisam de liberação de direitos autorais são encaminhados para legalização.
Criado por André Luiz Figueiredo Collier, de 25 anos, estudante de administração, e por Guilherme Basso, de 27, consultor administrativo, em fevereiro de 2012, o instituto busca um maior envolvimento dos jovens na sociedade. “Em 2010, quando houve o terremoto no Haiti, fui lá três vezes para ajudar a construir casas. Fiquei muito tocado com aquela realidade e, quando voltei, queria fazer algo no Brasil. Foi aí que chamei o André para criarmos uma página de crowfunding em prol de ações sociais.” O Fight (Lute) não só faz alusão à emergência de uma ação mas também a lutadores de MMA que, como Wanderley Silva, vestiram a camisa da causa e cederam o direito de imagem para divulgar o projeto.
A ideia de André e Guilherme é de que mais ONGs incluam seus projetos sociais na página para que sejam financiados. O Fight 4 the Poor faz desde a pré-seleção, em que é analisada as viabilidades técnica e financeira do projeto, até o acompanhamento e a execução. “A divulgação maior do nosso trabalho ainda se dá pelas redes sociais. E os seguidores no Facebook não curtem por curtir. Eles querem se informar, trabalhar como voluntários”, observa André.
O instituto atua também em ações sociais nas cidades do DF com outros voluntários que participam presencialmente. E conta com voluntários que trabalham virtualmente na própria Fight 4 The Poor. Caso do estudante de direito Gabriel Abreu Ramos, de 22 anos, responsável pela arte das campanhas, da fanpage e do Instagram. O engenheiro agrônomo Rodrigo Ferraz, 24, dedica tempo e compromisso a ações voluntárias. No instituto, cuida da gestão de projetos. “Não tem preço ver que podemos ajudar creches e escolas que não teriam condições de ter parquinho ou sala de aula.”
Sarados e baladeiros, André, Guilherme, Rodrigo e Gabriel derrubam quaisquer estereótipos. Otimistas, acreditam que mais e mais amigos se unirão a eles como voluntários, principalmente porque o voluntariado on-line ganha mais adeptos em bits e bytes todos os dias.
Sites de crowdfunding Juntos com Você - www.juntos.com.vc Ulule - br.ulule.com Impulso - www.impulso.org.br/pt Bem Feitoria - benfeitoria.com Indiegogo - www.indiegogo.com Fight 4 the Poor - www.f4tp.com.br
Poste uma foto e ajude alguém a comer Na maior rede social de fotografias do mundo, o que não falta é imagem de pratos saborosos de deixar qualquer um salivando. Conscientes desse apelo visual capaz de promover dezenas de curtidas no Instagram, a ONG espanhola Manos Unidas criou o primeiro filtro solidário por 0,89 centavos de euro. A ideia da organização não governamental é que os instagramers possam baixar o aplicativo Food Share Filter para, toda vez que registrarem um almoço, lanche ou jantar, alguém no mundo possa ser alimentado também. Basta fazer o download do app (disponível para iPhones e Androids) e abri-lo. O fitro contorna a imagem, registrada na hora ou da galeria de fotos. Um círculo branco destaca o prato. Abaixo da foto, uma frase: “Esta foto ajuda milhões de pessoas a não passar fome”. Depois, é só publicar no Instagram com a hashtag #foodsharefilter para divulgar a causa entre os seguidores da rede e compartilhá-la em outras mídias sociais para divulgar a ação. Saiba mais no www.foodsharefilter.com.