Saúde

Comprar sêmen e fazer inseminação artificial é um tratamento que pode chegar a R$ 5 mil

As estatísticas são falhas e o Conselho Federal de Medicina não sabe quantas brasileiras fazem essa opção, mas o que se pode afirmar é que se antes a mulher tinha vergonha da opção, hoje ela busca o tratamento de forma aberta e tranquila

Maria Júlia Lledó

"Diante das circunstâncias de não ter um companheiro ou ter que casar com alguém somente para ter um filho, achei melhor enfrentar a minha situação como de fato ela era." - Roberta (nome fictício), 42, mãe de uma menina de 3 anos
Ao ano, em média 30 mulheres procuram a clínica Hunttington Medicina Reprodutiva, em São Paulo, onde trabalha o médico Maurício Barbour Chehin, especialista em reprodução humana. Em Brasília, na clínica Genesis, essa média é de 10 mulheres. Esta, como outras clínicas de reprodução assistida na capital, importa sêmen de São Paulo. “O sêmen custa em torno de R$ 2 mil. Um preço alto não só pelo custo do transporte, como também porque o doador passa por uma série de exames durante a triagem até ser aprovado. Outro custo refere-se à produção ovariana da mulher durante as tentativas de inseminação intrauterina. No total, diria que é um tratamento em que se gasta por volta de R$ 4 mil a 5 mil”, conta o médico Adelino Amaral, que atende mulheres das classes A, B e C com o mesmo sonho de ser mãe.


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O Conselho Federal de Medicina (CFM) ainda não sabe exatamente quantas brasileiras optam pela produção independente em clínicas de fertilização. “As estatísticas em relação a isso são falhas e temos dificuldades de apurar”, explica o médico José Hiran Gallo, coordenador da Câmara Técnica de Reprodução Assistida do CFM. O que se pode afirmar, diz Maurício Chehin, é que, há 25 anos, a mulher que queria ser mãe por esse método vinha com muita vergonha do que os outros poderiam falar. “Hoje, ela nos busca de forma aberta e muito mais tranquila. A mentalidade mudou, mas elas ainda não querem tornar esse um caso público”, constata.

A princípio, a administradora Roberta (nome fictício), 42 anos, descartava a ajuda da ciência para ser mãe, mas teve de rever seus planos. Aos 27, ela se casou e logo quis engravidar. Foram quatro tentativas, mas nenhuma vingou. Naquele momento, a dificuldade de ter filhos levou ao fim do casamento. Passados seis anos, um novo namorado. Este, com problemas relativos à guarda compartilhada dos filhos do casamento anterior, anunciou que não tinha intenção de aumentar a família.

“Até que me vi com 38 anos sem um parceiro que quisesse ter um filho comigo. Minha contagem de óvulos estava diminuindo e fiz a conta do tempo que precisava para conhecer alguém, para a relação ficar mais séria, convencer o cara a ter um filho comigo… Não queria repetir o mesmo erro de casar para ter filhos. Foi aí que comecei a trabalhar, na terapia, a ideia de ter um filho sozinha”, conta Roberta. Ela até cogitou pedir a um amigo. “Mas achei que seria esquisito misturar as coisas, porque nossa relação iria mudar quando o bebê nascesse.”

Ao procurar a ginecologista, Roberta passou a cogitar a possibilidade de uma reprodução assistida com o sêmen de um doador anônimo. Assim como ela, outras mulheres com idade parecida, carreira estabelecida e sem um parceiro recorrem a esse método. Segundo o médico Maurício Barbour Chehin, a opção pela produção independente com um doador anônimo só vem aumentando. Principalmente, aponta o especialista, porque essas mulheres também se mostram mais seguras para encarar a maternidade sozinhas.

Ainda assim, Roberta prefere não revelar a identidade para preservar a filha do eventual preconceito que ronda uma decisão “fora dos padrões”. Tanto que, no começo, a própria família da administradora foi contra. “No ambiente de trabalho, surgiam especulações quando me viram grávida. Quando me perguntavam, num tom de fofoca, eu ignorava. Agora, se havia um carinho e amizade, eu compartilhava minha história”, recorda. Roberta sabe que não passaria por tantos questionamentos se tivesse um filho com um parceiro. Por isso, ela sempre deixou claro para os pais e os amigos que, apesar de achar a figura do pai indispensável, não havia outra forma de ser mãe. “Diante das circunstâncias, de não ter um companheiro ou ter que casar com alguém somente para ter um filho, achei melhor enfrentar a minha situação como ela de fato era.”

Hoje, a filha de Roberta tem 3 anos e ainda não perguntou como foi gerada. A dificuldade para explicar, segundo a mãe, está no fato de que esse homem não existiu fisicamente na concepção. “A maior dúvida é como, quando e o que contar para os filhos. Há muitos estudos realizados por psicólogos com essas mães que dizem que o melhor momento para contar é durante a infância. Assim que a criança já tem um tipo de entendimento, a verdade é dita na linguagem dela: dizer que ela foi gerada com muito amor, mas com um método diferente para que ela assimile de forma natural. Tanto que orientamos um acompanhamento com terapeutas”, reforça Maurício Chehin.

Tais mulheres são orientadas por uma equipe multidisciplinar, ou seja, formada por profissionais de diversas áreas, inclusive psicólogos. Essa e outras resoluções fazem parte das normas éticas para o uso das técnicas de reprodução assistida, regulamentada pelo Conselho Federal de Medicina em 1992. Graças a esses cuidados, o médico Adelino Amaral conta que, até hoje, nunca viu uma mãe arrependida de ter feito uma reprodução assistida.

Segundo a psicóloga Helena Loureiro Montagnini, especialista em casos de reprodução humana assistida, é importante esse acompanhamento inicial para que a mulher se certifique da escolha que está tomando. “Algumas trazem ao consultório suas dúvidas. Outras não querem vir mesmo quando o médico as encaminha para o atendimento psicológico. Falo para todas que é sempre bom pensar e refletir sobre essa escolha porque a mulher e a criança deverão passar por desdobramentos diferentes”, ressalta.

O nome do meu pai é doador
Os dados ainda são escassos, mas estima-se que, anualmente, nos EUA, 60 mil crianças vêm ao mundo via reprodução assistida. Tal fato instigou os pesquisadores Elizabeth Marquardt, Norval D. Glenn e Karen Clark a reunirem 485 pessoas, com idade entre 18 e 45 anos, concebidas por doação de esperma. A pesquisa, de 2010, denominada “O nome do meu pai é doador” relata que 2/3 desse grupo reconhecem o doador como parte de quem eles são. Mais da metade afirma que, quando vê alguém parecido fisicamente na rua, logo pensa que pode ser um parente. E 2/3 reivindicam o direito de saber a verdade sobre sua origem. Nos Estados Unidos, como no Brasil, o anonimato é preservado. Em 2005, o Reino Unido baniu a regra: todos podem buscar a identidade do pai. Lá, a cada ano, cerca de 2 mil crianças são fruto de reprodução assistida.