Saúde

Psiquiatra aponta diferenças cognitivas entre assassinos que premeditaram crimes e os que agiram por impulso

Para alguns profissionais, esse tipo de divisão pode ser muito reducionista

Isabela de Oliveira

O assassino em massa norte-americano Charles Manson, em foto de 2011: estudiosos defendem que os assassinos impulsivos apresentam padrões de ativação cerebral e funções executivas diferentes dos homicidas que planejam seus crimes
Eles vivem mais perto do que imaginamos, mas não são fáceis de reconhecer. Alguns cometem seus crimes sem culpa, enquanto outros se arrependem amargamente. As mortes mais brutais podem acontecer por excesso de amor, ódio e até mesmo por ausência completa de sentimento. No entanto, não há uma receita para um assassino. Os motivos que os levam a matar ainda são um intrincado quebra-cabeça. Para entender melhor como funciona a mente de um homicida, o psiquiatra norte-americano Robert Hanlon levantou as principais diferenças entre os matadores, que, segundo ele, podem ser classificados, de maneira geral, como impulsivos ou predatórios.


Dada a complexidade do tema, muitas vezes é difícil classificar determinado homicida como impulsivo ou predatório. De uma maneira geral, contudo, o primeiro grupo, como o nome já diz, age sem premeditação, característica marcante do outro tipo. A tese de que as duas formas de violência são caracterizadas por fenótipos comportamentais diferentes tem sido muito estudada pelas ciências forenses. Estudiosos como Hanlon defendem que os assassinos impulsivos apresentam padrões de ativação cerebral e funções executivas diferentes dos homicidas que planejam seus crimes. No entanto, até agora, nenhuma pesquisa havia examinado a extensão das distinções neuropsicológicas e intelectuais entre os dois tipos.

Hanlon, que é pesquisador da Northwestern University Feinberg School of Medicine, em Chicago, avaliou 77 homens e mulheres acusados ou condenados de assassinato em primeiro grau. Cumprindo pena em penitenciárias dos estados americanos de Illinois e Missouri, o grupo foi responsável, junto, pela morte de 137 pessoas. Os resultados revelaram diferenças em vários aspectos (veja quadro acima). Entre os assassinos impulsivos, por exemplo, o QI médio verificado foi de 78,86. Já os criminosos que premeditaram suas ações tiveram a média muito superior, de 93. O primeiro grupo também se saiu pior na avaliação de funções cognitivas, como a capacidade de memória.

Ele destaca ainda que a análise da ativação cerebral regional relacionada à violência dos assassinos impulsivos sugere hipoativação em áreas ligadas ao controle de impulsos e outras funções executivas. Psicologicamente, os homicidas passionais mostraram ter uma ampla gama de psicopatologias graves, como características de personalidade passivo-agressiva, transtorno de personalidade limítrofe, raiva crônica e apego temeroso. “A pesquisa tem implicações diretas para a política, o desenvolvimento de estratégias preventivas, a aplicação da lei e o sistema legal, que poderá ter mais subsídios para avaliar os riscos de reincidência e a elaboração de programas de reabilitação”, defende o psiquiatra.

Emoções
O especialista destaca que a noção de violência impulsiva é precedida por altos níveis de excitação e emoção. Já a violência premeditada é um comportamento intencional e pró-ativo, no qual as metas variam de acordo com a motivação do agressor, que normalmente não sente os efeitos da alta excitação antes de matar uma pessoa.

Maria da Conceição Krause, psiquiatra clínica e médica legista do serviço de psiquiatria forense da Policia Civil do Distrito Federal explica que, após roubar ou matar alguém, alguns indivíduos de fato não mostram qualquer ansiedade, depressão, culpa ou remorso pelo crime. “Eles podem sair do local sem apresentar nenhum constrangimento causado por ansiedade. Portam-se como alguém que realizou um serviço e veem o outro como presa emocional, física ou econômica”, detalha a especialista.

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Segundo Krause, outra característica marcante desses criminosos é que eles são menos inclinados ao comportamento violento gratuito, focando mais ao que é suficiente para atingir seus objetivos. Isso porque se utilizam da inteligência para mediar impulsos, diferentemente dos criminosos menos inteligentes, que usam violência maior do que a necessária para compensar um repertório pobre em habilidades.

Ela relembra um caso no qual trabalhou, em que uma jovem foi encontrada morta um mês depois de desaparecer. O perfil do agressor elaborado pela equipe policial identificou um sujeito que sempre buscava atividades com grandes cargas de adrenalina, era metódico e cauteloso. Durante o crime, o temperamento do agressor foi controlado, e o maior prazer que sentiu foi o de mostrar à vítima que ele tinha o controle da situação e dela. “Esses criminosos, geralmente, matam por asfixia, que passa a ideia de maior intimidade com a vítima, e possuem comportamento ritualizado, com características de assassino sexual serial.”

No homicídio lembrado por Krause, as cordas utilizadas para a contenção da vítima foram dobradas cuidadosamente ao meio, e os nós eram iguais, em forma de laçada. O local do crime era escuro e ermo. “Uma verdadeira assinatura de sua personalidade. Podemos inferir, então, como ele foi criado e como mantinha seus vínculos sociais. Quando foi preso, em determinada ocasião, amarrou dois objetos com o mesmíssimo laço. Ele morava perto da casa da vítima e do local onde o crime foi perpetrado”, detalha a policial.

Crítica
Uma possível crítica ao estudo de Hanlon é que sua separação entre impulsivos e predatórios, com características tão diferenciadas, seja muito reducionista. É o que aponta Marilúcia Pereira do Lago, doutora em psicopatologia clínica e da violência. Segundo ela, realmente, um crime motivado por uma paixão ou impulso é desorganizado, intenso, descuidado e mostra fragilidade e insensatez diante da paixão. “A pessoa é tomada pela incompreensão e incapacidade de julgamento moral da sua tomada de decisão. Mas não necessariamente o QI dessa pessoa é mais baixo, pois todos nós reduzimos à paixão”, defende Lago, que é pesquisadora do curso de psicologia da Universidade Federal de Goiás (UFG).

Segundo ela, estudos orientados por uma concepção muito biológica de homem, como a linha adotada pelo psiquiatra norte-americano, trazem alguns riscos. “Entendo o homem como um ser de natureza ampla, que está para além do biológico. Aliás, só nos constituímos homens, enquanto seres sociais, de linguagem, capazes de amar, de trabalhar, de criar e recriar o mundo, à medida que transpomos nossas limitações biológicas e construímos um universo simbólico, no qual desenvolvemos nossa capacidade de afeto, nossa moralidade, nossas leis e nossos valores”, afirma.

Krause lembra que estudos sobre a família asseguram a existência de condições adversas na história de vida de indivíduos delinquentes, incluindo técnicas disciplinares punitivas excessivamente duras e com parco desenvolvimento das habilidades sociais. Hanlon também destaca que infâncias abusivas podem influenciar no aparecimento de um agressor. “Não existe tratamento nem cura para esses criminosos, porque não se trata de doença, mas, sim, do desenvolvimento e cristalização de tipos de personalidade que não sofrem com suas condutas infligidas aos outros”, acredita.

A partir de todas as observações, Hanlon acredita que, mais do que entender a mente dos homicidas, a esperança dos estudiosos é criar maneiras de resguardar a população e punir os atos de maldade da forma mais justa. As investigações estão longe de chegar ao fim. Afinal, ele lembra, ainda não se conhece a receita que constrói um assassino.

Depois de estudar 77 pessoas condenadas por homicídio, psiquiatra americano aponta diferenças cognitivas entre aqueles que premeditaram os crimes e os que agiram por impulso. Para alguns profissionais, esse tipo de divisão
pode ser muito reducionista

Pesquisas anteriores
Maria da Conceição Krause destaca que estudos anteriores mostraram que assassinos impulsivos surpreendem as vítimas, as desfiguram, tentam manter relações sexuais e deixam pistas, como sêmen. Além disso, usam pés e mãos como armas, têm histórico de crimes violentos, desordem, bebedeira, uso ou tráfico de drogas, crimes sexuais ou de trânsito e mantêm elacionamentos estáveis. Já os predatórios possuem um kit de objetos para ajudá-los no crime e escondem o corpo. Também coletam suvenir e destroem evidências.