No caso da escritora Bárbara Ribeiro, o que a motivou a morar fora foi uma bolsa de estudos no exterior. Quando voltou ao Brasil — e para a casa dos pais —, ela já sabia que era a hora de procurar um rumo. A partir daí, morou em todas as “configurações” possíveis: dividiu a casa com amigas, viveu sozinha e, agora, mora com o marido. Suas experiências a inspiraram a escrever o livro Saindo de casa — Independência ou morte! (Editora Lumi, 2010).
Mesmo com tudo na ponta do lápis, ela dá a dica: é melhor deixar sempre uma folga no orçamento para emergências. “Sempre tem uma surpresa. É máquina de lavar que quebra, chuveiro que queima…”, reforça. Bárbara tinha 26 anos quando saiu do “ninho” familiar. Uma das grandes preocupações deles era de que ela não tivesse condições financeiras para comprar um imóvel se fosse morar sozinha. “Aqui no Brasil, há muito esta cultura de continuar na casa dos pais para juntar dinheiro”, explica. “O mais importante é avaliar o que importa para você: passar anos sem viver essas experiências ou pagar por elas em forma de aluguel.”
Aventureira, Bárbara não queria criar raízes em lugar nenhum: queria mesmo viajar. Aos 34 anos, ela diz que a veia exploradora está mais calma. “Viajei bastante, realizei esse sonho por 10 anos. Hoje, moro de aluguel não por filosofia, mas porque o mercado imobiliário está maluco”, brinca.
A arquiteta Monica Nassar, 24 anos, resolveu fazer as duas coisas: comprar um imóvel para sair da casa da mãe. “Queria andar com as minhas próprias pernas.” Aos 22 anos, ela comprou o apartamento. “Achei que era só um investimento, mas consegui comprar exatamente no lugar em que eu queria morar.” Primeiro, a mãe não deu muito crédito aos seus planos. “Passei dois meses reformando e avisei que ia me mudar no fim de semana seguinte.”
Mudança participativa
Tudo bem que o desejo de ter mais liberdade é um dos grandes motes para colocar os planos de sair da casa dos pais em prática, mas, como disse Che Guevara, “há que endurecer-se, mas sem jamais perder a ternura”. Angélica Capelari, professora do curso de psicologia da Universidade Metodista de São Paulo, explica que não há motivos para fazer com que todo o processo seja um sofrimento para os pais. Uma boa maneira de introduzir o assunto, ela ensina, é ir “preparando o terreno” aos poucos. “É importante fazer com que os pais participem, não simplesmente comunicá-los disso.”
A ajuda de pessoas mais experientes como os pais pode ser bem-vinda nesse momento tão cheio de novidades, defende Capelari. “É interessante para o próprio jovem essa participação dos pais, até para situações em que os próprios filhos não podem estar presentes, como a pintura da casa, por exemplo. Isso os ajuda a se sentirem parte do processo.”
Porém, mesmo quando requisitam a ajuda dos mais velhos, alguns filhos enfrentam fortes doses de chantagem emocional. Essas “estratégias” para mudar a opinião dos filhos podem acontecer por diversos motivos, explica Fernanda Machado, presidente da Associação de Terapia Familiar de Goiás (Atfago), mestre em psicologia, terapeuta de casais e de famílias. Assim como o nascimento dos filhos, a saída deles de casa é mais um dos muitos processos naturais de uma família. “Ao longo de todo o ciclo vital da família, o sucesso na resolução de cada etapa vai influenciar a resolução das etapas seguintes”, analisa. “Portanto, a saída dos filhos é mais uma etapa importante e difícil na vida da família, e o preparo dos pais para essa transição vai depender de como foram realizadas as mudanças anteriores.”
Pais que abdicaram de projetos e interesses pessoais para se dedicar exclusivamente aos filhos, por exemplo, tendem a sofrer mais. Para superar esse sofrimento emocional (ou a tão famosa síndrome do ninho vazio), a receita é pegar o caminho contrário: buscar novos interesses e redefinir a relação conjugal. O problema é que, muitas vezes, essa resistência paterna pode ocasionar um sentimento de culpa nos filhos. “Os filhos devem entender que a vida recebida dos pais foi-lhes dada para ser vivida da melhor forma possível”, aconselha Fernanda Machado. “Se a independência resultar em felicidade, automaticamente será convertida em felicidade para os pais também.”