Saúde

Vinho tinto barra o efeito dos exercícios

A constatação foi feita por pesquisadores da Dinamarca após experimento com idosos. Conhecido pelo efeito antienvelhecimento, o antioxidante presente na bebida pode, por exemplo, conter o controle da pressão sanguínea

Bruna Sensêve

A suplementação de resveratrol - o famoso antioxidante encontrado nas uvas vermelhas e, consequentemente, no vinho tinto - pode neutralizar os benefícios do exercício físico em homens mais velhos
Um é pouco, três é demais. O sábio provérbio popular não erra também nos parâmetros de saúde. Pesquisadores dinamarqueses descobriram que a suplementação de resveratrol — o famoso antioxidante encontrado nas uvas vermelhas e, consequentemente, no vinho tinto — pode neutralizar os benefícios do exercício físico em homens mais velhos. A pesquisa publicada no Journal of Physiology sugere que uma dieta rica em antioxidantes pode realmente neutralizar muitos dos benefícios de saúde do exercício, incluindo a redução da pressão sanguínea e do colesterol. O resultado é o oposto de estudos com animais, nos quais o resveratrol melhorou os benefícios cardiovasculares das atividades físicas.


Esse antioxidante tem recebido grande atenção como um possível composto antienvelhecimento e é amplamente disponível comercialmente como um suplemento dietético. Segundo o principal autor do estudo, Lasse Gliemann, o que está surgindo é uma visão de que os antioxidantes não são uma solução para tudo e que algum grau de estresse oxidativo pode ser necessário para que o corpo funcione corretamente. O trabalho de Gliemann sugere que as espécies reativas de oxigênio, geralmente consideradas como causadoras de doenças e envelhecimento, podem ser um sinal necessário que provoca adaptações saudáveis em resposta a estresses biológicos, como exercício físico intenso. O grupo de pesquisa da Universidade de Copenhague convocou 27 homens saudáveis, mas sedentários, com idade em torno de 65 anos.

Durante dois meses, todos os participantes realizaram um treinamento físico intenso com aulas de spinning e crossfit (um tipo de musculação vigorosa e acentuado) semanais. Um grupo, no entanto, recebeu 250mg de resveratrol diariamente, e a outra metade dos participantes, uma pílula placebo, sem princípio ativo. Como o estudo foi feito duplo-cego, pesquisadores e participantes não tinham conhecimento sobre qual suplemento cada indivíduo tomava. “Nós descobrimos que o treinamento foi altamente eficaz para melhorar parâmetros de saúde cardiovascular, mas a suplementação de resveratrol atenuou os efeitos positivos do treinamento sobre vários parâmetros, incluindo pressão arterial, concentrações de lipídios plasmáticos e consumo máximo de oxigênio”, relata Gliemann. Esses dados surpreenderam os pesquisadores, já que contradizem em parte com os resultados encontrados em outros trabalhos com animais.

“Nós esperamos ver ganhos no desempenho e na saúde no grupo placebo, já que o treinamento de alta intensidade tem se mostrado altamente eficaz. O que não esperávamos era que o resveratrol teria um menor aumento nos parâmetros de desempenho e saúde.” A hipótese dos cientistas era de que o complemento de resveratrol teria um efeito positivo no treinamento, com base no conhecimento de que o envelhecimento está associado ao aumento da presença de radicais livres (nocivo para as células, quando em excesso) e à diminuição do sistema antioxidante endógena — que é o sistema antioxidante do próprio corpo, combatendo os radicais livres. “Além disso, os radicais livres são produzidos em excesso, durante uma sessão de exercício. Tomados em conjunto, nossa hipótese era de que ajudar o sistema antioxidante ‘enfraquecido’ no corpo envelhecido iria ajudar o corpo a lidar com o aumento da produção de radicais livres durante o exercício e, assim, melhorar a eficácia de um período de treinamento.”

Clique para ampliar e entender a pesquisa
Moderação
Segundo o coordenador do Núcleo de Estudos em Nutrição do Departamento de Aterosclerose da Sociedade Brasileira de Cardiologia, Daniel Magnoni, na medicina, não é possível apostar em um resultado matemático: quanto mais x e mais y, teremos mais x e mais y. No caso, é preciso considerar uma série de outros fatores. “Duas coisas independentes são boas, a atividade física e os antioxidantes são bons, mas uma alta carga conjunta dos dois não é boa.” O que também, segundo ele, não quer dizer que a interação seja ruim, só não é possível implementar um modelo matemático na análise de fatores de risco. “Tomar 50 ou 100mg de vitamina C por dia faz bem. Tomar 3g vai ser maravilhoso? Não, vai sair tudo na urina. Não é uma poupança nem uma média ponderada. Os dois são bons, mas o excesso de um ou de outro não vai ser muito melhor. Tem um limite. Não são modelos matemáticos, são modelos de bom senso.”

O cardiologista Anselmo Mota, do Hospital do Coração do Brasil, afirma que a pesquisa mostra um ponto de vista contrário à maioria das evidências até hoje com relação ao resveratrol. A associação foi feita ainda na descoberta da substância, que teve como alvo a população francesa, famosa por uma alta ingestão de vinho, especialmente o tinto. Os cientistas perceberam na época uma relação direta do consumo com uma menor incidência de infarto e de eventos cardiovasculares. “Por isso, passaram a estudar mais a população francesa e perceberam que isso poderia estar relacionado a algumas substâncias próprias do vinho. Encontraram no resveratrol algumas propriedades benéficas”, descreve Mota.

Entre essas propriedades, estão alguns efeitos protetores cardiovasculares, como um antiagregante plaquetário, isto é, a capacidade de “afinar” o sangue, ajudando na prevenção cardiovascular. “Ele proporciona um benefício também no perfil do colesterol. O colesterol conhecido como ruim não sofre um efeito tão direto. Pode até abaixar um pouco, mas o efeito principal é no aumento do colesterol bom, o HDL.” Mota alerta que a pesquisa de Gliemann precisa ser levada em consideração, mas com cautela. Isso porque o número de participantes ainda é pequena. “Mas, estatisticamente, ficou comprovado que o resveratrol realmente não tem tantos benefícios do ponto de vista observado.”


Lasse Gliemann, pesquisador da Universidade de Copenhagen, na Dinamarca


Qual é a sua opinião sobre a febre antioxidantes?
Os antioxidantes são parte importante de uma dieta saudável. Mas não há atalhos, como suplementos de resveratrol, para um estilo de vida saudável. Exercício e uma dieta razoável são a única resposta.

Qual pode ser o impacto do seu trabalho?
Essa é aquela história de “muito de uma coisa boa”. Numerosos estudos têm mostrado que um copo de vinho tinto é bom para a saúde, mas muito — pelo menos de resveratrol — não é bom.

Há uma mensagem para levar para casa?
Deixe-me colocar dessa forma: eu mesmo não iria juntar um suplemento antioxidante com o meu regime de treinamento, a menos que o antioxidante fosse mostrado eficaz em ajudar o meu treino. No caso do resveratrol, eu ficaria extremamente desapontado se o meu desempenho após oito semanas de treinamento duro não fosse tão alto como poderia ter sido se eu não tivesse tomado esse antioxidante.